Recusado por Arsenal e Ipswich, Gullit mostrou por que era um craque

Quando ainda nem ostentava um rastafari e um bigode de respeito, o meia Ruud Gullit era disputado a tapas pelos clubes holandeses no início da década de 1980. Era um jovem de 20 anos, com todo potencial para ser grande, despontando pelo modestíssimo Haarlem, miúdo holandês. O futuro craque teve a chance de jogar no futebol inglês em 1982, mas foi subestimado por Arsenal e Ipswich. Eles iriam se arrepender disso anos depois.

Foto: ANP
Ruud em ação pelo Haarlem. Foto: ANP

Destinos (quase) cruzados

Os dois clubes tiveram a oportunidade de fazer uma oferta ao Haarlem para arrematar os serviços de Gullit, de 1982 em diante. Com apenas 20 anos, Ruud era apenas um prospecto de grande jogador, ninguém sabia o que poderia sair dali. Baseando-se nessa imprevisibilidade, os técnicos Terry Neill e Bobby Robson não quiseram contratar o menino com medo de que fosse muito dinheiro gasto com um enganador.

Sir Bobby, lendário treinador, estava desde 1969 no comando dos Tractor Boys e provou que faria história quando venceu a Texaco Cup em 1973, a Copa da Inglaterra em 1978 e a Copa Uefa em 1981. As boas campanhas no Inglês deram gás para que o treinador tivesse mais autonomia para contratar. Por falar em reforços estrangeiros, Robson tinha dois holandeses no elenco do Ipswich: Frank Thijssen e Arnold Mühren. O terceiro a rigor seria Gullit, mas os valores espantaram Bobby, que desistiu de levar adiante a negociação.

Já Neill, que venceu apenas um título em sete temporadas à frente dos Gunners, foi mais enfático. Disse que as 30 mil libras pedidas pelo Haarlem eram um valor alto demais por Gullit, ‘um simples garoto’, nas suas palavras. O técnico foi demitido em 1983 pelo Arsenal, durante uma péssima campanha na liga e uma eliminação precoce na Copa da Inglaterra. Depois da conquista de 1979 contra o United, o time londrino perdeu duas finais consecutivas na competição.

Curiosamente, Terry Neill teve postura diferente em 1979, quando tentou tirar um jovem do Argentinos Juniors. Pediu aos diretores que contratassem Diego Maradona, mas o arisco e nanico meia foi mesmo para o Boca Juniors e depois ao Barcelona. Aparentemente Terry se frustrou por ter perdido a chance e não viu com bons olhos o talento bruto do holandês.

O ‘engano’ de Neill e Robson foi plenamente justificado: Gullit era um atleta mais defensivo e voltado para a marcação quando saiu do Haarlem. Só no Feyenoord, nas mãos de Clemens Westerhof e, posteriormente, sob o comando de  Hans Kraay é que o craque ganhou funções ofensivas, que revelaram a sua perícia na finalização e na armação de jogadas.

Foto: Old School Panini
Foto: Old School Panini

Daí em diante, nasceu uma fera. Goleador, exímio passador e incansável no meio-campo, Gullit atuou ao lado de Johan Cruyff, em 1984, para ganhar a dobradinha na Liga e na Copa da Holanda. Cruyff então pendurou as chuteiras e deu lugar a um novo ídolo.

Para Ruud, o título foi o cartão de visita de um grande jogador. Mas o Feyenoord deixou de ser o melhor lugar quando o técnico Thijs Libregts começou a fazer observações racistas e chamar Ruud de preguiçoso. Gullit nunca engoliu as desculpas do chefe, que justificava sua atitude como uma brincadeira.

Em 1985, foi a vez do PSV fazer uma oferta milionária para tirar Gullit do Feyenoord. Já consolidado e com 23 anos, o jogador custou 1 milhão e 200 florins holandeses. Dois anos e um título da liga depois, foi para o Milan, custando 18 vezes mais do que o clube de Eindhoven desembolsou para comprá-lo.

Na Itália, o holandês provou de uma vez por todas que Neill e Robson cometeram um enorme equívoco ao não apostarem no seu futebol. Como cérebro de uma equipe talentosíssima, Gullit foi tricampeão italiano, bicampeão europeu e intercontinental. Formava um trio invejável com Frank Rijkaard e Marco Van Basten, infinitamente superior ao que Bobby poderia ter montado no Ipswich com Mühren, Thijssen e Gullit.

Um título da Eurocopa, uma participação na Copa de 1990 e muitos momentos de brilho depois, Gullit desembarcou na Inglaterra, 13 anos após ser recusado. Estava em outro patamar, outro momento, era um craque absoluto que deixava a Sampdoria, em fim de carreira, quando chegou ao Chelsea em 1995.

O coringa do Chelsea

Foto: World Soccer Talk
Foto: World Soccer Talk

Apesar de ter sido utilizado novamente como um volante/líbero por Glenn Hoddle, o veterano holandês se achou outra vez na armação e brilhou com a camisa dos Blues. Foram três anos até sua despedida em 1998. Na segunda temporada, foi efetivado como jogador-treinador e venceu a Copa da Inglaterra de 1997.

Ruud foi o primeiro não-britânico a conquistar um troféu no país. Acabou demitido em 1998 pelo dono do Chelsea, Ken Bates, que alegou publicamente nunca ter gostado dele. Seu sucessor foi outro jogador-treinador: Gianluca Vialli. Hoje Gullit é aclamado como gênio do seu tempo.

Bobby Robson morreu em 2009 deixando um legado respeitável. Foi semifinalista da Copa de 1990 com a Inglaterra, bicampeão holandês com o PSV,  bicampeão português com o Porto, campeão da Copa do Rei e da Recopa Uefa com o Barcelona. Mas ficou a ver navios com o Ipswich, clube que deixou naquele mesmo 1982 para assinar com a seleção inglesa.

Terry Neill, por sua vez, nunca mais treinou um time depois de sair do Arsenal em 1983. E provavelmente convive todos os dias com o fantasma daquele craque holandês que ele deixou escapar para o Feyenoord. Coisas do destino.

Infográfico Gullit

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