A lenda de Omar Sívori, o pequeno furacão da Juventus

Foto: Site oficial Juventus

Enrique Omar Sívori é o nome de um dos ‘menores’ jogadores que já brilharam pela Juventus. O pequeno argentino entrou para a história do clube turinense em uma parceria memorável com John Charles e Giampiero Boniperti. O sucesso foi tanto que ele acabou naturalizado como cidadão italiano. Mas isso é apenas um acontecimento no universo de lendas que Sívori produziu como atleta.

Tudo começou para ‘El Cabezón’ em 1954, quando fez seus primeiros jogos pelo River Plate. O baixinho desde cedo mostrava muita aptidão para driblar adversários e parar no fundo da rede com a bola. Infernal, Omar tinha um único objetivo: marcar. Mas do momento em que dominava a pelota até efetivamente balançar o barbante, podia contar com um vasto inventário de artimanhas usando a perna esquerda.

Foto: Futebol Portenho
Foto: Futebol Portenho

Dizem que era complicadíssimo fora de campo. Temperamental, irredutível, um craque problema. Quando jogava na Itália, de 1957 a 69, foi suspenso em 33 oportunidades, por diversas razões. O estilo irresistível de atuar lhe fez famoso primeiro pelo River, depois pela Juventus. Brilhou ao lado de Ángel Labruna e Félix Loustau no time chamado de ‘Máquina’.

Vendido em 1957 aos juventinos, rendeu uma fortuna (10 milhões de pesos) aos Millonarios, que estavam em processo de reforma do estádio Monumental. Até 1957, o local tinha apenas três setores de arquibancada e tribunas. Atrás de um dos gols, um enorme vazio dava vista para o parque que cercava o local. Foi para a Itália com o status de jovem talento e com três títulos argentinos na bagagem. As conquistas viraram corriqueiras para o menino nascido em San Nicolás.

A fera e a Velha Senhora

Ao lado de Pelé em um amistoso internacional pela Juventus. Foto: Site oficial Juventus
Ao lado de Pelé em um amistoso internacional pela Juventus. Foto: Site oficial Juventus

Na Juventus, criou-se um mito em torno do argentino. Sívori se mostrou indomável desde o princípio. Para os marcadores e colegas. Era um jogador difícil de lidar, pois tinha o mesmo perfil endiabrado que mostrava em campo. Sem vencer desde 1952 a Serie A, os bianconeri apostaram as fichas em Omar e no atacante John Charles, galês que era reconhecido pelo seu papel de bom moço e pelo fato de ter começado como zagueiro e descoberto a capacidade de ser centroavante e goleador.

A primeira temporada reservou enorme sucesso para Sívori, Charles e Boniperti. É sabido pelos italianos que a chegada de Charles, um homem tranquilo e fisicamente imponente, acalmou os ânimos de Sívori, que por pouco não teria virado uma verdadeira dor de cabeça para dirigentes.

Foram três scudettos e duas Copas da Itália na passagem de Omar por Turim. Além das taças, uma pilha de gols: foram 167 em 263 partidas pela Juve. Só saiu por ter brigado com o técnico Heriberto Herrera em 1965.

Entre as glórias que conseguiu como atleta juventino, Sívori foi o autor do gol que originou a primeira derrota do Real Madrid dentro do Santiago Bernabéu pela Copa dos Campeões europeus. Foi em 1961, fazendo da Juventus o primeiro time italiano a vencer na casa madridista.

Naquele mesmo ano, passou a defender a Itália, mas não jogou nenhum torneio pela Squadra Azzurra. A opção por se naturalizar veio de uma medida tomada pela Federação Italiana: Omar foi impedido de ser convocado pela Argentina depois que assinou pela equipe turinense. Com a camisa albiceleste, foi campeão da Copa América em 1957.

A audácia do pequeno Sívori era medida pela sua aparência em campo. As meias baixas e a camisa para fora do calção o deixavam parecido com um menino que joga futebol com qualquer coisa que tem ao alcance. Pois Omar jogava mesmo o futebol das ruas, fazendo dos goleiros pobres vítimas de seu poder de decisão em campo. Da mesma feita que seus colegas de infância, igualmente reféns das diabruras de ‘El Cabezón’ nas ruas e campinhos da juventude.

Uma característica marcante de Sívori era a coragem. Não se intimidava com os grandes adversários e nem com os pontapés. Por vezes retribuía com a catimba que aprendera nos tempos de River Plate. E o que mais gostava de fazer em campo era colocar a bola por entre as pernas dos zagueiros, arte que aperfeiçoou ao longo de sua carreira. Não adiantava se irritar com ele. Quanto mais raiva, maior a humilhação.

O protesto e a vergonha

Sivori, Boniperti e Charles
Sívori, Boniperti e Charles. Os três reinaram com a camisa da Juve e conquistaram três scudettos juntos. Foto: Gazzetta Dello Sport

De humilhação a Internazionale entende. Rival da Juve naqueles tempos (Derby d’Italia), o time milanês levou de 9-1 em junho de 1961. Só Sívori marcou seis vezes. O massacre foi facilmente explicado: os interistas escalaram um time juvenil como forma de protestar contra uma manobra da Juventus de anular o jogo do primeiro turno, que terminou antes da hora com um 2-0 para os nerazzurri.

Meses depois deste triunfo da Inter, a Federação italiana, presidida por Umberto Agnelli (também ocupava o cargo de presidente da Juve) pediu o cancelamento daquele confronto e a remarcação de uma outra, quando o campeonato já estava decidido a favor dos juventinos. Resignada, a Inter colocou apenas jovens em campo e acabou goleada. Aquele jogo foi o último da carreira de Boniperti, que se aposentava aos 33 anos. E o único gol da Inter veio dos pés de Sandro Mazzola, grande ídolo interista nas décadas seguintes.

As contusões e o amargo fim da linha para Omar

Foto: Il Napolista
Foto: Il Napolista

Foi para o Napoli e recebeu enorme festejo em sua chegada ao estádio. Lá, reencontrou Dino Zoff, que quebrou duas costelas suas em uma dividida durante um confronto entre Juve x Mantova. Zoff ainda não era um dos goleiros mais aclamados do futebol italiano e acabou perdoado por Sívori. Pelos partenopei, o argentino fez dupla de ataque com José João Altafini, o famoso Mazzola, este o brasileiro que começou no Palmeiras e logo despontou para o futebol italiano, onde se aposentou.

A passagem pelo Napoli só não foi boa porque Sívori sofria com problemas no joelho esquerdo e a idade avançada. Aos 34 anos se submeteu a uma cirurgia que lhe dificultaram a execução dos seus conhecidos dribles. Parou em 1969 sem conquistar títulos importantes no time napolitano. Levou apenas a Copa dos Alpes em 1966, torneio  que reunia competidores da Itália, Alemanha, Suíça e França.

O único troféu de Sívori pelo Napoli aconteceu curiosamente em cima da Juventus. Assim como a sua última partida, manchada pela sua expulsão. Depois de chutar Erminio Favalli, o polêmico atacante foi obrigado a se retirar de campo. Cansado dos anos rebeldes e de viver o lado ruim do esporte, nunca mais atuou oficialmente. Uma suspensão de seis jogos evitou que o ídolo tivesse uma despedida decente e apropriada.

Falar de Sívori é falar de um monstro dos anos 1950 e 60. Um jogador que fez de tudo pelo gol, mesmo que marcar fosse mais uma questão particular do que pelo altruísmo de alegrar a torcida. Omar também foi treinador da Argentina e montou a base da equipe que disputou a Copa de 1974. Passou uma década como olheiro da Juventus fora da Itália (descobriu Juán Pablo Sorín, com 19 anos no Argentinos Juniors) até morrer em 2005, vítima de um câncer no pâncreas.

Se hoje as pessoas exaltam nomes como Messi, Agüero e outros argentinos, é ideal que tenham Labruna, Di Stéfano, Sívori e Maradona como referência. Cada um deles teve vital importância na consagração do outro. Quem não viu ou sequer ouviu falar de Enrique Omar Sívori deve ter um pequeno vazio no conhecimento futebolístico. Nada grave, é que se trata de um craque que todos merecem conhecer.

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