Quando Hagi foi rebaixado e devolveu o Brescia à elite italiana

Foto: Old School Panini
Foto: Old School Panini

Gheorghe Hagi já era um jogador de prestígio internacional quando deixou o Real Madrid em 1992 para assinar com o Brescia. O romeno decepcionou com a camisa madridista, mas provou que tinha estofo para ser ídolo ao jogar na Itália. Em duas temporadas atípicas pela equipe da Lombardia, Gica conquistou muito respeito até 1994.

A questão aí é que o fracasso no Real Madrid não tirou a vontade de Hagi de vencer. Só alavancou a sua busca pela redenção. O seu destino poderia ter sido bem diferente se ao fim dos anos 1980, o ditador Niculae Ceausescu tivesse aceitado a proposta da Juventus para fazer de Gica o sucessor de Platini. Gianni Agnelli até quis construir uma fábrica da Fiat em Bucareste como forma de amolecer Ceausescu, sem sucesso.

Outro magnata que fez de tudo para Hagi jogar no seu clube foi Silvio Berlusconi, logo após a final europeia de 1989. Também levou um não de Giovanni Becali, empresário com influência dentro do Steaua. A ideia era convencer Becali a fazer Hagi sair da Romênia. A transferência para a Itália só saiu em 1992, depois de uma dura negociação, já que o meia exigia salários altos, nos padrões do Real Madrid.

0,01% de chance

Foto: Old School Panini
Foto: Old School Panini

Ioan Becali, agente de Gheorghe, estava bastante pessimista para um acordo, afirmando que havia cerca de 0,01% de chances do craque ir parar na Lombardia. Eventualmente o negócio foi fechado, para espanto dos que esperavam ver o craque atuando por um gigante.

Com uma Copa do Mundo no currículo, mais a final de Liga dos Campeões em 1989, pelo Steaua Bucareste, Hagi já tinha superado o status de promessa quando, aos 27 anos, desembarcou em Bréscia. Ao lado de mais três romenos, pretendia montar uma caravana de patrícios para ter sucesso na Serie A, em um dos momentos mais disputados da história da Liga, com vários times capazes de brigar pela taça e vagas europeias.

Foto: Mundialistas y mitos
Mateut e Hagi em treino dos Andorinhas / Foto: Mundialistas y mitos

Para ajudar Gica nesta missão, estavam os meias Ioan Sabau, Dorin Mateut e o atacante Florin Raducioiu. Não bastasse a panelinha em campo, no banco de reservas estava Mircea Lucescu, reconhecido como o grande técnico da escola de seu país. Mas as coisas não saíram como o planejado na temporada de estreia. Com o papel de armador principal, Hagi liderou o time em campo, em uma campanha ruim.

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O Brescia ficou em 16º, com a mesma pontuação da Udinese, que escapou do descenso pelo saldo de gols. Com -6 os friulanos se salvaram e os Andorinhas foram para a segundona com -8. O novo rebaixamento depois de apenas um ano culminou em um pequeno desmanche. Mateut e Raducioiu foram embora para Reggiana e Milan, respectivamente. Mais fraca ainda do que quando caiu, a equipe lombarda precisou de muito empenho para retomar seu lugar entre os 18 principais concorrentes da Itália.

A retomada

Foto: Mundialistas y mitos
Foto: Mundialistas y mitos

Hagi firmou um compromisso com o Brescia a partir daquele momento: recolocar o modesto clube na primeira divisão. E não se intimidou com o fato de ter de jogar nos campos sofríveis do segundo escalão. Nem fugiu da responsabilidade. Muito pelo contrário: bateu no peito e mostrou que poderia sim carregar um time nas costas.

A união entre os dois era curiosa: Gheorghe era um craque vindo de um país sem tradição no esporte. O Brescia era um pequeno diante de tantos clubes tradicionais em uma nação que respira o futebol como a Itália. O normal para qualquer outro astro seria abandonar o barco e procurar um contrato melhor após um rebaixamento. Não Hagi, que defendia os seus valores e os da equipe biancoazzurri.

Ao longo de sua história, o Brescia alternou altos e baixos, visitas frequentes à Serie B, mas pelo menos pôde contar com alguns craques em seus elencos. Anos depois, teria Pep Guardiola, Roberto Baggio e um jovem Andrea Pirlo. Voltamos a 1993: na última arrancada antes de conseguir uma vaga nos 23 atletas da Romênia na Copa de 1994, o meia encarou de frente a chance. E aproveitou até o fim.

O retorno à elite

Foto: Wikiwand
Foto: Wikiwand

Pela Serie B, foram 30 partidas e 9 gols. A perna esquerda castigou vários oponentes e impulsionou o Brescia de Lucescu a um novo acesso, com a terceira posição, atrás de Fiorentina e Bari. Foram 44 pontos, com seis a menos do que a campeã Viola e um a menos do que o Bari. Na competição, o time de Hagi venceu 15 das 38 partidas, empatando 14 e perdendo nove. Para se ter uma ideia, Batistuta e seus comparsas empataram em 16 oportunidades.

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Aliás, Batigol e Hagi se enfrentaram duas vezes pela inóspita segunda divisão, em um momento no mínimo curioso de suas carreiras. Nesses dois encontros, o argentino levou a melhor, por 2-1 em casa e 1-0 fora.

Um episódio isolado quase minou os planos do Brescia: Gica ganhou permissão de Lucescu para se juntar à Romênia em um amistoso preparatório para a Copa de 1994. Um jogo antes, pela seleção, o meia foi suspenso por cuspir em um jogador da Irlanda do Norte. Era só uma questão de fazer parte do elenco. Na volta, se atrasou e acabou perdendo o lugar como titular. Incomodado, o jogador se recusou a dar entrevistas e piorou a relação com o treinador, que ainda assim, apostava no seu talento.

A cornetada do chefe

Ele é um grande jogador sem ética. Pode ser o melhor jogador do mundo depois de Maradona, se mudar um pouco a sua forma de se comportar. Ele será um dos grandes jogadores da Copa do Mundo“, profetizou Mircea, ao fim de 1993.

Além de encaminhar o acesso, o Brescia terminou a temporada 1993-94 com o título da obscura Copa Anglo-Italiana, em cima do Notts County, no estádio de Wembley. A competição era quase sempre disputada entre clubes de segundo escalão da Itália e da Inglaterra. Na final, Hagi atuou os 90 minutos, mas o gol decisivo do placar de 1-0 saiu dos pés de Gabriele Ambrosetti. Se o título da Serie B não veio, ao menos um torneio internacional encheu a barriga dos torcedores e dirigentes.

Ao fim da temporada, Hagi seguiu para os Estados Unidos para capitanear a Romênia em sua histórica campanha, chegando às de quartas de final da Copa do Mundo. Deixou a Argentina pelo caminho, mas parou na Suécia, nas penalidades. O desempenho foi tão impressionante que o Barça teve de investir 2 milhões de libras para tirá-lo da Itália. E conseguiu: com ele, Johan Cruyff continuou com o seu Dream Team, apostando no talento conjunto do romeno, de Romário e de Stoichkov. Apesar do timaço, só venceram uma Supercopa da Espanha neste período.

De 1996 a 2000, Gica brilhou com a camisa do Galatasaray e ainda teve tempo para disputar a Copa de 1998 e a Eurocopa de 2000, sem grande impacto. E seu grande título como jogador de clubes veio pelo Gala, na Copa Uefa em 2000. Um pedacinho do craque espetacular e autor de gols incríveis ficou na Itália, mais precisamente na Lombardia.

Para os torcedores biancoazzurri, Hagi é o herói improvável daquele 1994 místico. Seus feitos no Brescia são muito maiores que o golaço de cobertura em Córdoba na Copa do Mundo dos Estados Unidos.

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