Como Figo foi contratado por Juventus e Parma ao mesmo tempo

Foto: Kaiser Magazine
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Bola de Ouro em 2000 e melhor jogador do mundo em 2001, Luís Figo se notabilizou como um dos grandes craques da história de Portugal. Meia habilidoso e cerebral, foi revelado pelo Sporting e teve boas passagens por Barcelona, Real Madrid e Internazionale. Porém, uma história pouco conhecida sobre o lusitano aconteceu bem no meio dos anos 1990, quando ele assinou por Parma e Juventus ao mesmo tempo. Não lembrava dessa? Então veja só como tudo aconteceu.

O ano era 1995. Figo era uma grande promessa portuguesa, já brilhava pelo Sporting. Campeão mundial sub-20 em 1991, era o cérebro de um time que espalhou talentos pela Europa nos anos seguintes, como João Pinto e Rui Costa. Luís tinha um estilo de jogo inconfundível: era o dono da bola, fazia dela o que queria e era um mestre dos passes, das jogadas pensadas. Agia como um enxadrista clássico e calculista nas suas ofensivas.

Figo figurinha Sporting

O camisa 7 foi o Bola de Ouro de 1994 pelo jornal português ‘A Bola’, se tornando um grande valor para clubes do exterior. Assim que a janela de transferências para a temporada de 1995-96 teve início, aconteceu uma verdadeira perseguição a Figo. Naquele momento, os grandes se engalfinharam para levar o atleta de 23 anos. Dois saíram na frente e conseguiram a tão desejada assinatura: Parma e Juventus. O problema é que os contratos foram firmados ao mesmo tempo, o que gerou um grande impasse na Fifa.

O imbróglio: quem ficou com Figo?

Foto: La Tarjeta Blanca
Foto: La Tarjeta Blanca

Na época, Juve e Parma eram alguns dos concorrentes ao título italiano. Os crociati contavam com alto investimento da leiteria Parmalat, que permitiu a contratação de talentos estrangeiros para a montagem de um elenco competitivo. Aquele grupo venceu a Recopa Uefa em 1993 e a Copa Uefa de 1994-95, em cima da Juve. A Velha Senhora, por outro lado, vinha de um scudetto e uma Copa da Itália (curiosamente, em revanche contra o Parma), já pensando na conquista da Liga dos Campeões.

Nesse contexto, Figo não se decidiu e deu a sua palavra e assinatura a ambos. A Federação Italiana fez uma intervenção e impediu que os dois contratos fossem validados, além de banir o jogador de atuar por qualquer equipe italiana pelo prazo de dois anos.

A coisa quase se complicou para o meia, que também acabou violando o prazo de transferência da Federação Portuguesa. Vendido ao Barcelona por 2 milhões de libras, saiu com o único título pelos Leões, a Taça de Portugal. Fez sucesso de forma imediata pelo Barça, virando titular e peça-chave no elenco treinado por Johan Cruyff. Nesse meio-tempo, até o Manchester United entrou na briga para tê-lo, porém, sem sucesso.

Ficou até 2000 no Barça, quando chocou o mundo e assinou com o Real Madrid. Serviu como camisa 10 do time lembrado como ‘Galácticos’, ao lado de Roberto Carlos, Zinedine Zidane, Ronaldo, David Beckham e Raúl González, entre outros atletas de renome. Encerrou sua carreira em 2009, pela Internazionale, após quatro temporadas com a camisa dos nerazzurri.

Atenção: até este ponto, foi tudo verdade. Daqui pra frente é só imaginação. 

Como nós adoramos uma viagem ao mundo da fantasia, pensamos no seguinte: como seria se a Fifa não tivesse impedido Figo de jogar por Juve/Parma? Quem ele escolheria? Bem, a questão é complicada. Mas se Luís não soube decidir nem na hora de colocar a caneta no papel, dificilmente o faria na hora H. Por que não se dividir entre os dois?

A fábula: tem Figo para todo mundo

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A fábula começa quando Figo marca dois dias diferentes para ser apresentado aos novos clubes. Na terça-feira, dia 1º de agosto, foi até Turim para receber a sua primeira camisa e falar à imprensa. Já no dia 3, apareceu no estádio Ennio Tardini para saudar a torcida, que compareceu em peso.

O acordo foi feito da seguinte forma: Figo não poderia jogar duas vezes seguidas pelo mesmo time. Nem se sofresse uma lesão no meio do caminho. Os presidentes de Parma e Juve, Giorgio Pedraneschi e Vittorio Caissotti de Chiusano acertaram que cada um pagaria metade do valor de 5 milhões de libras ao Sporting, além dos salários e prêmios. Quando os dois times se enfrentassem, Figo não poderia ser relacionado.

Na base do par ou ímpar com os presidentes, ficou estabelecido que a Juve poderia contar primeiro com o jogador. Sendo assim, o primeiro jogo de Figo pela Serie A aconteceu contra o Cremonese, em 27 de agosto. Os bianconeri venceram por 4-1 no Delle Alpi. O lusitano anotou o quarto e último gol juventino no confronto.

Além dessas cláusulas, ficou estabelecido que em competições europeias os clubes deveriam revezar a participação do português, evitando assim conflitos de datas, já que a chance delas coincidirem era grande. A estreia da Juve na Champions aconteceu em 13 de setembro de 1995 contra o Dortmund, enquanto os crociati jogaram no dia seguinte pela Recopa Europeia, diante do Teuta, da Albânia.

Nem um nem outro na Europa

Figo atuou o primeiro tempo de cada jogo e sofreu com a viagem de avião, tendo que sair às pressas da Alemanha, depois da vitória juventina por 3-1, para ser escalado pelo Parma, que também passou pelo seu oponente, com o placar de 2-0. Só que a rotina ficou cansativa demais e logo na terceira jornada europeia o português pediu para não ser mais relacionado em partidas internacionais. O pedido foi aceito.

No fim, quem se deu melhor foi a Juventus: campeã europeia nos penais, contra o Ajax. Na Serie A, foram vice-campeões, perdendo para o Milan, que terminou com oito pontos de vantagem. Pela Copa da Itália, a campanha parou na terceira fase, em derrota para a Atalanta, por 1-0. O artilheiro foi Fabrizio Ravanelli, com 17 gols em todas as competições. Figo anotou quatro e ficou em terceiro lugar na eleição de melhor jogador da Juve na temporada.

Pelo Parma, o destino foi um pouco menos feliz. Hostilizado pela torcida por estar cedendo parte de seus esforços à Juve, o tuga marcou sete gols, três a menos do que o artilheiro geral, Gianfranco Zola. A equipe emiliana se frustrou com um quinto lugar na Serie A, uma eliminação precoce na Copa da Itália pela segunda rodada, contra o Palermo. Na Recopa Europeia, o algoz foi o Paris Saint-Germain de Raí, pelas quartas de final.

As reações eram opostas. De um lado, a Juve ganhou um possível ídolo e craque. No Parma, mesmo as boas atuações eram ofuscadas pela pressão da torcida. Figo foi o culpado pelas derrotas e pelo fiasco de uma forma geral. Um grupo de ultras se reuniu com o presidente Pedraneschi e pediu que o jogador não tivesse seu contrato renovado para 1996-97. Que ele fosse comprado pela Juve de forma definitiva, já que o Parma foi lesado, de acordo com eles.

A espalhafatosa imprensa italiana cobriu de forma cômica a saga de Figo. A Gazzetta Dello Sport tentava não fazer sacadas favoráveis à Juve, enquanto o Tuttosport apelava para factoides e falsas entrevistas dizendo que o meia seria integralmente bianconero a partir de agosto de 1996 e que confessara a pessoas próximas seu apreço pelas instalações e pelo ambiente em Turim, coisa que o Parma não poderia oferecer.

O álbum ilustrado da Serie A 1995-96 foi o mais vendido da história da Panini, que não esperava uma febre pela coleção. A obsessão pelas figurinhas de Figo com as duas camisas impulsionou as vendas e levou donos de bancas à loucura no país. Um vendedor do eBay conseguiu 12 mil euros em 2007 pelas duas figurinhas do craque português.

Em campo, o Barcelona gostou do que viu do jogador e ofereceu 4 milhões de libras para ficar com ele em setembro de 1996. E conseguiu, já que os dois italianos aceitaram, muito por pressão dos crociati, que não queriam mais se submeter ao ridículo.

Mas se os emilianos pensavam que Luís era um vendido, mal podiam esperar pelo ano de 2000, quando o lusitano saiu do Barça para assinar com o Real Madrid…

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