Sócrates no Flamengo: a promessa que nunca foi cumprida

Sócrates Placar
Porém, acabou não explodindo.  Foto: Acervo Placar

Em setembro de 1985, o meia Sócrates retornou ao Brasil depois de um verdadeiro fiasco com a camisa da Fiorentina. Ao invés de assinar com o Corinthians, o grande amor de sua vida de atleta, Magrão resolveu ir para o Flamengo, onde iria reeditar uma grande dupla que brilhou na Copa de 1982, ao lado de Zico. Muito se esperava dessa parceria, mas ao contrário do que previa a Placar que abre este texto, a promessa não se cumpriu e terminou com o gosto amargo da frustração.

O futebol brasileiro dos anos 1980 trazia o fim de uma era romântica em que os craques surgiam em abundância, que o jogo era talvez um pouco mais técnico e passional. A verdade é que a nostalgia guarda lugar para esse tipo de memória. E Sócrates certamente foi protagonista de muitas delas para o torcedor brasileiro. É difícil montar uma lista de grandes jogadores daquela época sem citar o Doutor.

Já consolidado como um dos principais nomes do Brasil, Sócrates vinha de passagens pelo Botafogo-SP, onde foi revelado, Corinthians e Fiorentina. Chegou ao Flamengo em busca do prestígio que não conseguiu desfrutar na Itália. Com saudades de casa e sofrendo com lesões, Magrão foi o carro-chefe de uma estratégia ousada da diretoria flamenguista.

Zico também tinha retornado ao Fla meses antes, vindo da Udinese. Quando chegou a vez de Sócrates, a festa foi a mesma para a torcida rubro-negra. Contudo, o time não estava tão brilhante quanto seus astros sugeriam. Quem mandava no Rio era o Fluminense de Washington, Assis e Romerito. Dono do Brasil no começo da década, o Fla amargava alguns anos impopulares, quase como uma espécie de ostracismo depois de conquistar o mundo em 1981.

Um pool de empresas ajudou o Flamengo a comprar Sócrates. O empresário Rogério Steinberg foi responsável pelo ‘Projeto Zico’ naquele mesmo 1985. Com o apoio (e claro, a grana) de Coca-Cola, Sul-América Seguros, Mesbla e Adidas, Steinberg colocou em prática a estratégia de atrair o ex-corintiano para a Gávea. A transferência deu certo. Aliás, apenas a transferência deu certo.

Foto: Placar
Foto: Placar

Foram firmados dois anos de contrato com salários de 65 milhões de cruzeiros. Além disso, as marcas bancaram 400 mil dólares que Sócrates tinha a receber da Fiorentina. Em troca dessa quitação, o jogador iria posar para campanhas dos patrocinadores.

As coisas não foram nada boas para Sócrates com a camisa flamenguista. Em menos de um mês, sofreu uma fratura no tornozelo e perdeu o clássico contra o Flu, tão aguardado. Na Taça Guanabara, a campanha foi modesta e o time terminou em quarto lugar. Sem Zico e Sócrates em campo, o Flamengo foi obrigado a apostar nas velhas glórias que sobraram e em Bebeto, novato contratado e que vivia boa fase.

O Estadual foi tão trágico para o Fla, que o treinador Joubert Meira acabou demitido. Para seu lugar, assumiu o preparador físico Sebastião Lazaroni. Com as suas táticas supostamente revolucionárias, a equipe teve leve melhora e montou a base bem-sucedida para os anos seguintes. Lazaroni foi parar na Seleção Brasileira na Copa de 1990.

Às voltas de movimentos políticos e servindo como bom apoio para atrair votos, Sócrates também se via participando de uma peça de teatro dirigida pelo cartunista Henfil. Em campo, só foi aparecer efetivamente no início de 1986, em amistoso contra um time do Bahrein. Também esteve em outra exibição contra a Fiorentina, que serviria como uma espécie de pagamento pela sua saída da equipe violeta.

O amor voltou ao Maracanã. Por pouco tempo

Foto: Lance
Foto: Lance

Em 16 de fevereiro de 1986, Zico e Sócrates atuaram juntos pelo Fla. Era a primeira vez que os dois alinhavam ao mesmo tempo pela equipe de Lazaroni. E estiveram na pré-lista de Telê Santana para a Copa no México, que aconteceria meses depois. Não poderia haver estreia melhor: um 4-1 contra o Fluminense, com três gols de Zico, pelo Carioca.

A Copa novamente trouxe frustração, já que a França de Platini eliminou o Brasil nas quartas de final. Para o Doutor, a volta para o Rio foi desastrosa: atormentado por dores nas costas, o camisa 8 foi forçado a operar para tratar de uma hérnia de disco.

Mesmo desfalcado de vários jogadores importantes e experientes, o Fla de Lazaroni arrancou e levou o título carioca de 1986, contra o Fluminense, então tricampeão estadual. Sócrates, por sua vez, ficou dois meses afastado depois da cirurgia e voltou a exagerar nas noitadas.

Lazaroni vivia insatisfeito com o jogador e queria afastá-lo de qualquer maneira, mas reconhecia que Sócrates tinha muita moral com o elenco. Em certo ponto, os dois discutiram feio em uma preleção e pararam de se falar. Ali começou o processo de fritura do jogador. A briga em questão aconteceu antes de um duelo com o Goiás, vencido pelo Flamengo por 4-0. Sócrates deu duas assistências para Kita (em memória) e fez um gol de falta.

De boleiro a residente

Foto: Folha
Foto: Folha

Irritado, Magrão chegou a anunciar a sua aposentadoria, mas foi convencido a voltar atrás pelos dirigentes do Fla. Seu vínculo com o clube valia até setembro de 1987, mas lesões e rusgas com o chefe tiraram o seu prazer no jogo. Outra briga entre os dois, na estreia do Carioca de 1987, encerrou a passagem de Sócrates pela Gávea. Ele simplesmente desapareceu de um treinamento no dia seguinte a uma derrota para o modesto Porto Alegre de Itaperuna, por 2-0.

Rescindiu o contrato e foi começar residência no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na zona norte carioca. Pela primeira vez na vida, conseguiu dar atenção e dedicar tempo à carreira na medicina. E fugiu de qualquer pergunta sobre futebol que viesse da imprensa. Tentou se desvencilhar rapidamente da figura do jogador para se tornar um profissional da saúde.

Foram três gols em jogos oficiais (um contra o Goiás, em 1986, dois contra o Vitória, pelo Brasileiro de 1986) e dois em amistosos. Ao todo, Sócrates jogou 25 vezes com a camisa do Flamengo. Para o lamento da nação rubro-negra, o Maracanã não explodiu com a presença do clássico atleta dentro das quatro linhas. Nem mesmo a icônica parceria com Zico rendeu muitos frutos. E se o Maracanã falasse, provavelmente diria que esperou à toa por um fenômeno que nunca aconteceu.

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