O acidente de avião que matou o melhor jogador da Inglaterra

Foto: Guardian
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Munique, 6 de fevereiro de 1958. O time do Manchester United fazia uma escala para reabastecimento na Alemanha depois de voltar de Belgrado, antiga Iugoslávia, onde enfrentou o Estrela Vermelha pela Copa dos Campeões Europeus. Os Red Devils empataram a partida por 3-3, mas se classificaram para as semifinais por terem vencido os sérvios no placar agregado. Mas oito dos integrantes do elenco jamais retornariam à Inglaterra. Entre eles, o meia Duncan Edwards, de 21 anos, o jogador mais talentoso de sua geração.

Alguma coisa sobrenatural avisou aos tripulantes do Airspeed AS-57 Ambassador que eles não deviam levantar voo. Por três vezes o capitão James Thain tentou decolar do aeroporto de Munique, mas encontrou dificuldades técnicas. A determinação em cumprir a agenda prevista pelo plano de decolagem foi um fator determinante para a fatalidade, conhecida como a Tragédia de Munique. 

O relógio apontava 14h19 no horário alemão. A torre de controle concedeu permissão para que Thain iniciasse os procedimentos de decolagem, mas o piloto abandonou a rotina por notar que havia um problema no motor e uma falha no indicador de velocidade. Com esses empecilhos, seria impossível tirar o avião do solo.

Foto: Independent
Edwards brinca com a bola em Old Trafford / Foto: Independent

A segunda tentativa, feita três minutos depois, detectou um erro na mistura de combustível que poderia causar uma aceleração dos motores acima da capacidade normal. Alguns passageiros deixaram a aeronave e avisaram suas famílias que o retorno para a Inglaterra estava adiado. Edwards enviou um telegrama à sua noiva para comunicar o atraso.

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Quinze minutos se passaram e começou uma verdadeira nevasca na região. O horário já havia ultrapassado o prazo estabelecido pelos controladores de voo na torre de comando. Mesmo assim, o comandante Thain requisitou que a delegação reembarcasse para mais uma tentativa. Ele acreditava que acelerar mais lentamente a aeronave resolveria o problema. Preocupado em cumprir os horários à risca, o capitão colocou a vida de todos em xeque.

A pista de decolagem tinha dois quilômetros de extensão e o piloto não viu nenhum problema nisso ao tentar subir em velocidade reduzida. Temendo o pior, o ponta irlandês Liam Whelan gritou do meio do grupo de passageiros que aquilo poderia ser a sua morte, mas que estava pronto para encará-la. Nos acidentes aéreos toda mística é abandonada e naquele dia, em Munique, até o mais cético se apegou à fé para continuar vivo.

Debaixo de neve, pela terceira vez, Thain iniciou os procedimentos de decolagem. O relógio já marcava 15h03, portanto 30 minutos além do prazo estipulado pelos alemães. Um explicação idiota, e até infantil, explica a resistência do comandante em permanecer mais uma noite em solo alemão. James não queria dormir outra vez em um hotel e por isso forçou a volta para o seu país.

Abaixo da aceleração necessária, o Ambassador, que levava 44 pessoas começou a correr na pista do aeroporto. No trecho final de estrada, antes da última roda beijar o ar de Munique, pedaços de neve derretida diminuíram o ritmo da aeronave.

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Duncan, o prodígio

Foto: Getty Images
Duncan é o quinto em pé da esquerda para a direita / Foto: Getty Images

Duncan Edwards nasceu em 1º de outubro de 1936, em Worcestershire, na Inglaterra. Desde muito jovem se destacou nas equipes de base do Manchester United. O talento era tão evidente que o lendário técnico Matt Busby optou por dar uma chance ao menino, com apenas 16 anos, em 1953. A estreia de Duncan aconteceu contra o Cardiff, em 4 de abril, pela Liga inglesa. O United perdeu por 4-1.

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Aquela geração nascida nos gramados do Old Trafford era tão boa, que a imprensa criou em torno dela uma imagem quase familiar. O pai, Busby, emprestou seu nome ao grupo de moleques: Busby Babes. Décadas mais tarde, um treinador repetiu o feito ao promover atletas revelados naquela que ficaria conhecida como A classe de 92. Alex Ferguson lançou David Beckham, Ryan Giggs, Paul Scholes, Gary e Phil Neville e Nicky Butt no plantel titular.

Com a camisa do time, Duncan se firmou a partir de sua segunda temporada, em 1953-54. Aos 18 anos, em 1955, foi convocado pela primeira vez para a seleção inglesa, contra a Escócia na Copa Britânica, amistoso que colocava frente a frente os dois países em caráter anual. Foi o jogador mais jovem a vestir a camisa da Inglaterra, marca superada 43 anos depois por Michael Owen em 1998.

O garoto sabia muito de bola. Era forte, robusto e ligeiro para um jogador que atuava pela ponta esquerda. Driblava, tinha um chute potente e se colocava muito bem para armar ofensivas. A confiança era uma das maiores qualidades do jogador, que mal teve tempo de amadurecer. Duncan certamente estaria entre as lendas de 1966, campeãs mundiais em Wembley.

Foto: Guardian
Foto: Guardian

O jogador foi peça fundamental no bicampeonato inglês dos Red Devils em 1956 e 57. Também virou titular da seleção e desfilou enorme poder de decisão nas partidas que classificaram o país para a Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Estava cotado para assumir o posto de capitão depois do torneio, quando Billy Wright penduraria as chuteiras. Na primeira vez em que participou de uma Copa dos Campeões, em 1956-57, o time de Busby meteu 10-0 no Anderlecht, jogando em casa. A campanha durou até a semifinal, quando o Real Madrid de Alfredo Di Stéfano eliminou os mancunianos.

O potencial do garoto de 21 anos era inegável. Ele e o United pareciam destinados à grandes feitos, entre eles a conquista de muitas copas. Imaginar onde este time poderia chegar, assim como o Grande Torino de 1949, vitimado por um parecido acidente aéreo, fica no terreno das hipóteses e na nossa imaginação.

Duncan parecia um audacioso menino sedento por sucesso. Era considerado brilhante demais para o, até então, inglório futebol inglês. Toda a esperança residia nas suas chuteiras de couro. Foram quase cinco temporadas de serviço. E mesmo nesse curto espaço de tempo, fez história. Foi ídolo, promessa e craque.

6 de fevereiro de 1958

Foto: The Republic of Mancunia
Foto: The Republic of Mancunia

O tempo parecia ter parado, quando o relógio bateu 15h03, no aeroporto Munich-Riem. A torre de comando autorizou a decolagem do voo BE609 da Britânica British European Airways. Na cabine, ao lado do piloto James Thain estava o copiloto Kenneth Rayment. Depois de passar por cima da neve derretida, o avião perdeu velocidade, o que foi suficiente para mantê-lo grudado ao solo. A arrancada não foi suficiente para fazer o avião ganhar o céu e logo o desespero tomou conta dos 44 passageiros.

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Ao invés de ganhar altura, a aeronave desacelerou, derrapou, saiu da pista e bateu em uma grade, fora da área do aeroporto. O Ambassador atravessou a rodovia e chocou-se com uma casa. A parte direita da fuselagem acertou uma árvore e uma construção de madeira, onde estava um caminhão com combustível, que explodiu com o impacto. Vinte pessoas morreram instantaneamente e outras três vieram a falecer dias depois, em consequência a complicações clínicas. O goleiro do United, Harry Gregg, mesmo ferido na cabeça, ajudou a salvar os outros passageiros. Geoff Bent, Roger Byrne, Eddie Colman, Mark Jones, David Pegg, Tommy Taylor e Liam Whelan, integrantes do plantel de Busby, nem chegaram a ser transportados para o hospital e morreram.

Bobby Charlton, que foi campeão mundial em 1966, foi um dos sobreviventes. Busby chegou a receber a extrema unção duas vezes, mas sobreviveu. Precisou ficar dois meses na Alemanha se recuperando, por danos graves aos pulmões. Thain sobreviveu e foi absolvido 10 anos depois pelo acidente, que foi atribuído pela Justiça a problemas na pista de Munique.

Duas semanas de agonia

Duncan Edwards chegou em condições estáveis ao Hospital Recht der Isar, apresentando apenas fraturas e problemas nos rins. Inicialmente lúcido, o jogador brincou com os médicos querendo saber quando seria a próxima partida do United. Por causa das pernas quebradas, os responsáveis duvidavam que ele poderia voltar a atuar em alto nível.

Uma semana depois, ainda em terapia intensiva, Edwards apresentou melhora e animou a equipe médica. Contudo, a hemodiálise não adiantou por muito tempo e sua saúde se deteriorou rapidamente até o dia 19 de fevereiro. O garoto lutou pela vida por mais dois dias, até deixar de existir na madrugada do dia 21. Com ele, morreu a juventude e um pouco da audácia de cada inglês que via nele o talento de um craque de nível mundial.

O grande Charlton diria, anos após a sua aposentadoria, que Edwards foi “o único que lhe fez sentir tecnicamente inferior”. Uma forma respeitosa e que sintetiza o que Duncan representa para seu povo. Ainda hoje, jornais ingleses discutem se ele foi o maior jogador que o país já produziu. Os mais céticos chamam de nostalgia. Nostalgia de uma promessa que nem chegou a acontecer.

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