Como Viola, Romário e Marcelinho viveram fases ruins pelo Valencia

Figurinha montagem valencia

Em algum momento dos anos 1990, o Valencia pôde contar com alguns nomes de peso do futebol brasileiro em seu elenco. Por mais que a década tenha sido dominada por Real Madrid, Barcelona e Atlético, os Che tiveram a chance de ver Viola, Romário e Marcelinho Carioca vestindo a sua camisa.

Cada um deles passou pelo Mestalla em uma temporada diferente. Antes dos três em destaque, o meia Leonardo (ex-Flamengo e São Paulo) teve papel importante por aquelas bandas por dois anos, mesmo sem títulos. Já Mazinho, brilhou pela equipe valenciana logo depois do tetra na Copa de 1994. O meia ficou dois anos no clube antes de rodar pela Espanha. Já Viola, Romário e Marcelinho, não chegaram a deixar saudade e voltaram ao Brasil menos de um ano depois. Mas o que aconteceu para que a estadia fosse tão curta nestes casos?

Saudade do feijão

Foto: Todo Colección
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Vamos começar por Viola. O irreverente atacante revelado pelo Corinthians chegou à Espanha em meados de 1995 para fazer dupla com o iugoslavo Predrag Mijatovic. Custou 4 milhões de dólares ao Valencia e arrumou algumas confusões enquanto fez parte do elenco treinado por Luís Aragonés.

No papel, Viola era esperado pelos seus gols no Corinthians e pela atuação interessante, apesar de reserva, na Copa de 1994. Contudo, bateu de frente com colegas (entre eles, o capitão Fernando Gómez) e acabou ficando separado do elenco quando o time se preparava para as partidas.

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Como vivia sempre isolado e com fones no ouvido, passou a ser chamado de Príncipe de Bel-Air, forma que a torcida dos Che encontrou para ironizar a sua semelhança com Will Smith, astro da série ‘Um Maluco no pedaço’. Voltou em 1996 ao Brasil para assinar com o Palmeiras. Ainda no fim de 1995 se envolveu em uma rusga com o presidente e disse que estava sendo prejudicado para forçar a sua saída da equipe. Em entrevista à Folha, na época, reclamou que não recebeu o combinado:

A diretoria disse que só vai me pagar quando receber um documento do consulado, que eu já mandei. O problema é que uma hora eles falam uma coisa e na outra, desmentem. Eles acham que brasileiro é trouxa. Se tiver que voltar, volto. Mas não serei prejudicado. Mas não será fácil me mandarem embora. Se quiserem isso, que façam a coisa certa, pagando tudo o que tenho direito. Além disso, nunca fui indisciplinado. Sou o primeiro a chegar nos treinos. (Viola, em outubro de 1995)

Com a camisa do Valencia, fez seus gols, mas não conseguiu encantar e foi ofuscado por Mijatovic, que assinaria com o Real Madrid na temporada seguinte. Alegando sentir saudades do arroz e feijão brasileiros, o atacante virou a casaca e jogou pelo Verdão até 1998, sem ganhar nenhum título.

O Rei do Rio contra os técnicos

Foto: Todo Colección
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Romário era campeão do mundo, craque da Seleção Brasileira e ídolo no Flamengo quando foi emprestado a primeira vez ao Valencia, em 1996. Em duas ocasiões, brilhou com a camisa dos Che, mesmo sem repetir o sucesso que fez no Barcelona até 1994. A expectativa da torcida era ver o grande artilheiro balançar as redes em inúmeras partidas. É correto dizer que Romário teve desempenho elogiável, porém, assim como Viola, se viu isolado dos companheiros por ter discutido com o técnico Luís Aragonés. Apoiado por maioria do grupo, o treinador venceu a queda de braço e o Baixinho retornou ao Fla.

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Nos primeiros meses de 1997, Romário foi chamado de volta ao Valencia pelo técnico Jorge Valdano, que substituiu Aragonés. Contudo, depois de uma largada boa, o artilheiro se lesionou e sua ausência refletiu na maneira como a equipe se comportava. Seguidas derrotas culminaram na demissão de Valdano e no fim, quem rodou foi Romário, que ficou fora dos planos de Claudio Ranieri, contratado para o resto da campanha.

O italiano não era exatamente um admirador do Baixinho, o que colaborou para mais um retorno ao Flamengo. Como era ano de Copa do Mundo, em 1998, Romário poderia ter encontrado uma motivação especial para fazer seus gols e ser lembrado por Zagallo na lista dos 23 convocados. No fim das contas, o camisa 11 se lesionou e não disputou o Mundial da França.

Disque-Marcelinho

Marcelinho Valencia
Foto: Todo Colección

A história de Marcelinho com o Valencia é bem parecida com a de Viola. Ídolo corintiano, amargou a reserva na equipe espanhola e retornou uma temporada depois ao Brasil. Com a diferença que ao invés de trair a paixão alvinegra, o Pé de Anjo voltou aos braços da Fiel para conquistar duas vezes o Brasileirão, uma vez o Paulista e o Mundial da Fifa em 2000.

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A passagem de Marcelinho pelo Mestalla teve poucos jogos oficiais e muitos motivos de lamento. Como não era agraciado com uma vaga entre os titulares, muito cedo o meia se mostrou descontente com a situação e disposto a picar a mula da Espanha. Assim como Romário, o corintiano não se deu bem com a troca de comando de Valdano/Ranieri. Para piorar, Marcelinho não era um astro internacional como o Baixinho.

Não havia espaço no meio-campo para o brasileiro. A disputa com Angulo, Mendieta, Farinós, Milla e Gómez minou as chances de sucesso de Marcelinho no Valencia. Infeliz, se arrependeu da transação para o exterior em curto espaço de tempo.

Já em 1998, a Federação Paulista bolou um esquema para repatriar o ídolo. A estratégia consistia em fazer uma votação popular por meio de ligações telefônicas, o Disque-Marcelinho para decidir o destino do craque. Por onze dias, o Corinthians duelou com o São Paulo no ibope para levar Marcelinho. Por 62,5%, o alvinegro conquistou o direito de ter de volta o seu camisa 7.

Anos depois, as autoridades investigaram irregularidades no processo. A Federação Paulista, então presidida por Eduardo José Farah, teria levado um calote da Bandeirantes, da Loterj e da Embratel, que participaram da iniciativa. Desde o começo, a FPF planejava arrecadar 15 milhões de reais com a ação, mas o dinheiro recebido por todas as partes chegou só a 1,5 milhão. Outro problema foi a falsificação das parciais da votação, de modo que os torcedores continuassem ligando para a promoção. Cada ligação resultava em débito de 3 reais na fatura telefônica.

Brasileiros campeões pelo clube

A relação entre o Valencia e jogadores brasileiros nem sempre foi tão ruim. No passado, tivemos alguns exemplos de caras que conseguiram passar por lá com títulos.

O atacante Waldo Machado jogou de 1961 a 69 no Valencia, se tornando um dos maiores artilheiros da história do clube. Revelado pelo Fluminense, o atleta ainda hoje é quem fez mais gols com a camisa do Tricolor carioca: 319. Com a camisa dos Che, Waldo anotou 117, ocupando o segundo posto e ficando apenas atrás de Edmundo ‘Mundo‘ Suárez, com 186. Mario Kempes, histórico atacante argentino, fez 116 e é o terceiro desta lista. O carioca foi bicampeão da Copa Uefa em 1962 e 63 (antiga Copa das Cidades com Feiras), além de ter levantado a Copa do Rei em 1967.

Outro que em pouco tempo se consolidou na equipe valenciana foi o meia Válter Marciano. Com passagem pelo Santos, apareceu para o mundo com a camisa do Vasco. Em São Januário, conquistou o Carioca em 1956 e foi considerado o melhor do time naquele ano. Chegou ao Valencia em 1958 e morreu em um acidente de carro enquanto viajava para Alicante, na Espanha, em 1961. Havia acabado de se naturalizar espanhol para defender a Fúria em competições internacionais como a Copa do Mundo de 1962.

Fábio Aurélio conseguiu a façanha de ser titular no primeiro campeonato espanhol vencido pelo Valencia em 31 anos, em uma época absolutamente monopolizada pelos dois gigantes. O lateral só não foi importante na segunda liga vencida em 2004 porque se lesionou com gravidade e ficou muito tempo afastado. Surgiu jogando pelo São Paulo e depois atuou por Liverpool e Grêmio.

Ricardo Oliveira pode até não ter sido o goleador que prometeu no Mestalla, mas teve sua importância na campanha vencedora da Liga em 2003-04. Antes de ser negociado com o Real Betis, o atacante fez alguns gols que ajudaram o time de Rafa Benítez a erguer o caneco nacional e da Copa Uefa em 2004.

O volante Edu Gaspar apareceu no Corinthians no fim dos anos 1990 e logo fez sucesso, sendo negociado com o Arsenal. Foi reserva do grande time conhecido como ‘Invincibles’, campeão inglês sem nenhuma derrota no ano de 2003-04. Chegou ao time espanhol em 2006, mas acabou prejudicado por repetidas lesões. Mesmo assim, foi campeão da Copa do Rei em 2008.

O goleiro Diego Alves, atual dono da meta no Valencia e constantemente aparece em convocações para a Seleção Brasileira. Ele pode até não ter sido campeão, mas tem vital importância para a equipe, por fechar o gol e pegar muitos pênaltis. Já salvou 19 dos 40 que o time sofreu enquanto ele estava em campo desde 2011. É o recordista da modalidade nos últimos 25 anos de liga espanhola, superando a estatística do folclórico Santiago Cañizares. Tem que respeitar o cara, hein?

As figurinhas dos brasileiros notáveis do Valencia

Álbum TF Valencia