Maestrelli, o homem que foi salvo do acidente aéreo do Torino pela burocracia

Tommaso Maestrelli viveu seus 54 anos como um dos maiores exemplos de sorte que o futebol já viu. Atleta com passagens por Bari, Roma e Lucchese, o italiano quase entrou para a história como vítima de um acidente fatal que matou outros 18 jogadores. Por culpa da burocracia, não embarcou e sobreviveu.

O nome pode não ser familiar para as grandes torcidas ou o público fora da Itália, mas Maestrelli atuou 19 anos como profissional, sempre como meia. Começou no Bari, passou pela Roma, jogou também no modesto Lucchese e encerrou a carreira no mesmo Bari, em 1957. Chegou a ser convocado pela Itália e atuou nas Olimpíadas de 1948, onde a Squadra Azzurra foi derrotada pela Dinamarca nas quartas de final.

Anos antes, quando defendia a Roma, o meia recebeu um convite para se juntar ao Grande Torino de 1949 que faria uma excursão para Portugal, afim de enfrentar o Benfica em um amistoso. A partida, por sua vez, foi um pedido do capitão do clube lisboeta e da seleção portuguesa, Francisco Ferreira.

Foto: UEFA
Foto: UEFA

O Torino era o pentacampeão italiano e dominava as competições no país. Era liderado pelo lendário atacante Valentino Mazzola. Mazzola, aliás, foi o responsável por chamar Maestrelli ao amistoso em Lisboa. Na volta para Turim, em 4 de maio de 1949, o avião que transportava o Torino, um Fiat G.212 se chocou contra a torre da basílica de Superga, já em território turinense.

O que sobrou do avião do Torino, que se chocou contra a torre da basílica de Superga/ Foto: Fox Sports
O que sobrou do avião do Torino, que se chocou contra a torre da basílica de Superga/ Foto: Fox Sports

Os 31 homens que estavam no voo morreram no impacto. A morte de 18 atletas, mais comissão técnica e jornalistas renomados chocaram o país, que chorou a perda do seu grande campeão na época. Dali em diante, no restante da disputa do Italiano, os rivais jogaram com equipes juvenis contra o Torino, que foi obrigado a terminar a competição usando atletas do Primavera, como são conhecidas as equipes de base no país. Mesmo assim, o Toro foi campeão e honrou a herança dos mortos em Superga.

A tragédia também foi de Pozzo

Outro fato triste aconteceu com Vittorio Pozzo, treinador bicampeão mundial com a Itália em 1934 e 38: como vários atletas do Torino faziam parte de suas convocações, ele foi o responsável por identificar os corpos após o acidente. Pozzo deixou o cargo de comandante da Squadra Azzurra um ano antes. Para a Copa de 1950, no Brasil, a Itália veio desfalcada e de navio para o torneio. Foi eliminada na primeira fase

O resto da vida de Maestrelli

Pino Wilson, Maestrelli e Chinaglia. Foto: Pinterest
Giuseppe Wilson, Maestrelli e Chinaglia. Foto: Pinterest

Maestrelli, que poderia estar entre os 31 mortos no acidente, nunca deixou a Itália. Antes de embarcar para Portugal, teve seu passaporte negado pela polícia turinense. Ficou em seu país e se salvou do desastre que dizimou a maior força italiana na década de 1940.

Depois de deixar a carreira de futebolista em 1957, Tommaso passou pelo banco de reservas de Bari, Reggina e Foggia antes de desembarcar em Roma para comandar a Lazio, em 1971. Durante cinco anos, liderou um bom time laziale que foi campeão em 1974.

Empurrado pelos gols do matador Giorgio Chinaglia, a Lazio levantava seu primeiro scudetto na história. Chinaglia marcou 24 vezes e foi artilheiro da competição. Maestrelli, do banco, era aclamado como um dos grandes ídolos da geração. Com 43 pontos, a equipe biancocelesti bateu a Juventus para ficar com a taça. Os juventinos ficaram com 41 na tabela final.

Cada dia como se fosse o último

Na temporada seguinte, o treinador descobriu um câncer no fígado e lidou com a notícia de que teria apenas alguns meses de vida. A Lazio apontou Roberto Lovati para o seu lugar, mas a campanha foi relativamente fraca em relação à anterior. Os aquilotti ficaram na quarta colocação e não jogaram a Copa dos Campeões da Europa por uma punição da Uefa.

A guerra campal contra o Ipswich

Em 1973, os italianos participaram de uma enorme confusão no Olimpico de Roma contra o Ipswich, depois de uma derrota por 4-0 na Inglaterra. O placar terminou 4-2 para a Lazio, mas o agregado foi insuficiente e os Tractor Boys ficaram com a vaga, para descontentamento dos ultras. Uma invasão no campo (com a conivência de Chinaglia, que também partiu para a pancadaria com os jogadores do Ipswich) acabou com o sonho dos romanos para a temporada seguinte. A entidade decidiu por suspender a participação laziale na Champions de 1974-75. Não houve substituto do país no torneio, vencido pelo Bayern em final contra o Leeds.

Maestrelli chegou a apresentar uma breve recuperação e ainda tentou voltar para o seu cargo, mas acabou ocupando o papel de diretor esportivo, já que os mandatários da Lazio sabiam de sua condição clínica. O time ia mal demais na temporada, abalado por ter vendido vários jogadores importantes como Oddi e Chinaglia.

Tommaso então promoveu o jovem Bruno Giordano ao posto de camisa 9, que fez um dos dois gols do empate diante do Como, na última rodada. Não fosse pelo gol dele, a Lazio teria perdido e sido tragicamente rebaixada, já que só bateu o Ascoli no saldo de gols para permanecer na Serie A.

Contudo, a doença voltou a atacar Maestrelli, que em dezembro de 1976 não resistiu e morreu, sendo substituído pelo brasileiro Luís Vinício no cargo. A Lazio demorou para se recompor e acabou em quinto lugar na Serie A em 1977.

Para que a memória de Maestrelli fosse eterna como um vencedor, não como um mero sortudo, a vida lhe deu uma segunda chance. E Tommaso aproveitou da melhor forma, entrando direto no coração de cada laziale que lhe é grato pelo primeiro scudetto de todos em 1974.

3 pensamentos em “Maestrelli, o homem que foi salvo do acidente aéreo do Torino pela burocracia”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *