Os dez anos de espera de Batistuta pelo título da Serie A

Para quem, nos anos 90, acompanhava pela TV o Campeonato Italiano, lágrimas caem dos olhos quando o assunto é Gabriel Batistuta. O argentino capitaneou a Fiorentina e fez o time da Toscana sonhar com o título nacional. No entanto, pelo menos para o camisa 9, o tão desejado scudetto só veio uma década depois com a camisa da Roma.

Batistuta ou Batigol, para os mais aficionados, chegou à Viola em meados de 1991. Tinha passado por clubes como Newell’s Old Boys, River Plate e Boca Juniors antes de despontar na Copa América. Evoluiu demais sob o comando de Óscar Tabarez no Boca. Ficou conhecido como “El Camión” (o caminhão, em espanhol) por ser implacável e destruir tudo que via pela frente.

Foi então levado à Itália como grande talento garimpado pelo presidente Vittorio Cecchi Gori. Contudo, Gabriel demorou a se adaptar à nova cultura e ao novo ambiente em que vivia. Alguns meses transcorreram na temporada 1991-92 até que o goleador estivesse apto a desempenhar sua especialidade: balançar as redes. O primeiro tento foi marcado contra a Juventus em vitória por 2-0 dos violetas. Batistuta mostrou serviço e a Fiorentina terminou em 12º lugar na liga.

Foto: Eurosport
Foto: Eurosport

Daí em diante, começou a desenhar-se a lenda. Gabriel, o capitão e principal artilheiro, foi autor de 207 gols com a camisa da Viola.  Marcou de falta, de voleio, dentro da área, de fora da área, com bombas, de cabeça, de bicicleta, talvez até de canela. Imagine um gol: certamente Batistuta transformou este pensamento em realidade. Era um monstro na arte de balançar o barbante.

Durante nove temporadas foi o grande ídolo da Fiorentina, ocupando o vazio deixado por Roberto Baggio no coração da torcida. Atuou ao lado de nomes como Stefan Effenberg, Diego Latorre, Abel Balbo, Brian Laudrup, Francesco Baiano e Edmundo. Foi o regente em todas as duplas possíveis de ataque. De 1991 em diante, por uma década não teve uma temporada com menos de 20 gols, seja por clube ou pela seleção. Em todas elas, brigou pela artilharia ou chegou perto disso.

A queda e a consagração

Batistuta Fiorentina 2
Foto: Quattro Tratti

A temporada 1992-93 não reservou bons fluídos para a Viola. No papel era um time para disputar o scudetto, mas a realidade foi bem diferente. A equipe treinada por Luigi Radice começou empolgando. Na 13ª rodada estava em segundo lugar, atrás apenas do líder Milan. O treinador foi demitido na rodada seguinte, após a derrota para o Atalanta por 1-0.  O substituto foi Aldo Agroppi, que estava dois anos inativo depois de rebaixar o Ascoli para a segunda divisão em 1990.

Despreparado, o técnico  sentiu-se intimidado pelos jogadores que deveria comandar. Coube a Luciano Chiarugi e a Giancarlo Antognoni a ingrata tarefa de dirigir a equipe nas ultimas cinco partidas do campeonato. Nem os 20 gols marcados por Batistuta salvaram a equipe, que acabou em 16º lugar na Serie A e foi rebaixada pela primeira vez em cinco décadas.

Mas Batistuta prosperou, assim como a Fiorentina, comandada por Claudio Ranieri, que de imediato que conquistou o título da Serie B. Autor de 21 gols em 1993-94, chegou como principal atacante e grande esperança da Argentina na Copa do Mundo dos Estados Unidos. Marcou quatro gols, mas a Albiceleste caiu nas quartas de final diante da Romênia de Hagi.

No campo doméstico, com a Fiorentina de volta à elite da Serie A, Batigol logo mostrou a que veio. Foi às redes em 28 oportunidades, empurrando a Viola para um modesto 10º lugar. Os gols aumentaram e o desempenho melhorou gradualmente. Em um elenco de estrelas, Batistuta se destacava, mas o time ainda deixava a desejar e estacionava no meio da tabela. O camisa 9 terminou na artilharia da Serie A, com 26 gols.

A superação veio a partir de 1995-96. Maior goleador da Copa da Itália, Batigol balançou o barbante oito vezes até o título diante da Atalanta. Foi o grande nome do quinto troféu da Fiorentina, marcando duas vezes nas finais contra a equipe de Bérgamo. Neste mesmo ano, o time conseguiu embalar e terminou em quarto lugar, ganhando uma vaga para a Recopa Uefa. No front europeu, a campanha parou na semifinal com derrota para o Barcelona de Ronaldo, que no ano seguinte seria seu concorrente direto na artilharia do campeonato italiano.

A despedida e a nova vida em Roma

Foto: UEFA
Foto: UEFA

A eliminação nas quartas de final da Copa de 1998 mexeu demais com a cabeça de Batistuta. Considerado um dos melhores do mundo, ficava longe de títulos mais expressivos por estar na Fiorentina. O Manchester United quase levou o atacante de Florença, mas a chegada de Giovanni Trapattoni ao comando fez com que Gabriel ficasse no Artemio Franchi. A equipe ganhou bons reforços como Edmundo e Torricelli.

De repente, a Viola estava novamente na briga pelo scudetto. A equipe de Trapattoni empolgava e Batistuta vivia seu auge. O único problema era a personalidade de Edmundo, que tinha dificuldades de adaptação e acabou desestabilizando o elenco. Na segunda metade da liga, a Fiorentina começou a despencar na tabela e perdeu a chance de se aproximar da disputa pelo título. A diferença para a vice-campeã Lazio foi de 13 pontos. A temporada 1999-00 marcou o fim da história de Gabriel como capitão e camisa 9 da Viola.

Vendido por 30 milhões de dólares para a Roma, o bomber argentino queria um scudetto e não sairia do futebol italiano sem ele. Enquanto um caminhava para realizar o sonho, o outro afundava: a Fiorentina precisava do dinheiro da transferência para sobreviver. Aguentou mais alguns anos, ganhou uma Copa da Itália depois abriu processo de falência.

O décimo ano e enfim, o scudetto

Foto: Rai
Foto: Rai

Batistuta era o homem que faltava no sólido time romanista treinado por Fabio Capello. Antonioli, Antonio Carlos, Samuel, Aldair, Emerson, Tommasi, Cafu, Candela, Totti, Delvecchio, Montella e o argentino foram os principais nomes da Roma na arrancada para o título italiano.

Foram 22 vitórias e 75 pontos, dois a mais que a Juventus, que ficou com o vice-campeonato. Batigol anotou 21 tentos na temporada, sendo 20 pela Serie A. Um dos mais icônicos aconteceu contra a Fiorentina, na rodada 8. Gabriel recebeu um passe de cabeça e pegou de primeira, acertando um voleio no alto da meta de Toldo. Foi também o autor do gol do título contra o Parma, na última rodada. Os giallorossi venceram por 3-1 e Batistuta deixou o dele. Depois de 18 anos, a Roma voltava a ser campeã italiana.

No fim, ficou seis gols atrás do artilheiro Crespo, que atuava pela Lazio. Para o camisa 18 romanista, foram mais duas temporadas no Olimpico, sem o mesmo brilho da campanha do scudetto. Sofrendo com contusões e secas de gol, Batistuta foi vendido para a Internazionale. Não ficou mais de um semestre em Milão e seguiu para o Al-Arabi, onde encerrou sua carreira em 2004.

Se um título da Serie A e outro da Copa da Itália parecem muito pouco para o artilheiro dos gols bonitos, a passagem por Florença e a vitória do scudetto colocaram Gabriel Batistuta na história do futebol italiano, garantindo um lugar de honra no Hall da Fama de Roma e Fiorentina.

As campanhas de Batistuta até o scudetto

Fiorentina: 1991-92 – 12º / 14 gols
1992-93 – 14º (Rebaixado)/ 20 gols
1993-94 – 1º (Serie B)/ 21 gols
1994-95 – 10º/ 28 gols
1995-96 – 4º (Campeão da Copa da Itália)/ 27 gols
1997-97 – 9º/ 18 gols
1997-98 – 5º/ 24 gols
1998-99 – 3º/ 26 gols
1999-00 – 7º/ 28 gols
Roma: 2000-01 – 1º / 21 gols

Infográfico Batistuta

7 pensamentos em “Os dez anos de espera de Batistuta pelo título da Serie A”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *