Muito antes do ‘Fergie Time’, o Manchester United perdeu uma final nos acréscimos

Em 1999, o Manchester United chocou o mundo ao vencer de virada a final da Liga dos Campeões contra o Bayern de Munique. Os dois gols ingleses aconteceram nos acréscimos do segundo tempo, com Sheringham e Solskjaer. A façanha, que foi repetida algumas vezes pelo time de Alex Ferguson, ficou conhecida como ‘Fergie Time’. Porém, 20 anos antes, quem chorou com um gol no fim foi a própria torcida do United. A dica é do leitor Joannis Moudatsos.

Quando Ferguson ainda tentava se notabilizar como treinador e muitos jogadores do time de 1999 ainda estavam curtindo a infância, o Manchester United enfrentou o Arsenal na final da Copa da Inglaterra de 1979. Naquele ano, uma maravilhosa surpresa chocou a Europa: o Nottingham Forest de Brian Clough completou sua gloriosa saga e saiu da segunda divisão para conquistar o continente em três anos.

A temporada na Inglaterra foi campeã em emoção. E a final da Copa não deixou por menos. Provavelmente escrita por um roteirista de drama que adora reviravoltas no fim, aquela decisão em Wembley consagrou o meia Liam Brady e o atacante Alan Sunderland.

Sob o comando de Terry Neill, o Arsenal atravessava uma fase sem tantos títulos. Aquele, em especial, acabou sendo o único da passagem de seis anos de Neill por Highbury. Pelo menos veio com gosto e em cima de um outro grande clube inglês.

Do outro lado, Dave Sexton vivia o mesmo drama. Exceto que por quatro temporadas, falhou em ser campeão. A pressão era intensa e dos dois adversários, apenas um teria como se reconstruir a partir da taça. Ao outro, restaria o lamento e mais cobranças no futuro. Neill durou até 1983 nos Gunners. Sexton não teve a mesma sorte, sendo demitido em 1981.

O jogo

Lance do primeiro gol, de Talbot / Foto: Daily Mail
Lance do primeiro gol, de Talbot / Foto: Daily Mail

Valia uma vaga na Recopa Europeia. Ninguém queria perder essa boquinha de estar em uma competição internacional em 1979-80. E quem brilhou foi Liam Brady. O meia irlandês estava impossível e criou inúmeras chances de gol para o Arsenal, sem falar nas jogadas de efeito. Tratava-se de um fora de série com a camisa 7.

Pressionando e dominando os Red Devils com bons passes e infiltrações, o Arsenal chegou ao primeiro gol com Talbot, em confusão na grande área. Um passe da linha de fundo tirou o goleiro Bailey da posição ideal. Apenas zagueiros do United tentaram evitar o gol, sem sucesso. 1-0 para os Gunners, que usavam um inconfundível uniforme amarelo naquela tarde.

Com Joe Jordan e Jimmy Greenhoff, o Manchester resolveu dar o troco. Atacou, levou perigo, chutou ao gol de Pat Jennings, mas nada feito. Uma falta no goleiro arsenalista impediu o que seria um empate por parte dos Red Devils. O juiz anotou uma irregularidade no gol de McQueen.

O segundo gol do Arsenal foi uma verdadeira pintura de Brady. O irlandês carregou com classe, deixou dois para trás e meteu um cruzamento por cima. Stapleton testou e colocou nas redes. 2-0, vitória folgada dos rapazes de Neill, aos 43 minutos. Depois disso, os Gunners voltaram para o intervalo com a mesma gana de vencer, mas esbarraram em Bailey, que fez algumas boas defesas.

Vendendo caro o resultado

O tempo passou lentamente e o United teve chance de se recuperar. A final parecia ganha, quando aos 41, a chapa esquentou em Wembley. Quem já comemorava o título precisou parar a cantoria, pois a trama ficou densa. McQueen fez o primeiro dos mancunianos, em uma ofensiva no mínimo sortuda. A bola foi lançada para a área de Jennings, parou no peito de Jordan, que girou e chutou sem jeito. Foi um passe para McQueen que jogou no barbante.

Novamente os arsenalistas tiveram a confiança abalada: aos 43, o United buscou o empate. Desespero em Wembley. Ninguém mais sabia o que poderia acontecer quando McIlroy recebeu um passe longo na direita. Ele estava na mesma posição que Brady no lance do segundo gol do Arsenal.

Desta vez, o atleta do Manchester ousou e fez um gol ainda mais admirável do que o do patrício irlandês. McIlroy puxou para dentro, tirou O’Leary e Young (este com uma caneta) antes de bater na saída de Jennings. Um golaço que ferveu o caldeirão nas arquibancadas. O United de Sexton estava de volta ao duelo, com dois gols em três minutos.

A partir dali, o espetáculo ficou imprevisível. E já estava mágico o suficiente para valer cada moeda gasta no ingresso. Quem não era torcedor de nenhum dos dois, acompanhava estupefato a sequência de eventos. Já os presentes, provavelmente pensavam que se tratava de um sonho maluco e que o tempo provavelmente corria três vezes mais rápido do que deveria.

O gol que sacramentou o título do Arsenal / Foto: Daily Mail
O gol que sacramentou o título do Arsenal / Foto: Daily Mail

Correu mesmo, pois aos 44, Sunderland deu números finais ao confronto. Provavelmente desatento e ainda chocado com o empate, o United não marcou a saída do Arsenal. Brady partiu com o resto do fôlego que ainda lhe restava, trotando com autonomia e carregando a bola. Soltou um passe fraco e rasteiro para Rix, que entrava na velocidade pela esquerda. Rix cruzou na área, Bailey saiu estabanado e perdeu o tempo da bola. Ela sobrou na medida para Sunderland botar o pé e fazer o terceiro.

As esperanças dos mancunianos cresceram e foram estraçalhadas em questão de segundos. Qualquer um que tenha virado bipolar depois desse dia não causaria espanto de forma alguma.

O Arsenal era campeão graças ao talento e a predestinação de Brady, a presença na hora e lugar certo de Sunderland e ao cruzamento preciso de Rix. Elementos que, isolados, não teriam causado tantas surpresas aos mais de 100 mil torcedores em Wembley na tarde de 12 de maio. Logo que Ron Challis apitou para o fim, aquela partida se tornou um clássico. Pois é de emoção pura e eletricidade que é feito um jogo inesquecível.

Manchete e reportagem daquela partida. Foto: The Arsenal History
Manchete e reportagem daquela partida. Foto: The Arsenal History

7 pensamentos em “Muito antes do ‘Fergie Time’, o Manchester United perdeu uma final nos acréscimos”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *