Como Del Piero conquistou o coração do velho Agnelli e da torcida da Juventus

Foto: Old School Panini
Foto: Old School Panini

Em 1991, surgia pelo Padova um atacante que iria deixar seu nome nos livros de recorde da Juventus. Baixinho, tímido e carismático, com sorriso fácil, Alessandro Del Piero foi subindo das equipes juvenis até estrear pela Serie B, com apenas 16 anos. Antes disso, a vida não tinha sido muito gentil com ele.

Filho de um eletricista e de uma dona de casa, Alessandro vivia na região de San Vendemiano, uma comuna em Treviso, no Vêneto, norte da Itália. Stefano, irmão nove anos mais velho, chegou a atuar no juvenil da Sampdoria sem muito sucesso. O irmão, por sinal, desempenharia um papel fundamental na carreira e nos negócios de Del Piero.

A família vivia modestamente e a luxuosa vida de estrela de futebol parecia um sonho muito distante. Na escola, quando teve que escrever a redação “O que você quer ser quando crescer?“, com vergonha de dizer que gostaria de ser jogador de futebol, Ale escreveu que queria ser caminhoneiro.

Jogador com J maiúsculo

Foto: Tumblr/Interleaning
Foto: Tumblr/Interleaning

Desde o começo, Alessandro mostrou que era diferente dos outros. Para desespero da mãe, o menino depois da escola esquecia da vida e ficava batendo bola até escurecer. O pai, mais compreensivo, achou melhor providenciar a iluminação do campinho próximo da casa. Como em toda história de sucesso, não basta ter talento, é preciso contar com a ajuda da sorte. No dia 10 de novembro de 1987, um dia depois de completar 13 anos, a vida de Alessandro Del Piero começou a mudar. Vittorio Scantamburlo, olheiro de ótimo faro, a pedido do diretor esportivo do Padova, foi assistir uma partida entre as modestas equipes San Vendemiano e Orsago.

Do presidente do San Vendemiano, Antonio Franceschet, ouviu as seguintes palavras: “Tenho dois garotos excepcionais, nascidos em 1974, Zanin e Del Piero. Mande alguém para vê-los. Diego Zanin é considerado melhor, mas eu quase caio da cadeira vendo o outro jogar. O número 9 tem um chute incrível e domina a bola de uma maneira que faz com que ela pareça grudada aos seus pés. Encontrei um jogador com J maiúsculo. “

Scantamburlo se aproximou do menino de poucas palavras e perguntou se ele havia sido procurado por alguma equipe. “Sim, fui procurado pelo Torino, mas eles não me quiseram”. Mais tarde descobriu que a família não deixou o filho partir. Desta vez, não teve jeito. O Padova não deixou o talento escapar. Del Piero passou dos 13 aos 18 anos morando no CT do Padova, até que ganhou uma chance no time principal, quase sempre como um jovem reserva que entrava no segundo tempo. Só causou impacto em 1992-93, sua segunda e última temporada no clube que, na época, disputava a Serie B.  Foram 14 atuações e um gol até que a Juventus entrou na sua vida.

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O responsável pela contratação de Del Piero pela Juventus foi Giampiero Boniperti, astro dos anos 1950 e 60. Boniperti era presidente honorário na época e fez esforços para contratar o garoto, então com 18 anos. Os tempos em que voltava para Pádua sozinho de trem, com o coração apertado vendo a mãe chorar na despedida na estação estavam acabados. Dali em diante, Ale e sua família mudaram para melhor.

Pinturricchio

Foto: Wikipedia
Foto: Wikipedia

O ano era 1993 e Boniperti conseguiu atrair o atacante por cerca de 5 bilhões de liras, algo equivalente a 1.82 milhões de libras. Logo de cara, o técnico Giovanni Trapattoni pediu Del Piero no elenco profissional, mas por alguns meses o jogador atuou pela Primavera da Juve, conquistando torneios juvenis. Mais tarde, na temporada 1993-94, fez 11 aparições e anotou cinco gols.

Aos poucos, o empenho e a capacidade de Del Piero encantaram alguém muito importante na Juve: o histórico dono do clube e da Fiat. Gianni Agnelli, conhecido como “L’ Avvocato” (o advogado), estava no comando do time desde 1947 e teve papel crucial na arrancada para os títulos juventinos nos anos 1970, 80 e 90.

Dizem que Gianni tinha tanto poder em Turim, que poderia mandar prender ou soltar alguém. O figurão se encantou tanto com Ale, que tinha por ele o carinho que um avô tem pelo neto preferido. Não eram raros os telefonemas às 6 horas nas manhãs de segunda-feira para parabenizar e comentar a partida do dia anterior. Antes de Del Piero, o predileto era Michel Platini, com quem Agnelli se identificava tanto pelo caráter quanto pelas atitudes dentro e fora dos gramados.

Muitos acreditavam que Platini seria o eterno xodó do magnata, até que Alessandro ganhou respeito no clube. L’ avvocato apelidou o pequeno de ‘Pinturicchio‘, em alusão ao famoso pintor italiano do período do Renascentismo. A relação de 10 anos, que acabou com a morte de Agnelli, em 24 de janeiro de 2003, sempre foi de extremo respeito e carinho. A história de Del Piero, começada em 12 de setembro de 1993, quando fez seu primeiro jogo como profissional pela equipe bianconera, durou 19 anos, com vários títulos e um amor daqueles que são difíceis de se encontrar por aí.

Addio, Roby

Foto: Juventuz.org
Foto: Juventuz.org

Em um curto espaço de tempo, o talento de Del Piero apareceu. A Juventus esperava muito de seu futuro craque. Era natural que ele herdasse a camisa 10 e ganhasse um papel de destaque na Juve. O único impedimento era a presença de outro astro: Roberto Baggio, que recebeu a alcunha de Rafael (Sanzio, outro pintor renascentista) de Agnelli.

O “duelo de pintores” não durou muito. Eles jogaram juntos por apenas duas temporadas, em 1993-94 e 1994-95. Cada vez mais, Agnelli preferia Del Piero a Roby, o que culminou na saída do craque para o Milan, em 1995-96. Gianni Agnelli sempre levou tudo que dizia respeito à Juventus para o lado pessoal, e nunca engoliu que Baggio não queria trocar Florença por Turim, e sempre declarou seu amor pela Fiorentina. O avvocato alfinetava Roby sempre que podia, como durante a Copa de 1994, quando comentou a apagada atuação de Baggio contra o México, dizendo que ele parecia um ‘coelho molhado’.

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Não houve rivalidade entre Baggio e Ale, como se pode pensar. Mas os dois seguiram caminhos opostos. Atuaram juntos na Copa de 1998 quando já eram adversários. Roby ainda passou por Bologna, Internazionale e Brescia antes de se aposentar em 2004. Pela Juventus, Del Piero bateu todos os recordes e conquistou o posto de maior ídolo da história do clube.

Queridinho do vovô

Foto: Interleaning/Tumblr
Foto: Interleaning/Tumblr

Um dos momentos mais divertidos da história de Del Piero e Agnelli foi a renovação de contrato, em 1998.  Os dois trocavam declarações pela imprensa, com L’avvocato dizendo que Platini tinha vindo para a Juventus por um pedaço de pão. Provocação prontamente respondida por Ale: “Avvocato, o preço do pão subiu”.

Poucos dias depois, Alessandro foi até a sala do velho Gianni para negociar salários. O mandatário ofereceu um cheque em branco ao camisa 10, pedindo que ele preenchesse de acordo com o que considerava ideal. Ao todo, de 1993 a 2012, conquistou oito vezes a Serie A (duas delas cassadas pelo Calciopoli), uma Serie B, uma Copa da Itália, uma Liga dos Campeões e um Mundial Interclubes.

O avvocato, que sonhava com um estádio próprio, não viu seu sonho realizado. Mas na primeira temporada do Juventus Stadium, o clube voltou a ser campeão da Itália, depois de 9 anos. No dia 13 de maio de 2012, foi a vez de Alessandro Del Piero dizer adeus à sua amada Velha Senhora. Foi jogar do outro lado do mundo, pelo Sydney FC, onde ficou por duas temporadas. Depois, já com 40 anos, foi para a Índia jogar pelo Delhi Dynamos.

Em seus anos com a camisa bianconera, Del Piero foi muito feliz, em parte, graças à relação com Agnelli. No décimo aniversário da morte do seu mentor, o atleta relembrou saudoso os momentos que viveu ao lado do velho:

Eu fui sortudo e honrado de caminhar por grande parte da minha vida com ele. Sinto falta de sua elegância, sua paixão e seu gosto pelas coisas mais finas deste mundo, pública e particularmente. Nesses dias eu penso muito sobre o que ele teria me dito atualmente. Estou bem certo de que ele me ligaria para dizer que eu deveria ir conhecer Sydney para ver o que me espera. 

Em toda minha vida, conheci duas pessoas que para mim, simbolizam a Juventus. Giampiero Boniperti, que me tirou do Padova e L’ Avvocato, que me honrou com a sua confiança e consideração. Ele conhecia tão bem o mundo, amava a beleza de diferentes lugares. Sua chamada pelo telefone provavelmente aconteceria às seis da manhã, como ele costumava fazer. Mas desta vez, eu provavelmente estaria acordado em Sidney para atender, sem precisar esfregar os olhos e me espreguiçar.”

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