As lendas do maior jogo entre Santos e Palmeiras que o mundo já viu

Valendo pelo Torneio Rio-São Paulo de 1958, Santos e Palmeiras fizeram no Pacaembu o que muitos dos jogadores envolvidos chamam de ‘maior clássico da história do futebol’. Antes de começar a dar razão a eles, observemos algumas coisas: o placar foi de 7 a 6, com três viradas. Está de bom tamanho para vocês?

O futebol paulista vivia seus anos dourados. Depois da grande geração corintiana campeã estadual em 1954, nascia o imbatível Santos de Pelé e Pepe, que na verdade ainda pertencia a Pepe e Pagão. O Verdão, então treinado por Oswaldo Brandão, recebeu o Peixe no Pacaembu por mais um jogo, válido na terceira rodada daquele Rio-São Paulo. Ninguém esperava nada demais para aquele embate. Mas ele ficaria marcado na história pela imprevisibilidade e emoção.

Não à toa, jornais da época diziam que cinco pessoas sofreram infarto e morreram por fortes emoções vividas durante os 90 minutos. A incredulidade pelo espetáculo foi somada à tensão de não saber o que poderia acontecer nos minutos seguintes. E assim, o coquetel acabou sendo demais para o coração deste cinco torcedores de times não revelados. Sabe-se apenas que eles morreram.

Curiosamente, o clássico não valeu absolutamente nada. Não estava decidindo classificação e muito menos o título. Nenhum dos dois foi campeão no fim. Santos e Palmeiras terminaram em sétimo e oitavo, respectivamente. Eram 10 clubes na disputa, por isso o enorme espanto com o milagre de gols. Mas o que de tão incrível aconteceu naquela tarde de 6 de março de 1958?

A sensação de que nada estava definido

O Palmeiras de Mazzola (ele mesmo, que depois se naturalizou italiano e foi jogar no Milan) derramou o primeiro sangue do dia. Urias balançou as redes de Manga (não era AQUELE Manga), com menos de 20 minutos jogados. Aos 21, Pelé foi buscar o empate. Pagão virou para o Peixe, mas Nardo deixou tudo igual para o Verdão, com 26 minutos no relógio. O clássico prometia.

Daí o Santos engrenou de vez. Dorval, Pepe e Pagão castigaram a defesa palmeirense e o jogo foi para o intervalo com 5-2 para os alvinegros, uma verdadeira lavada. A segunda das lendas é que Brandão pediu vergonha na cara aos seus jogadores. O negócio estava tão feio para o Palmeiras que o goleiro Edgar saiu chorando de campo e teve de ser substituído, tamanho choque. O reserva Vitor entrou em seu lugar.

A reação palmeirense

Brandão, como técnico do Palmeiras: 585 jogos (341V, 151E, 93D) Fonte/Foto: IG
Brandão, como técnico do Palmeiras: 585 jogos (341V, 151E, 93D) Fonte/Foto: IG

Motivado por episódios como a ‘Arrancada Heroica’ de 1942, quando deixou de ser Palestra Itália para se tornar Palmeiras, o time de Brandão ergueu a cabeça e encarou o adversário com toda a valentia que lhe era possível. Colocou a bola no chão e jogou. Na segunda etapa, o tempo passava devagar, como que num prelúdio de mais um episódio da guerra.

Pepe apostava em nova goleada do Santos nos 45 minutos finais. Ele chegou aos colegas e disse: ‘Cinco vira, dez acaba, vamos detonar o Palmeiras hoje”. Com essas palavras, o craque santista inflamou os ânimos alvinegros.

Começou então o segundo tempo. Aos 16, Paulinho fez o terceiro do Verdão, cobrando uma penalidade. Mazzola fez o quarto e o quinto. Choque completo nas bancadas. Urias então fez o inesperado: virou para os palmeirenses, que levaram a plateia à loucura com o 6-5. Como poderia um time retomar o controle do jogo após o massacre que se viu ao intervalo? Como conseguiu Brandão restaurar a fé e o brio de cada atleta na vitória?

Respostas que também ficaram perdidas, assim como a totalidade das imagens daquele duelo. Ficam só as notícias de jornal e as histórias de quem participou, ainda que sobre cada vez menos gente que presenciou aquela tarde chuvosa.

Pepe, o salvador

Foto: Placar
Foto: Placar

O mesmo Pepe que apostou em uma goleada, evitou uma tragédia para o Santos. Empatou aos 38, para deixar em 6-6. Aos 43 da segunda etapa, o atacante selou a vitória e fechou a conta do clássico paulista mais emocionante que se tem notícia até hoje.

A história é tão fascinante que virou parte de uma versão estendida do documentário ‘Pelé Eterno’, dirigido por Aníbal Massaini e lançado em 2004. O cineasta achou um filme com as imagens daquele 7-6 em que Pepe foi a figura central ao invés de Pelé.

Meses depois, o Brasil foi campeão do mundo pela primeira vez e o camisa 10, então com 18 anos, mostrou seu cartão de visitas ao planeta, com chapéus, dribles e gols que todo mundo diz que viu da arquibancada. Falar daquele Santos é uma constante revisita à fantasia, ao impossível e ao inalcançável.

Relembrar o encontro de 1958 entre Palmeiras e Santos no Pacaembu, aquele que matou cinco pessoas do coração, ainda parece recurso do realismo fantástico, coisa que nem Gabriel García Márquez teria pensado em seus livros. Vê-se a manchete, ouve-se os relatos, mas ainda assim parece mentira, exagero ou história de pescador.

Palmeiras 6-7 Santos
Pacaembu, 6 de março de 1958, Torneio Rio-São Paulo
Palmeiras: Edgar (Vitor), Edson, Dema, Waldemar Carabina, Fiúme, Formiga (Maurinho), Nardo (Caraballo), Mazzola, Ivan e Urias. Técnico: Oswaldo Brandão
Santos: Manga, Helvio, Dalmo, Fiotti, Zito, Ramiro (Urubatão), Dorval, Jair da Rosa Pinto, Pagão (Afonsinho), Pelé e Pepe. Técnico: Lula
Gols: Urias (2x), Mazzola (2x), Nardo e Paulinho (Palmeiras); Pepe (3x), Pagão (2x) Pelé e Dorval (Santos)

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