Por que Telê não conseguiu conquistar títulos pelo Palmeiras

Mestre da Seleção Brasileira nas Copas de 1982 e 86, sem falar no excelente trabalho feito no São Paulo, Telê Santana nem sempre foi bem-sucedido em sua carreira como treinador. É verdade que Telê tinha um nível excelente para o futebol brasileiro, o que não quer dizer que ele levantou taças por onde passou. O Palmeiras é o grande exemplo disso.

Tanto é que antes de ganhar o bicampeonato da Libertadores e do Mundial com o São Paulo, o comandante era chamado de pé-frio pela imprensa nacional. A injustiça se explica: faltou sorte a Telê em alguns momentos, algo que sobrava a contemporâneos como Ênio Andrade e Oswaldo Brandão.

O lendário professor começou sua carreira no banco pelo Fluminense, campeão carioca de 1969. Ainda ganhou os títulos do Mineiro em 70 e do Brasileirão com o Atlético, em 71. Alguns anos sem taças e passagens discretas por São Paulo e Botafogo tiveram um intervalo feliz no Grêmio, onde Telê conquistou o Gaúcho de 1977. Depois, o mineiro voltou para a capital paulista afim de assumir o Palmeiras, então comandado pelo argentino Filpo Núñez. Ao longo de sua vida, o mineiro de Itabirito passaria três vezes pelo Parque Antárctica.

A missão

O Palmeiras de 1979 era apenas a sombra do que foi no passado, até 76, quando venceu o Campeonato Paulista. Já não tinha mais Leão, Ademir da Guia, nem Leivinha, Luís Pereira, Dudu, Eurico, César Maluco e Alfredo. A equipe chegou desacreditada para a temporada 1979 após uma dezena de títulos e empurrada por nomes como Gilmar, Polozzi, Beto Fuscão, Pires, Rosemiro, o folclórico Mococa e os craques Jorge Mendonça e Jorginho Putinatti. Na frente, Baroninho e Carlos Alberto Seixas completavam o esquema.

Sob a batuta de Telê, o Verdão foi semifinalista do Estadual e do Brasileirão, perdendo para o Inter de Falcão. Muitos lembram a grande atuação palmeirense no nacional, um 4-1 diante do Flamengo de Zico, em pleno Maracanã. Foi certamente um placar estonteante para os locais, que foram arrebatados pelo futebol bonito dos paulistas. Mesmo com um elenco modesto, o treinador espremeu a laranja e conseguiu tirar um time competitivo.

A derrota diante do Inter

Foto: Imortais do Futebol
Foto: Imortais do Futebol

O Palmeiras chegou a sonhar com uma boa campanha do Brasileirão, entrando na terceira fase. Antes disso, a expectativa era de disputar o Torneio Rio-São Paulo, algo que nunca aconteceu. Mesmo assim, como vice-campeão de 1978, o Verdão conseguiu o direito de jogar o nacional. Corinthians, São Paulo, Portuguesa e Santos, que também foram pegos de surpresa com  o cancelamento do Rio-São Paulo, também pediram para entrar na terceira fase, mas esbarraram em uma recusa por parte da CBD e ficaram de fora.

Contra Flamengo, Comercial e São Bento, o Palmeiras somou três vitórias e avançou, eliminando o time de Zico. A alegria, contudo, durou pouco, já que o Internacional de Falcão acabou com a empolgação alviverde. Em São Paulo, triunfo colorado por 3-2. Em Porto Alegre, com a vantagem, um empate em 1-1 classificou os gaúchos para a decisão contra o Vasco. Falcão e seus colegas foram tricampeões do Brasil na ocasião.

Verdão Maravilha

Mesmo assim, o Palmeiras virou um grande adversário. Jogava com alegria, era o ‘Verdão Maravilha’ para muitos e sobretudo para a sua torcida, mimada com as glórias da Academia. Telê queria que o time jogasse à base de uma arte simples, sem invenções táticas e visando o puro futebol que era praticado nos tempos em que o Canal 100 era popular com seus filmes e narrativas românticas.

Aquela melodia envolvente de ‘Na Cadência do samba’ poderia facilmente ser a trilha de um Palmeiras que cresceu nas mãos de seu chefe. Santana recebeu os elogios merecidos por mais essa obra no futebol. Contra o Santos, já na reta final do Estadual, os seus pupilos aplicaram um sonoro 5-1 contra o Peixe, no Morumbi, debaixo de forte chuva.

A paralisação crucial do Paulista

Chegou o fim de 1979 e o carismático Palmeiras era apontado como favorito nas semifinais do Paulista, contra o Corinthians de Jorge Vieira. Porém, antes que os jogos fossem realizados, uma polêmica com o Timão atrasou a disputa das fases finais. O imbróglio começou com Vicente Matheus, presidente corintiano, que se recusou a dividir a renda de uma rodada dupla no Morumbi, ainda na etapa classificatória.

A ideia da Federação era marcar Palmeiras x Guarani/Ponte Preta x Corinthians para a mesma tarde, maximizando a presença de torcedores para os confrontos. Vendo que o Corinthians não participaria, a entidade tentou convencer sem sucesso a Ponte a remarcar o duelo em troca de um valor que representava a sua fatia da renda. Os campineiros bateram o pé e levaram os pontos do jogo. Mas o trâmite demorou tanto que as semifinais só foram acontecer em janeiro de 1980.

Quem saiu perdendo foi o Palmeiras, que precisou parar no fim do ano e acabou voltando sem o mesmo pique. No primeiro jogo valendo vaga na decisão, empate em 1-1, gols de Jorge Mendonça e Palhinha. Pela volta, o Timão superou o rival com gol de Biro-Biro e de forma surpreendente avançou à final, para vencer mais uma vez a Ponte.

Do Palmeiras, Telê foi para a Seleção, logo após a queda para o Corinthians. Treinou o time em duas Copas e perdeu ambas, mas com a marca do futebol arte que tanto defendeu. Passou com sucesso pelo Al-Ahli da Arábia Saudita, pelo Atlético Mineiro (venceu um estadual em 1988), pelo Flamengo (uma Taça Guanabara, pelo Fluminense, seu time de coração. E em 1990, voltou ao Palestra Itália, com ainda menos sorte do que da primeira vez.

Mais uma vítima da época de vacas magras

O Palmeiras continuava na fila. Naquela temporada, o clube já acumulava 14 anos sem nenhuma taça e a torcida ficava cada vez mais impaciente com os fracassos e vexames, como em 1986, quando o Verdão perdeu o Estadual para a Inter de Limeira. O treinador chegou em maio de 1990 ao clube, ficou poucos meses e pediu demissão em setembro, durante o Brasileirão.

Assim como em 1979, havia pouco material humano para que Telê desempenhasse seu trabalho. Alguns nomes que participariam dos bons tempos de Parmalat estavam no plantel, como Alexandre Rosa, Galeano e Velloso, mas o ano em si foi trágico para a torcida. No Paulistão, o Palmeiras perdeu a vaga na final depois de ficar em um empate sonolento com a Ferroviária, no Pacaembu.

Tudo poderia ter sido diferente se o uruguaio Aguirregaray tivesse acertado o gol ao invés da trave, em chance clara no fim do segundo tempo. O resultado deixou o Verdão com 15 pontos no grupo de repescagem vermelho, um atrás do Novorizontino, líder e que fez a final com o Bragantino.

A decepção irritou a torcida, que tentou invadir o gramado. Jogadores como Elzo e Mirandinha pensaram em se aposentar depois do ocorrido, tamanho choque. Para piorar, a sala de troféus do clube foi invadida por torcedores, que depredaram o local.

Pelo Brasileiro, o Verdão durou até as quartas de final, mas passou por momentos de turbulência na fase classificatória. Telê não aguentou a pressão e pediu demissão na quinta rodada, quando o Bahia venceu o Palmeiras por 2-1 no Parque Antárctica. Sexto colocado na fase de grupos, o alviverde foi eliminado pelo Grêmio. Telê então assinou com o São Paulo e foi até a decisão para perder para o Corinthians, que levantava o troféu pela primeira vez em sua história.

A última passagem

Em 1997, Telê ficou por alguns dias no Palmeiras, mas não firmou contrato por estar com problemas de saúde. Meses antes, sofreu uma isquemia cerebral que afetou seriamente a sua comunicação e seus movimentos.

Nas duas primeiras passagens, Telê provou que nem um dos grandes treinadores do esporte conseguiu resgatar o Palmeiras da fila, uma fase melancólica para um clube que era acostumado às glórias. Enquanto esperava que Evair fosse o redentor em 1993, o Verdão passou por várias agruras no caminho. Queimou craques, perdeu jogos em que era favorito, teve azar e ajudou a enterrar a carreira de promessas que tinham muito a dar ao futebol. Trata-se de uma dessas maldições corriqueiras que acometem os grandes.

O problema para Telê é que a carapuça de pé-frio serviu. Anos depois, já reconhecido pelo milagre no Tricolor, pegou um Super Palmeiras fortalecido pela Parmalat, infelizmente não teve condições físicas e mentais para fazer um último grande trabalho à frente do clube alviverde. Mas isso é um mero detalhe na trajetória de um mestre que marcou a história do Atlético Mineiro e do São Paulo.

Fez-se o que haveria de ser feito e isso é o que deve importar. Depois daquele único treino dado em janeiro de 1997 na Academia de Futebol, o ‘Fio de esperança’ nunca mais treinou outro time e passou seus anos finais sem poder dizer como gostaria o que o futebol representou na sua vida. Telê morreu em 2006, em Belo Horizonte.

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