Como o Corinthians impediu o tricampeonato paulista do Palmeiras

São Paulo fervia no início dos anos 1990 com a rivalidade intensa entre Palmeiras e Corinthians. Afinal, os dois brigavam aos tapas pelas taças do Paulistão e do Brasileiro. Para o Verdão, o fato de sair da fila em 1993 abriu alas para uma década feliz e repleta de troféus. Aos corintianos, sobravam as derrotas sofridas e vinganças saborosas em momentos oportunos. E em 1995, diante de um rival que era favorito, deu Timão na cabeça, pelo Paulistão.

Alguns fatores foram cruciais para o sucesso alvinegro naquela edição do estadual. A determinação de Marcelinho Carioca, a união do elenco treinado por Eduardo Amorim e um gol decisivo de Elivélton na prorrogação da final.

A caminhada alvinegra até a decisão não foi tão fácil quanto parece. Na primeira fase, dominada pela Portuguesa, o Timão de Amorim foi apenas o sexto colocado, com 16 pontos a menos que os líderes. Os ajustes foram feitos daí em diante, quando a equipe  de Parque São Jorge avançou para o quadrangular semifinal com turno e returno.

Com a pontaria afiada, o Corinthians liderou uma chave contra Portuguesa, Santos e União São João. Enquanto isso, do outro lado, o Palmeiras saía invicto contra Mogi Mirim, São Paulo e Guarani. Marcelinho e seus colegas fizeram 13 gols em seis partidas, mantendo a boa média. Lá atrás, sofreram apenas cinco.

O reencontro

Foto: UOL
Foto: UOL

O Palmeiras vinha de uma grande sequência de títulos. Bicampeão paulista e brasileiro, o time de Carlos Alberto Silva foi o primeiro da transição até a volta de Vanderlei Luxemburgo para o famoso esquadrão de 1996, campeão paulista com 83 pontos e 102 gols marcados. Nas últimas vezes que o Timão enfrentou o rival, perdeu no Paulista/Rio-São Paulo de 1993 e também no Brasileiro de 94. Os corintianos estavam fartos das derrotas. Era hora de um basta.

Muitas figuras dos embates anteriores estavam presentes. Ronaldo, Henrique, Zé Elias, Marcelinho e Viola. Do lado palmeirense, Sérgio/Velloso, Cléber, Antonio Carlos, Roberto Carlos, Amaral, Rivaldo, Edílson e Flávio Conceição. O estádio Santa Cruz, em Ribeirão Preto recebeu duas partidas emocionantes que consagraram a reação alvinegra.

A primeira, em 30 de julho, terminou em pé de igualdade. Roberto Carlos perdeu um pênalti na primeira partida, o que acabou custando caro para o segundo embate. Alex Alves e Bernardo foram expulsos antes do intervalo, por agressão do atacante palmeirense ao volante alvinegro. Irritado pela expulsão injusta de seu atleta, o Corinthians ameaçou não voltar ao gramado para os 45 minutos finais.

Depois do blefe, gol de Marcelinho, aos 15, aproveitando uma bola cruzada na área palmeirense. O que o Timão não esperava era um gol de Nílson, com oportunismo e na conta do chá, aos 48 minutos jogados. Ronaldo vinha fechando a meta, mas não pôde evitar o empate. Tudo ficou para 6 de agosto, em outro grande clássico em Ribeirão Preto.

A forra

Foto: Placar
Foto: Placar

O clima era propício para que a Fiel celebrasse mais um título do Paulistão, depois de sete anos. A espera incomodava. As derrotas para rivais em decisões também. Mas para a alegria de uma torcida apaixonada, a vingança veio. Com muito drama, como haveria de ser.

Outra vez, Ronaldo teve uma tarde de paredão. Salvou as grandes chances do Palmeiras e garantiu o empate sem gols até o segundo tempo. Contudo, em boa tabelinha, Rivaldo largou Nílson na cara do gol. O matador não titubeou e guardou, 1-0 para os alviverdes. Puro drama no Santa Cruz. O tri alviverde se aproximava.

Foi aí que a estrela de Marcelinho brilhou. O relógio marcava 16 minutos. Uma falta perto da área de Velloso preocupou a defesa palmeirense. Dali era meio gol para o Pé de anjo. Muita gente de verde na frente do corintiano, que apontou e atirou na gaveta direita do arqueiro. Um golaço para empatar a decisão. Ninguém era de ninguém.

O Paulistão de 95 seria decidido na prorrogação. Enredo parecido com o de 1993, quando o Palmeiras de Evair saiu da fila ao engolir o adversário nos últimos 30 minutos. O Corinthians também queria tirar a barriga da miséria, ainda que tivesse menos tempo de espera por um caneco.

Elivélton

Foto: ESPN
Foto: ESPN

O mineiro Elivélton Alves Rufino sabia bem o que era ser campeão com a camisa de um grande. Revelado cinco anos antes pelo São Paulo, o tímido atacante ganhou tudo com o Tricolor de Telê Santana. Do Paulista ao Mundial, de São Paulo a Tóquio, passando por Argentina e Chile em duas finais de Libertadores. Atuou um ano pelo Nagoya Grampus antes de retornar ao Brasil como boa contratação do Corinthians para 1995. E apesar de não ser lembrado como deveria, teve papel importante na decisão do Paulista.

Amorim apostou em Elivélton para fazer a fumaça na prorrogação. Ele entrou no lugar de Marques para tentar causar confusão na defesa palmeirense. Viola também foi para o jogo apenas na prorrogação. Era tudo ou nada para o Corinthians. Tinha de ser tudo. O Timão apostou em cobranças de escanteio com veneno para pegar Velloso desprevenido. Não conseguiu. O goleiro foi em três chutes para salvar o Palmeiras. Tupãzinho também testou seu papel de talismã, esbarrando nas defesas do goleirão rival.

Foi tão sofrido aguentar a prorrogação que o Corinthians esteve por centímetros de perder a taça, quando um chute de Mancuso foi afastado em cima da linha pela defesa. Os alvinegros aturaram a agonia até os 13 minutos da segunda etapa da prorrogação. Não existia mais corintiano ateu naquele momento. E as unhas das mãos dos alvinegros já estavam pra lá de roídas quando um contragolpe rápido encerrou de vez a história daquele 6 de agosto.

Ezequiel ligou com Viola, que rebateu da meia-lua. A bola sobrou para Tupãzinho. O Talismã deixou rasteirinha para a finalização de Elivélton, que chutou com força e precisão semelhantes a uma cobrança de falta. O silêncio pairou no ar quando a pelota voou inevitável para o ângulo de Velloso, um tiro indefensável, fatal, crucial e qualquer outro adjetivo que possa sintetizar o fim de algo.

Ali, o Corinthians era campeão paulista de 1995, derrotando o seu maior rival e algoz dos últimos anos. Ali, a Fiel saía de uma fila que se não foi longa, certamente foi infernal ao ver o outro lado dar a volta olímpica em todo santo torneio no país. O choro não era mais de lamento. Era de liberdade, de alívio, de fim das agruras e o início de uma nova era que só se encerrou em 2000, com o Mundial no Maracanã. Culpa de Marcelinho. Com uma grande parcela de importância do infalível Elivélton, herói inesperado do título.

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