O dia em que Pasolini saiu na capa do caderno de esportes

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A quarta rodada do campeonato italiano do dia 3 de novembro de 1975 teve oito partidas: a Juventus venceu o Cagliari por 1 a 0, Roma e Como empataram sem gols, a Fiorentina venceu o Perugia por 3 a 1, o Milan goleou o Ascoli por 4 a 0, o classico do norte Torino e Inter terminou 2 a 1 para o time de Turim, Cesena e Sampdoria empataram em 1 a 1, Verona e Napoli fizeram uma empolgante partida que terminou 2 a 4. E em Roma, no Olímpico, Lazio e Bologna fecharam o dia com um empate de 1 a 1. Nenhuma dessas partidas estaria na capa dos cadernos de esporte italianos na manhã de segunda-feira.

Pier Paolo Pasolini morreu num domingo, dia santo para quem ama futebol. Foi assassinado barbaramente em um canto escuro de Óstia e as circunstâncias da sua morte até hoje são um mistério. Friulano e torcedor do Bologna, naquele domingo, certamente, estaria na primeira fila no Olímpico para assistir a partida contra a Lazio, porque amava o futebol, talvez mais do que amava a literatura e o cinema.

Mamma Bologna

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Seu ídolo na infância era Amedeo Biavati, campeão do mundo em 1938. Viu jogar a melhor formação do Bologna de sempre, com Biavati, Sansone, Reguzzoni, Andreolo, Marchesi, Fedullo e Pagotto. Mas foi Giacomo Bulgarelli, um dos responsáveis pelo scudetto do Bologna, que fez Pasolini se sentir um mero mortal. “No dia que conheci Bulgarelli, foi como se tivesse visto Jesus Cristo”.

Quem melhor definiu o Pasolini jogador foi Fabio Capello: “Pier Paolo tinha uma paixão verdadeira pelo futebol. Era talentoso, jogava na ponta, tinha velocidade, sabia driblar e podia envolver os outros, dentro e fora do campo, com a sua personalidade. Nos conhecemos no final dos anos 60, e me causou uma grande impressão: era leve, quase tímido, mas muito agradável e com uma grande cultura. Ele tinha verdadeiro interesse por muitas coisas, e entre elas, claro, o futebol. Ele via o futebol como a vida”.

O envolvimento de Pasolini com a bola começou cedo. Foi capitão do time da Faculdade de Letras e um dos idealizadores da seleção dos artistas, que reuniu cantores, atores e intelectuais.

Depois da derrota da Azzurra para o Brasil, na final da Copa de 1970, Pier Paolo escreveu “A linguagem do futebol”, transpondo os sígnos da escrita para o futebol. Gigi Riva se transforma em poeta realista, Mario Corso um poeta maldito e Gianni Rivera um prosador poético.

Pasolini x Bertolucci

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© ANSA

Na primavera de 1975, Pasolini filmava “Salò, 120 dias de Sodoma” em San Lorenzo di Mantova, enquanto Bernardo Bertolucci estava terminando de rodar “Novecento” em Parma, sua cidade natal. A relação entre os dois não era das melhores, desde que Pier Paolo fez severas críticas ao ex-assistente de direção. O jogo, muito além de uma partida entre amigos, ganhou contornos de duelo. O local escolhido para “1900” contra “120” foi o campo de Cittadella, (próximo ao estádio Tardini, onde até hoje o Parma treina), considerado neutro para os membros das duas equipes de filmagem. Era aniversário de Bertolucci e seria a ocasião perfeita para o acerto de contas.

O time “1900” se apresentou em campo com um traje desenhado pelo figurista Gitte Magrini, um uniforme multicolorido e psicodélico que humilharia qualquer adversário. O jornal “La Gazzetta di Parma”, em sua manchete fez piada sobre o assunto, insinuando que o time de Pasolini foi hipnotizado pelo uniforme: “Bertolucci bate Pasolini (5-2) graças aos calções psicodélicos“.

O tiro saiu pela culatra e a partida, que deveria apaziguar as coisas entre os diretores, acabou colocando um ponto final na relação entre os dois. Depois da derrota, Pasolini deixou o campo soltando fogo pelas ventas e acusando Bertolucci de ter escalado jogadores profissionais do Parma. Quando o assunto era futebol, ele não tinha espírito esportivo.

Um lugar seguro

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© Federico Garolla

Polêmico, provocador, detestado por muitos, o personagem público que adorava transgredir todos os limites, encontrava na bola o seu refúgio. No estádio ou nos campinhos da periferia de Centocelle, podia isolar-se e, ao mesmo tempo, divertir-se. A foto que ilustra o amor futebolístico de Pasolini é uma imagem de liberdade e alegria. Vestindo terno e gravata, o poeta não parece fora de lugar no campo de terra batida. Os olhos fixos na bola, no rosto, a expressão concentrada, era novamente só um dos garotos, sem distinção de classe e importância. No futebol, o ateu Pasolini encontrou sua religião. Amém.

2 de Novembro de 1975

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© ANSA

Pier Paolo Pasolini foi escritor, poeta, cineasta, dramaturgo, roteirista, tradutor e jornalista. Traduziu do latim até o dialeto friulano. Apesar de bolonhês, Roma foi sua musa, e ninguém conseguiu filmar tanto sua beleza quanto o seu lado mais sórdido com tanta verdade. Seu cinema não conhecia censura nem limite. Pelas suas lentes passaram grandes nomes como Totò, Anna Magnani, Silvana Mangano, Terence Stamp  e Maria Callas.

Um dos maiores nomes da cultura italiana do século XX, tirou do futebol o estigma de esporte dos ignorantes. Nos anos 70, quando a televisão começou a interferir no esporte, Pasolini fez duras críticas à comercialização do esporte. Não poupou as torcidas organizadas. Para ele os ultras não eram verdadeiros torcedores, pois distorciam a essência da paixão por uma equipe de homens de carne e osso que se superam e dão o melhor em campo.

Na madrugada de 2 de novembro de 1975, Pier Paolo Pasolini foi brutalmente assassinado na avenida costeira de Idroscalo, em Ostia. Poucas horas depois, os policiais prenderam Giuseppe Pelosi, delinquente de 17 anos, dirigindo o Alfa Romeu do diretor. Pelosi confessou o crime e indicou onde o corpo poderia ser encontrado. Durante o julgamento, a versão do assassino foi contestada e novas provas foram apresentadas. Uma testemunha, ignorada pela investigação inicial, afirmava ter visto Pasolini ser arrastado para fora do carro por cinco homens, dando força à hipótese de crime político. Em 2010, o político Walter Veltroni pediu que o processo fosse reaberto. Em outubro de 2015, foi iniciado um abaixo-assinado para instituir uma comissão parlamentar encarregada de reabrir a investigação.  No dia 5 de novembro, estréia no Brasil, “Pasolini”, filme de Abel Ferrara, com Willem Dafoe interpretando o papel título, que mostra o último dia de vida do diretor italiano.

Pier Paolo não viu a Lazio abrir o placar, no dia de finados de 1975. Nem viu o gol contra de Brignani, que empatou a partida, faltando 10 minutos para o apito final. O futebol estava de luto naquele domingo. Um torcedor que amava o futebol estava morto e esta era a notícia que merecia estampar as manchetes de todos os jornais.

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