Léo Gomes e a poesia esquecida da bola

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Pier Paolo Pasolini dizia: “O futebol que expressa mais gols é o futebol mais poético. Também o drible é por si poético (ainda que não se compare com o gol). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por todo espectador) é arrancar do centro do campo, driblar a todos e marcar o gol. Se, dentro dos limites, se pode imaginar uma coisa sublime, é precisamente esta.”

A poesia do futebol, para um menino, começa invariavelmente nas peladas de rua. É ali que ele se destaca, chutando uma pedra, driblando um portão, tentando uma jogada de efeito. E, sem perceber, ele ensaia um soneto, faz uma rima e arrisca um refrão.

Foi assim para Henrique Léo Chirivino Gomes, nascido em 30 de outubro de 1933,  cuja habilidade levou ao juvenil do modesto Sá Viana de Uruguaiana.

Zagueiro que só bate na bola

Léo era raçudo, da longa e notória linhagem de zagueiros gaúchos. Considerado o terror dos ponta direitas, levava tão à sério seu papel de não deixar o adversário avançar na sua porção de campo, que ganhou dois apelidos bastante depreciativos: “Bandido” e “Cuspida”. Para um jovem jogador este tipo de ‘atenção’ da mídia, às vezes pode custar caro. O rapaz era viril, marcava o adversário em cima e entrava duro quando não tinha outro jeito, mas estava longe de ser violento e desleal. Pra cima dele nenhum atacante podia se vangloriar de fazer gol. Era uma verdadeira muralha.

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A história da cuspida é só mais uma daquelas lendas do futebol que ganham corpo e importância a cada vez que são contadas. Quem conta um conto… Reza a lenda que ele cuspiu em um atacante para desarmá-lo. Ninguém sabe se é verdade, mas o apelido pegou. “Cuspida” é famoso até hoje em Uruguaiana.

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1954, o ano que mudou o futebol gaúcho

Em janeiro de 1954, enquanto São Paulo recebia atores e atrizes hollywoodianos para a comemoração do IV Centenário, alguma coisa acontecia em Porto Alegre. Dirigentes gaúchos se reuniam para aprovar a nova fórmula do campeonato de futebol. Nada mais de chave vermelha contra azul, agora todos os times, inclusive os do interior do estado, poderiam participar. Nascia o Gauchão.

Renner e o primeiro título

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Léo Gomes chegou ao Renner para ficar na reserva de Ivo Andrade, o capitão do time e irmão mais velho de Ênio (que anos mais tarde ficaria famoso como treinador e se sagraria campeão brasileiro por Inter, Grêmio e Coritiba). Gomes não era mais o zagueirão dos tempos do Sá Viana e agora fazia a função de volante.

O técnico Selviro Rodrigues, professor de Educação Física do prestigioso Instituto Porto Alegrense (IPA), foi um dos precursores da preparação atlética para os jogadores de futebol, o que explica o vigor e a velocidade do time do Renner. Mas, acima de tudo, o professor Selviro conseguiu transformar o time em um grupo de amigos, cuja camaradagem ultrapassou o campo de jogo e seguiu por toda vida.

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Durante o campeonato, o time se concentrava no IPA sob o olhar rígido do treinador. Os rapazes eram unidos e sempre que podiam organizavam cantorias, jogos de cartas e campeonatos de bilhar. Nas poucas folgas, o grupo ia ao cinema. Com exceção de Léo, que preferia atravessar a rua e passar o tempo livre fazendo a corte à Flavia Terezinha, namorada com quem mais tarde viria a casar.

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No tempo em que as vitórias valiam 2 pontos, o Renner foi campeão citadino invicto, com 15 vitórias e 3 empates. Foi também o ataque mais positivo marcando 59 gols e sofrendo apenas 16 gols. Foi o bicho papão de 1954, vencendo também o campeonato gaúcho e acabando com a longa hegemonia de Grêmio e Internacional.

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Grêmio, Cruzeiro e o fim prematuro da carreira

Em 1957, Léo se transferiu para o Grêmio, onde jogou até 1962. O Grêmio desse período colecionou títulos, aumentando ainda mais a lista de conquistas de Gomes como jogador. No Grêmio de Oswaldo “Foguinho” Rolla (craque dos anos 30 time que se tornou treinador), foi companheiro de equipe de Aírton Pavilhão, Gessy e Juarez, o Tanque, primeiro negro a jogar pela equipe gaúcha.  Já neste período começou a sofrer com contusões.

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Passou do Grêmio para o Cruzeiro de Porto Alegre, que na época era a terceira força do Estado. Os clássicos Gre-Cruz ou Inter-Cruz agitavam as coisas na cidade. Nenhum time tinha vida mole ao enfrentar o Leão da Montanha em seu estádio. Léo não estava em sua melhor forma e, apesar de ter apenas 30 anos, já era considerado velho para o futebol. Na época as carreiras duravam pouco e os salários eram cada vez menos atraentes, ainda mais para um homem casado e com filhos pequenos.

O ponto final foi a ruptura do menisco. Naquele tempo, a solução para o problema era extirpar toda a cartilagem do joelho, o que tornava quase impossível voltar a jogar. Além de causar dores insuportáveis.

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A vida nos campos acabou, mas Léo nunca esteve distante do futebol. Organizou times infantis e foi um dos fundadores do departamento de ex-atletas do Grêmio. Por diversão, os ‘Masters’ se apresentavam pelo interior jogando contra times locais.  Em uma dessas viagens, formou uma inusitada dupla de zaga com o filho: Cuspida e Cuspidinha. Foi a primeira de muitas parcerias entre os dois.

A vida depois do futebol

Começou a vida de ‘homem comum’. Os títulos e os feitos heroicos dos gramados tinham pouca importância, mas a responsabilidade e a disciplina serviram perfeitamente para a nova carreira que escolheu. Começou a trabalhar na Caixa Econômica Federal e logo assumiu o cargo de chefe de seção.  Progrediu rapidamente ao posto de gerente, transferindo-se para Giruá, pequena cidade muito longe de Porto Alegre. Nenhum desafio era grande demais para Léo, e seu sucesso na agência não passou despercebido. Foi novamente promovido e assumiu mesmo cargo em uma agência maior, em Soledade.

Descobriu os pequenos prazeres da vida como ensinar o filho a nadar nas águas do rio Guaíba. Na vida com Flávia, seu único e grande amor, e os filhos, Luiz Henrique e Márcia, nunca faltava música, com os saraus semanais. O guri, por sinal, queria ser jogador e chegou a treinar na escolinha do Grêmio. Mas Léo viu logo que aquela vida não era pra ele. Para afastá-lo da bola, arrumou-lhe um professor de violão. A contrariedade do menino durou alguns minutos, e na aula seguinte ele já estava completamente envolvido. A velha visão de jogo, que previa jogadas e passes, serviu também para a vida fora do campo. Ao mudar a trajetória de Hique, Léo marcou seu maior gol. Do resto o destino se encarregou.

Herdeiros

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Hique Gomez, diretor, multi-instrumentista, compositor e ator, passou a infância vendo o pai jogar e sonhando com um futuro na zaga do Grêmio. No coração de Hique, as lembranças de música e futebol se misturam. Dos saraus em casa com La Bamba cantada a plenos pulmões, da salada de influências que misturava Alvarenga e Ranchinho e Stevie Wonder, Vicente Celestino e Martinho da Vila. Léo encorajava as aventuras musicais do filho e nunca mediu esforços para incentivar o talento do garoto, chegando a vender um terreno pra comprar um piano.

Um talento nato, aos 15 anos, Hique já tocava em bandas de baile. Em 1984, começou uma das mais respeitadas parcerias da música brasileira com Nico Nicolaiewsky, o Tangos & Tragédias. No ano passado, depois da morte de Nico, deu continuidade ao projeto paralelo Tãn Tãngo, iniciado em 2011.

Infelizmente, Léo não viu nascer o Tangos & Tragédias, mas ficaria encantado com o violinista Kraunus Sang, o Maestro Plestkaya e toda a troupe de Sbørnia.

“Zagueiro do Grêmio” foi composta por Hique para homenagear não só o pai, mas todos os corajosos que escolhem defender essa zona do campo.

Clara Averbuck é escritora. Tem 6 livros lançados e o 7º, “Toureando o diabo”, deve sair até o fim do ano. É tradutora, roterista e editora do site “Lugar de Mulher”. Entende de tudo, mas pra futebol não dá muita bola. Isso não a impediu de escrever uma crônica para a Folha, contando do orgulho de ser neta do “Cuspida”.

Rigoroso, justo e parceiro, é assim que Hique Gomez define seu pai. Gremista, o futebol de hoje não o encanta mais. Para quem aprendeu a andar sobre o prado verde do velho Olímpico, quem viu um esporte jogado pelo grupo, o futebol individualista das arenas moderníssimas e dos craques milionários teleguiados por ambiciosos empresários, parece coisa de outro mundo. “Fui num encontro do Renner e falei isso… todos velhinhos, alguns doentes, e eu falei pra eles, que aprendi a tratar os meus amigos justo como meu pai tratava os amigos dele. E no caso foi um exemplo muito positivo porque eram vencedores”.

Léo Gomes morreu em 1983, aos 50 anos, vítima de câncer no pulmão. Viveu duas existências, uma dentro e outra fora de campo, e em ambas foi vencedor. Foi pai da torcida sem nunca decepcioná-la. Da sua inspirada prosa e poesia nasceram um músico e uma escritora. Nada mal para o guri que se divertia jogando bola na rua.

8 pensamentos em “Léo Gomes e a poesia esquecida da bola”

  1. Lilian voce é filha do amor .Sua reportagem foi enfeitada de flores e estrelas. O amor salva.O amor salva a alma.com amor da flavia e amiga!..

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