Torcidas sul-americanas que abraçaram apelidos pejorativos

Foto: Estadão
Foto: Estadão

Ao longo da história da humanidade, são comuns os casos de pessoas que abraçaram ofensas e fizeram delas uma motivação para seguir adiante. No futebol, em que as lendas de superação brotam do gramado, não seria diferente. Em um ambiente propenso a xingamentos e tentativas de desestabilizar o adversário, atacar as fraquezas do outro é uma arma que faz parte do jogo, à parte de discussões sobre moralidade. E nesse contexto, várias torcidas abraçaram a provocação alheia como identidade própria.

É um fenômeno curioso e que carece de estudos a respeito, mas aceitar a ofensa do outro e torná-la parte de si é uma forma de enfraquecer a vil tentativa de desmontar o seu lado psicológico. Por que pegar um xingamento e fazer dele um elogio? Por que é preciso reconhecer as suas origens e seu passado.

Sabendo isso, fica mais fácil a tarefa de entender a motivação de quem inverte o jogo dos impropérios. Como é que as torcidas de grandes clubes sul-americanos adotaram os apelidos indesejados?

Canallas e Leprosos (Rosario Central e Newell’s)

Foto: Taringa
Foto: Taringa

Newell’s Old Boys e Rosario Central fazem uma das maiores rivalidades da Argentina. Nos anos 1920, quando já lutavam por espaço no cenário nacional, o Hospital Carrasco promoveu um amistoso beneficente para ajudar o Patronato de Leprosos, uma instituição que cuidava dos pacientes com lepra. O plano da entidade era colocar Newell’s e Central em campo para divulgar a causa.

Como o Central se recusou a participar, os integrantes do Newell’s passaram a chamar os rivais de canalhas, e em troco receberam o apelido de leprosos, por se misturarem com os enfermos. Anos mais tarde, as pechas viraram motivo de orgulho e foram criadas dissidências de torcidas com estes nomes. Hoje, quem é do Newell’s se autoproclama leproso e os do Central se dizem canalhas.

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Outras definições trocadas entre os torcedores são: pechofrio, em função de um suposto desânimo histórico da hinchada rubro-negra; e sin aliento, denominação usada por gente do Newell’s para ridicularizar o fato do Central ter por muito tempo usado o sistema de som do seu estádio para tocar cantos de torcida, pois os seus não conseguiam fazer barulho suficiente. E assim caminha a guerra entre vizinhos em solo rosarino.

Bosteros e Gallinas (Boca Juniors e River Plate)

Foto: Trivela
Foto: Clarín

O Boca Juniors inaugurou o estádio Alberto José Armando, conhecido como La Bombonera em 1940. Naquele tempo, começava a ganhar força o nome de Ángel Labruna, atacante do River Plate. Polêmico e provocador, Labruna achou um jeito de tirar a torcida xeneize do sério: como durante muito tempo os esgotos ao redor da Bombonera (no bairro pobre de La Boca) causavam um cheiro forte dentro de suas instalações, o jogador passou a entrar em campo tampando o nariz. Os vizinhos do estádio boquense, em sua maioria torcedores do River, já chamavam os de azul y oro de bosteros. Sim, por isso mesmo que você imagina, não é necessária a tradução.

Os xeneizes se vingaram em 1966, quando conseguiram munição para rotular os do River. Na final da Libertadores, os Millonarios foram derrotados pelo Peñarol de virada por 4-2. Dias depois, quando o River enfrentou o Banfield pelo Nacional, os torcedores visitantes soltaram uma galinha no campo, propiciando uma piada instantânea para todas as outras hinchadas do país. Dali em diante, quem se diz do River é chamado de gallina, ou galinha em português. Eventualmente eles aceitaram e até fizeram cantos reconhecendo que são galinhas com orgulho.

Los quemeros (Huracán)

Foto: Aguante Huracán
Foto: Aguante Huracán

O Huracán também tem um apelido em particular que começou como ofensa. Quem torce para o Globo (alusão ao balão do escudo) é chamado de quemero. A palavra vem do fato que o estádio Tomás Adolfo Ducó fica próximo a um lixão, onde detritos eram incinerados a céu aberto. Por causa disso, o cheiro na região era fortíssimo. Assim como o Boca, o Huracán acabou tendo o odor de alguma forma colado em sua identidade. Não que a torcida ligue para isso…

Triperos (Gimnasia y Esgrima de La Plata)

Tripero Gimnasia

Se você acha que o apelido tripero é por demais macabro, nós estamos com você nessa. Mas calma, o pessoal do Gimnasia y Esgrima de La Plata não é chamado assim porque seus torcedores são assassinos que estripam suas vítimas. Ainda em 1887, quando o clube foi fundado, um açougue platense apoiou financeiramente as atividades do Gimnasia. La Plata é conhecida dentro da Argentina por ser referência em frigoríficos.

Anos mais tarde, houve identificação de funcionários do frigorífico com o time, que era constantemente ofendido pela elite argentina como uma classe de açougueiros. Ou triperos, uma forma cruel de se referir às pessoas que frequentam o matadouro para retirar as tripas de animais que não são vendidas no mercado, por pobreza. Simplificando a questão: a associação é com a baixa renda dos torcedores.

Porco (Palmeiras)

Foto: IG
Foto: IG

A história do Palmeiras com o apelido de Porco é uma das mais curiosas do futebol brasileiro. Desde que o clube sofreu uma reformulação e deixou o Palestra Itália para trás, em 1942, o mascote escolhido era um simpático periquito. Em ações não-oficiais, até mesmo o papagaio Zé Carioca serviu como ilustre torcedor palmeirense, apesar de pertencer a uma espécie diferente. Reza a lenda que o bairro da Água Branca/Vila Pompeia tinha grande concentração de maritacas e periquitos. As aves viraram folclore palestrino nos anos 20 em virtude da cor verde. Até hoje o periquito aparece no estádio como mascote nos intervalos, como podemos ver no Periquitão

Contudo, em 1969, o Corinthians foi abatido com uma tragédia: os jogadores Lidú e Eduardo sofreram um acidente de carro na Ponte da Vila Maria e morreram. A medida da diretoria alvinegra foi solicitar à Federação Paulista a reposição dos dois atletas falecidos. O único cartola na reunião que votou contra foi o então presidente palmeirense Delfino Facchina, para a revolta do mandatário corintiano Wadih Helu, que o chamou de porco. A torcida palmeirense demorou alguns anos para adotar a alcunha. O momento marcante em que isso aconteceu foi em novembro de 1986, quando o meia Jorginho Putinatti posou para a capa da Revista Placar segurando um porco, quebrando simbolicamente a ofensa.

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Coxa Branca (Coritiba)

Foto: Site oficial Coritiba
Foto: Site oficial Coritiba

O Coritiba era um clube que aceitava apenas jogadores brancos em seu elenco. Na época, muitos descendentes de alemães fardavam a camisa da equipe. O ano era 1941 e a rivalidade com o Atlético já ardia no coração dos alviverdes. Em um Atletiba, o time do Alto da Glória vencia quando um torcedor atleticano tentou desestabilizar o zagueiro Hans Breyer chamando-o de quinta coluna. A expressão define grupos clandestinos que espionam e/ou sabotam países inimigos em períodos pré-guerra. No entanto, o xingamento não causou nenhum efeito. Insistente, o mesmo torcedor começou a berrar a palavra coxa-branca em direção a Hans, desencadeando uma reação maior na massa rubro-negra presente. O apelido pegou aí.

Ironicamente, o exaltado atleticano em questão era Jofre Cabral, que virou presidente do Atlético em dezembro de 1967. Ele morreu em junho de 1968 após sofrer um ataque cardíaco dentro do estádio Vitorino Gonçalves Dias, em Londrina, durante uma partida do Furacão contra o Paraná Esporte Clube (extinto em 1969 após fusão com o Londrina Futebol e Regatas, hoje o Londrina Esporte Clube). Já Hans, o alemão provocado por Jofre, morreu em 2001, reconhecido como “o primeiro coxa-branca da história”. Atualmente não há um torcedor do Coritiba que não se orgulhe do apelido.

Urubu (Flamengo)

Foto: GloboEsporte.com
O primeiro urubu flamenguista da história / Foto: GloboEsporte.com

Obviamente não podia faltar a explicação do apelido de urubu dado à torcida flamenguista. Conta o próprio site do Flamengo que a intenção inicial era que o personagem Popeye fosse o mascote do rubro-negro, mas a ideia não pegou entre os torcedores. A partir dos anos 1960, rivais do Fla passaram a usar o animal como forma de ironizar o caráter popular do time da Gávea, com forte apelo entre a comunidade afrodescendente. Isso mesmo, uma “brincadeira” com cunho racial.

No entanto, não demorou para que a nação achasse um jeito de rir da troça. Quatro flamenguistas aproveitaram que era um fim de semana de clássico contra o Botafogo, pelo segundo turno do Carioca de 1969 e aprontaram uma boa: pegaram um urubu em um lixão na zona norte, para levá-lo ao Maracanã. O Fla não vencia o Bota havia quatro anos. Antes da bola rolar, o grupo soltou o urubu no campo, fazendo com que ele voasse levando uma bandeira rubro-negra. A torcida explodiu com a aparição do animal e começou a gritar: “é urubu! é urubu!” A referência ao novo mascote foi tão bem aceita como forma de calar os adversários que o Flamengo até nomeou o seu CT como Ninho do Urubu.

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Timbu (Náutico)

Foto: Diário de Pernambuco
Foto: Diário de Pernambuco

São duas as versões que contam sobre a escolha do Timbu como o mascote e um dos apelidos do Náutico. A mais famosa é que durante um jogo do alvirrubro contra o América-PE em 1934, o técnico do Náutico levou uma garrafa de conhaque e serviu para os seus atletas, já que chovia e fazia muito frio na ocasião. Os torcedores adversários notaram que os jogadores estavam bebendo e começaram a gritar ‘Timbu’, em alusão ao carismático marsupial (um gambá de orelha branca) que pode ser capturado com uso de cachaça como isca. Esse mito sobre o animalzinho culminou no apelido do Náutico, aceito depois de alguns dias pela diretoria do clube.

Graças a isso, criou-se a ideia de que os gambás são alcoólatras e daí saiu a expressão “bêbado como um gambá”. A outra versão é que os torcedores do time recifense costumavam comemorar sempre as vitórias em bebedeiras épicas. Ah, antes que o registro fique perdido: o Timbu venceu o tal jogo contra o América por 3-1.

8 pensamentos em “Torcidas sul-americanas que abraçaram apelidos pejorativos”

  1. Excelente materia a de vcs todos os tópicos interessantes mas as que mais me chamaram a atenção foram do Gimnasia y esgrima la plata, newell s x rosario, huracan e timbu.

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