Como Pessotto ganhou uma Copa do Mundo da UTI

Gianluca Pessotto quase foi protagonista de uma história trágica vivida por um jogador que, no limite, não encontrou outra saída além do suicídio. Ídolo da Juventus nos anos 1990 e 2000, o atleta comoveu a Itália durante a Copa de 2006 e virou um talismã para a Squadra Azzurra -mesmo estando internado na UTI- campeã do mundo.

Por muito tempo Pessotto viveu calado o drama de uma pessoa com depressão. Nascido em 1970 na cidade de Latisana, o pequeno lateral deu o pontapé inicial na sua carreira em 1989, pelo Varese. Meses antes, foi rejeitado como juvenil do Milan, sem sequer fazer uma partida pelo time profissional.

Demorou a se destacar no cenário italiano e defendeu algumas equipes até finalmente estourar no futebol local. Jogou por Massese, Bologna, Verona e Torino antes de assinar com a Juventus em 1995. O time voltava à disputa da Liga dos Campeões em 1995-96. Conhecido por sua garra, inteligência (dentro e fora dos gramados), resistência e importância tática, Pessotto ganhou apelidos como ‘Il Professorino’ e ‘Passerotto’ (Professorzinho e Pardal, em italiano).

Multicampeão com a Juve, levantou quatro vezes a Serie A, uma Copa da Itália, a Liga dos Campeões diante do Ajax e o Mundial Interclubes contra o River Plate. Era titular indispensável do esquema de Marcello Lippi, Carlo Ancelotti e Fabio Capello. Jogou a Copa de 1998 e a Eurocopa de 2000 com a Itália.

O Calciopoli e a tentativa de suicídio

Infográfico de jornal italiano sobre a tentativa de suicídio de Pessotto: juventino caiu de altura de 15 metros
Infográfico de jornal italiano sobre a tentativa de suicídio de Pessotto: juventino caiu de altura de 15 metros (Foto: Juventuz forum)

Gianluca preparava a sua aposentadoria para a metade de 2006, ano de Copa do Mundo. Aos 36 anos, sentia que não podia dar mais à Juve e encerrou com glória o seu ciclo, sendo bicampeão italiano. Contudo, assim como em 1982, o futebol do país foi assolado por mais um escândalo de manipulação de resultados, o Calciopoli.

A Juve, que havia nomeado Pessotto como treinador de equipes de base, foi rebaixada para a Serie B por envolvimento no esquema. O Milan, que também estava metido na enrascada, escapou com uma punição em pontos. A Internazionale herdou no tapetão os dois scudettos juventinos em 2005 e 2006. Pessotto, que tinha formação em Direito, também ocuparia cargos administrativos depois de pendurar as chuteiras. Mas esses planos foram postergados por um desastre.

O elenco convocado por Marcello Lippi já estava na Alemanha e jogando a segunda fase da Copa, quando em 27 de junho estourou a notícia do acidente de Pessottino. Ele se jogou do topo da sede juventina e caiu em cima do carro do presidente Roberto Bettega. Estava segurando um terço. Um dia antes, a Itália bateu a Austrália com gol sofrido de Totti na prorrogação, pelas oitavas de final.

Logo, a versão de uma tentativa de suicídio ganhou força na imprensa italiana. A notícia caiu como uma bomba durante uma entrevista coletiva dada por Fabio Cannavaro, amigo pessoal de Gianluca, assim como grande parte dos 23 futebolistas da Squadra Azzurra. No momento em que soube do episódio, o zagueiro se levantou chocado da mesa onde atendia repórteres e deixou a local.

Explica-se que além da depressão, Pessotto atravessava problemas conjugais e se distanciou dos filhos quando a sua esposa o deixou sozinho em Turim.  O duro golpe da Juve ser rebaixada por estar metida no Calciopoli também foi determinante no caos emocional do atleta. Na queda do prédio, o ex-jogador sofreu múltiplas fraturas, traumatismo craniano e hemorragia interna.

Pessottino, estamos contigo

Foto: Four Four Two
Foto: Four Four Two

A Itália fez como sabia melhor: arrancou na raça até o título. Craques como Del Piero, Zambrotta e Cannavaro viajaram rapidamente para Turim a fim de visitar Gianluca, que passou um bom tempo inconsciente. Ex-colega de quarto de Pessotto, o zagueiro Paolo Montero viajou do Uruguai até a Itália para passar nove dias no hospital, acompanhando a evolução do estado do amigo. Enquanto Pessottino não saiu do coma, o uruguaio não deixou o local.

Tomada pela necessidade de superação de mais um escândalo e motivada a conquistar a Copa pela honra de Pessotto, a Itália venceu Ucrânia, Alemanha e França, nos pênaltis, para ficar com a taça. A cada partida, Cannavaro e seus colegas levantavam bandeiras em apoio do companheiro, que estava na UTI. Pouco antes da final ante os franceses, os jogadores souberam que Pessotto não corria mais risco de vida.

Tanta força de vontade e companheirismo empurrou os azzurri de Lippi. Os italianos se sagraram tetracampeões do mundo. E nem mesmo neste momento se esqueceram de Gianluca.

Cannavaro foi acompanhado de outros jogadores até o quarto de Pessotto para prestar uma nova homenagem. Ainda não muito consciente em virtude da forte medicação e de seu frágil estado de saúde, o lateral ganhou uma injeção de ânimo para continuar vivendo. Como se já não fosse muito, Fabio, Del Piero e Ferrara levaram consigo a taça da Copa até Gianluca, num gesto que emocionaria até o mais duro dos homens.

Depois de todo o drama e a chance de perder um amigo para uma doença silenciosa, a seleção da Itália superou suas adversidades para levar o tetra. Tetra que jamais viria sem a contribuição de Pessotto, mesmo de longe. O capitão Cannavaro dizia que o ex-companheiro de Juve foi o 24º jogador da Itália naqueles sete jogos na Alemanha.

Em festa, o país saudou os seus campeões e desejou melhoras ao querido Pessotto, que se recuperava. Semanas depois, acordou sem saber o que havia acontecido. Em setembro, sem sequelas, deixou o hospital para começar uma longa reabilitação. Gianluca passou a falar publicamente do drama que viveu e, em colaboração dos jornalistas Marco Franzelli e Donatella Scarnati, lançou o livro “La partita più importante“. Hoje ocupa o cargo de manager do Primavera, equipe juvenil dos bianconeri.

Foto: Gazzetta Dello Sport
Cannavaro e Ferrara entregam a taça a Pessotto / Foto: Ospedale Molinette

Um pensamento em “Como Pessotto ganhou uma Copa do Mundo da UTI”

  1. Grande história! Foi a ultima Copa que acompanhei realmente. A história de Pessotto é marcante. Parabéns pelo texto e pelo site, acompanho a anos!

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