Como um tímido Gilberto Silva virou ídolo no Arsenal

Foto: Independent
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O ano era 2002. Gilberto Silva ficou conhecido no mundo todo por ter sido crucial na Seleção Brasileira que conquistou a Copa daquele ano. Credenciado a defender grandes clubes fora do país, o volante foi contratado pelo Arsenal por 4,5 milhões de libras, depois de uma disputa com o Aston Villa e complicações para o seu visto de trabalho. Em Londres, escreveu uma bela história com a camisa dos Gunners.

Gilberto não é o que podemos chamar de fanfarrão, um craque midiático ou um jogador que também tinha aptidão para polemizar fora de campo. Em toda a sua carreira, o mineiro de Lagoa da Prata ficou longe dos holofotes e cultivou um perfil mais simples, calado.

A torcida do Arsenal, por outro lado, sempre gostou de caras extravagantes. Jogadores de imenso talento e pura entrega em campo, desde os anos 1970 quando o irlandês Liam Brady brilhou. No entanto, os tempos eram outros quando a geração mais vencedora de Arsène Wenger estava em plena escalada até a glória.

O time que entrou para a história com a alcunha de ‘Invincibles’ era recheado de astros. Entre eles, um silencioso Gilberto Silva, que tinha a árdua tarefa de limpar a barra dos zagueiros e ainda servir como elo com o meio-campo. Do gol até o ataque, aquele Arsenal era uma verdadeira seleção internacional que conquistou o Inglês de forma invicta e ainda conseguiu uma arrancada de 49 jogos sem derrotas. Lehmann, Lauren, Ashley Cole, Campbell, Touré, Gilberto, Vieira, Pirès, Ljungberg, Bergkamp e Henry: uma escalação que fez os Gunners sonharem alto.

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Gilberto demorou a se sentir em casa na cidade de Londres. Era tudo muito diferente do que ele estava habituado em Minas Gerais. E antes de ser titular, houve uma certa competição com Edu Gaspar por um posto entre os 11 iniciais. Outra batalha vencida pelo mineiro. Antes dos dois, o Arsenal não era exatamente um clube visado por brasileiros.

O primeiro de todos foi o lateral Sylvinho, ex-Corinthians, que desembarcou em 1999 no Highbury. Só levou o Charity Shield após a sua chegada, mais nada. Saiu em 2001 para o Celta de Vigo. Depois dele, outro corintiano, Edu, teve sua chance, logo após a saída de Sylvinho. Gaspar, volante assim como Gilberto, jogou até 2005 e foi o primeiro brasileiro a conquistar a liga inglesa, em 2002.

Gilberto e sua primeira conquista pelo Arsenal / Foto: Daily Mail
Gilberto e sua primeira conquista pelo Arsenal / Foto: Daily Mail

Apelidado de “Parede invisível” pelos ingleses, Silva marcou logo na estreia pelo Arsenal, ao sair do banco contra o Liverpool pela Charity Shield, a supercopa inglesa. Com o impacto imediato, foi fácil pavimentar o caminho até se transformar em uma lenda. Cada um dos integrantes do elenco teve direito a ser eternizado na história do clube.

Ao longo de sete temporadas, o carismático e discreto volante levou o Inglês em 2004 e duas vezes a Copa da Inglaterra em 2003 e 2005. Para o próprio Gilberto, os tempos de “Invincible” são uma doce parte do seu auge como futebolista.

“Eu tenho muito orgulho de dizer que fiz parte disso. Foi um título incrível, algo que só pudemos conquistar com trabalho duro, e claro, um excelente time em campo, uma comissão técnica competente. Tivemos todos os ingredientes naquela temporada. Fazer parte disso me permite dizer que minha passagem pelo Arsenal foi um sucesso e me deixa muito feliz. Nunca esquecerei aquela equipe”, comentou Gilberto, ao site oficial dos Gunners.

A ‘arte’ de Gilberto

Já no Emirates Stadium, Gilberto carrega a faixa de capitão. Foto: Mirror
Já no Emirates Stadium, Gilberto carrega a faixa de capitão. Foto: Mirror

Por fim, uma estatística bizarra da passagem de Silva pelo Arsenal: em 2006-07 ele fez 11 gols, sendo 10 pelo Inglês. Uma marca impressionante em comparação à sua média. A melhor temporada em gols do volante havia sido 2005-06, com apenas 4. Para quem estava habituado a não passar do meio-campo, a sequência goleadora representou um ponto fora da curva.

Se alguém duvida do tamanho de Gilberto Silva para o torcedor do Arsenal, o hoje comentarista da SKY Sports Thierry Henry tem as palavras ideais para definir o ex-colega:

“Hoje no Arsenal ninguém se compara a Gilberto Silva. Ele fazia de tudo para permitir que nós pudéssemos jogar. Permitia que nós movimentássemos a bola e acima de tudo estava lá se desdobrando para proteger a defesa quando perdíamos a posse. Por isso jogávamos bem, pois estávamos bem cobertos pela movimentação dele. Não há hoje na equipe um atleta que faça essa função, que seja um cara fixo. Para mim, ele era a peça mais importante. Se os caras da frente e da zaga não tiverem proteção, não há jogo”, cravou.

Em 2008, o brasileiro se mudou para o Panathinaikos. Foram três temporadas na Grécia antes do retorno ao Brasil. Gilberto jogou pelo Grêmio e tornou a defender o Atlético Mineiro, onde foi titular e campeão da Libertadores em 2013, mas não atuou nas decisões contra o Olimpia.

Para os brasileiros, Gilberto Silva era só mais um atleta campeão do mundo. A dimensão do personagem para os gunners, no entanto, é outra completamente diferente. Mesmo que o atleta não seja famoso por ser goleador ou um driblador nato, a raça e a consistência foram fundamentais para que ele ganhasse reconhecimento nas arquibancadas.

Existem vários tipos de talento para um futebolista. Há quem tenha nascido para fazer gols, quem seja capaz de fazer malabarismos, colocar a bola por entre as pernas dos rivais ou mesmo os que conseguem criar jogadas maravilhosas como a de Maradona contra a Inglaterra em 1986.

O trabalho sujo de carregar o piano à frente na defesa e marcar adversários de forma incansável eram os trunfos de Gilberto como um titular de Wenger. Lá atrás, os defensores e homens de contenção não brilham, apenas levam a obrigação de manter a cozinha sempre limpa. A eles, o reconhecimento é uma estrada muito mais longa do que a dos companheiros que jogam adiantados.

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