Como se desenrolou o fiasco de Renato Portaluppi na Roma

Foto: O Globo
Foto: O Globo

Imagine que você é um fenômeno no seu país. Ninguém para os seus dribles ou impede os seus gols. As mulheres estão aos seus pés e a sua fama é enorme para alguém que não consegue se firmar como titular da Seleção Brasileira. E seu time acabou de ser campeão brasileiro. Nesse contexto, você aceita assinar por um dos clubes que brigam pela taça na Itália. E fracassa. 

Você é Renato Portaluppi, ou Renato Gaúcho para a imprensa carioca. Renato teve excelentes anos pelo Grêmio, onde se sagrou campeão e craque da Libertadores e do Mundial em 1983. Capaz de desequilibrar partidas com a sua habilidade e rapidez, o ponta se tornou uma das apostas mais interessantes do país.

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Já consolidado em 1987, atuou ao lado de Zico, Zinho, Leonardo, Bebeto, Andrade e outros na conquista da Copa União contra o Internacional. Em 1988, a Roma se interessou pelo seu passe e levou. Junto com Renato, o meia Andrade embarcou junto para a Itália. Mas os dois não brilharam nadinha, decepcionando uma calorosa torcida romanista.

Old School Panini
Old School Panini

Todo o clima favorecia Renato, que chegou com cerca de 2 mil pessoas à sua espera no aeroporto. Os jornais compraram a empolgação da Roma, fazendo trocadilhos com o nome do atacante. A capa de uma edição do Guerino Sportivo por exemplo, trazia Renato com uma coroa e os dizeres ‘Re Nato’, que em tradução livre do italiano significa ‘rei nato’. Era natural esperar que os vários gols criados pelo gaúcho de Guaporé empurrassem a Roma a um novo título nacional.

Até mesmo porque, o sueco Nils Liedholm estava em sua segunda temporada de volta ao comando da equipe, depois de uma frustrante passagem pelo Milan. O elenco não era tão competitivo quanto antes, mas alguns jogadores notáveis estavam lá. Rudi Völler, Giuseppe Giannini, Daniele Massaro, Ruggiero Rizzitelli, Fulvio Collovati, Bruno Conti, Sebastiano Nela e Lionello Manfrendonia.

Foto: Notizie AS Roma
Rizzitelli treina ao lado de Renato em Trigoria / Foto: Notizie AS Roma

Contudo, Renato não conseguiu mostrar o talento conhecido no Brasil. Pela Roma, constantemente era cobrado por tentar resolver tudo sozinho, errava lances bizarros e falhava nos dribles que aplicava. Logo, o elenco se irritou com o seu jeito. Logo de cara, ele até foi bem, marcando seus golzinhos pela Copa da Itália e na Copa Uefa. Na Serie A, porém, passou em branco com 23 atuações.

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Ao invés de colocar a bola por entre as pernas do defensor, Renato levava a bola para o canto. Quando deveria cruzar, driblava, quando deveria driblar, caía ou era desarmado. Mesmo nos momentos em que a pelota colava na sua chuteira, o desfecho do lance era algo como se Renato Aragão estivesse brincando de jogar futebol em um quadro d’Os Trapalhões. 

Se todos os jogos de Portaluppi fossem revelados como uma grande brincadeira armada por roteiristas de humor da Globo, talvez a temporada dele na capital italiana fosse menos trágica. Quem sabe um quadro no Esporte Espetacular dizendo ‘como enganamos italianos ao vender Renato Gaúcho‘.

Mais tarde, o ponta-direita culparia Giannini e Massaro por terem sido pouco receptivos e por vezes hostis com ele. Entretanto, nem mesmo o maior sabotador conseguiria atrapalhar 23 partidas de um inimigo. Nestas 23 chances, Renato não desempenhou o seu papel de atacante em pleno auge. Com 27 anos, se perdeu nas noitadas e na própria noção de que poderia ter vida mais fácil do que encontrava no Brasil.

Foto: PES Stats database
Renato só fez sucesso com as moças romanas / Foto: PES Stats database

Antes de encerrar o seu primeiro (e único ano) como jogador da Roma, Portaluppi era mais visto como uma decepção e um mulherengo do que propriamente um atleta de nível internacional. Provavelmente teve mais êxito atuando como galã fora dos gramados do que com a camisa 7 que lhe deram em suas chances como titular.

No fim, acabou retornando ao Flamengo (junto com Andrade, que também não se encontrou na Itália) e nunca mais se distanciou da vida de Rei do Rio. Pelo menos para os súditos cariocas, o craque não faltou. E se no Brasil lembram dele como um ótimo atleta, pegador e falastrão, na Itália só restou mesmo a piada e o arrependimento.

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Talvez seja correto afirmar que do campeão mundial em 1983 com o Grêmio, só a parte polêmica assinou com a Roma. As qualidades do goleador e artista das jogadas na linha de fundo ficaram mesmo no Rio de Janeiro. Aquela temporada de 1988-89 foi a única de Renato fora do Brasil. Talvez aí ele tenha visto que não precisava provar nada a ninguém no exterior.

O jogador se aposentou oficialmente em 1999, após alguns jogos pelo Bangu. Somou títulos expressivos em sua carreira, mas não é exatamente o que podemos chamar de craque internacional. No fim, o seu namorico com a Roma é apenas um capítulo cômico, como bem contam os italianos.

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