Quando Caniggia foi o último jogador a entrar no lugar de Maradona

Se tem uma coisa que os argentinos são bons além do futebol é o drama. O drama, característica notável do principal estilo de música do país, o tango, esteve presente durante grande parte da carreira de Diego Maradona, para muitos, o maior gênio que vestiu a camisa da Albiceleste. E em sua última dança, Diego não teve muita felicidade como camisa 10 do Boca Juniors.

O calendário está em 1981. Nele, Maradona veste a camisa 10 e é o craque ideal para empurrar a Argentina ao bicampeonato mundial. Estava no Boca Juniors, se despedindo antes de partir ao Barcelona com o título do Metropolitano em cima do Ferro Carril Oeste, por uma mínima diferença de um ponto.

Dali, Diego saiu para deixar enorme saudade. Até 1996, a massa boquense ficou sonhando com a sua volta. Anos e anos, títulos e mais títulos depois, o herói voltava sem o status de quando era o melhor do mundo. Abalado por escândalos de drogas e punições por doping, Maradona teve um breve namoro com o Newell’s Old Boys, time pelo qual jogou cinco vezes em 1993.

Como foi banido por 15 meses a partir da Copa do Mundo de 1994, seu último grande torneio, o meia só pôde fazer seu retorno em 1995. Ano em que voltou para os braços da torcida xeneize.

Apesar de não ter 100% físicos e mentais, Maradona pisava novamente em La Bombonera como um dos 11 jogadores da casa. Vestia a faixa de capitão e usava uma mecha amarela na cabeça. Raivoso para jogar e ser novamente campeão, El Pibe alinhou com o seu velho amigo Claudio Caniggia num time que tinha tudo para devorar o futebol argentino, mas que ficou marcado pela enorme frustração.

A volta dos astros em baixa

Cannigia e Maradona em 1995 / Foto: Taringa
Caniggia e Maradona em 1995 / Foto: Taringa

Passaram-se dois anos da dupla no Boca, entre idas e vindas, tristezas e esperanças. Em 1996, a mãe de Caniggia se suicidou e o atacante viveu alguns meses afastado do esporte. Maradona, por sua vez, estava às voltas com problemas de saúde até que em abril de 1997, outro caso de doping foi comprovado. A defesa de Diego era conseguiu protelar a suspensão com a alegação de sabotagem. O argumento foi visto como procedente pelas autoridades, que tiveram de esperar até bater o martelo. Enquanto a contraprova do seu exame não fosse divulgada, a AFA não tinha como iniciar uma punição ao atleta.

Não foi preciso que outra suspensão tentasse tirar El Diez do futebol. Contra o Colo-Colo, pela Supercopa Libertadores, Diego saiu de campo com problemas musculares que o atrapalharam na caminhada final da temporada. Pelo Apertura, a luta com o River Plate era travada rodada a rodada. Do outro lado, outro astro estava em seus dias finais: Enzo Francescoli, capitão e craque dos millonarios.

O Boca era comandado por Hector Veira, que chegou como o salvador da pátria para tentar dar o último título a Maradona. Como o craque estava muito visado pela Federação, que queria pegá-lo de qualquer jeito no antidoping, a paciência foi acabando. Visto que Diego não conseguia render por problemas físicos somados à atmosfera agressiva ao seu redor, às vésperas de completar 37 anos, o jogador se aposentou depois de um confronto especial.

Maradona encara Astrada / Foto: El Grafico
Maradona encara Astrada / Foto: El Grafico

O cenário da despedida

E não foi uma aposentadoria qualquer. O último jogo de Dieguito ocorreu no grande palco do Monumental, casa do River Plate, que por sete anos falhou em ganhar do Boca em seu estádio. O duelo decidiria a reta final do Apertura e qualquer ponto valia ouro. Rodada 10, 25 de outubro de 1997: o último dia de Maradona como profissional.

O River vinha empolgado por uma sequência boa e queria amassar o seu rival. Um ano antes, venceu a Libertadores. A base havia sido montada por Daniel Passarella, que foi parar na seleção Argentina, onde barrou atletas com cabelos cumpridos na Copa de 1998. O legado de Passarella foi a descoberta de talentos como Sorín, Placente, Crespo, Almeyda, Gallardo e Ortega.

Já o Boca, vivia um inferno político. Sem ganhar títulos de forma constante, o time havia sido campeão pela última vez em 1993 e não conseguia cuidar de seus grandes craques. Sempre muito explorada pela mídia, a equipe parecia não ter jeito para entrar nos trilhos. Foi então o momento de apostar em novos garotos que se adaptassem à proposta de renovação para os anos seguintes. Córdoba, Arruabarrena, Riquelme, Verón (que saiu pouco depois para a Sampdoria), Palermo, Cagna, os irmãos Schelotto, o lateral Bermúdez e o meia Solano, do Sporting Cristal.

Mas debaixo de chuva, não foi um show do River que o Monumental viu. Aconteceu mesmo foi uma superação boquense, motivada pela singular vontade de detonar em mais um clássico.

Adeus, Diego

Ofensivo, o time da casa não perdeu tempo e partiu para os ataques, colocando o Boca nas cordas. Em uma boa transição ofensiva, Rambert achou Salas, que tocou para Berti bater na saída de Córdoba. No intervalo, Veira precisou mexer. Incomodado por dores musculares, Diego pediu para ser substituído pela última vez. O 10 saiu juntamente com Nélson Vivas, para a entrada de Caniggia e um certo Riquelme. Coube a El Pájaro entrar em campo para fazer fumaça na defesa adversária e honrar o amigo que passou de elemento-chave a espectador em questão de minutos.

Com os dois em campo e Diego do banco, o Boca foi buscar a virada. Latorre dominou no bico da área e passou nas costas da defesa. Torresani correu e acertou o canto de Burgos para deixar tudo igual. O goleador Palermo resolveu o clássico para os xeneizes. Em uma confusão na defesa millonaria, o camisa 9 subiu para pegar a sobra e testou forte para o fundo da rede. Dali em diante, o Boca administrou e venceu.

Apelos da família unidos à intensa pressão para um novo banimento por doping, Diego não voltaria a fardar pelo Boca. Saiu de campo no Monumental mandando dedos e bananas para a torcida do River. O seu último antidoping testou negativo. E seu último clássico terminou com vitória.

Contudo, o ídolo não foi até o final da campanha: em 21 de dezembro de 1997, quem ficou com o caneco foi o River Plate, por apenas um ponto. Apesar da campanha impressionante dos xeneizes, com apenas uma derrota, os millonarios se sagraram campeões.

Especialmente naquele torneio, o futebol não quis se curvar a um de seus maiores artistas. Quem riu por último foi o River de Díaz, técnico e notório rival de Maradona, capitaneado por Francescoli, um craque que representava quase o oposto de Dieguito, sem entrar, claro, no mérito técnico.

Fecharam-se as cortinas para Maradona. Abriam-se para um novo maestro, chamado Juán Román. Ao contrário de seu antecessor, Riquelme jogou muitas edições de Libertadores e levantou três delas, sem falar nos seis títulos nacionais. Maradona, que viveu todo o seu auge longe da Argentina, ficou só com aquele de 1981 na memória.

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