O misterioso herdeiro da camisa 10 de Pelé no Santos

O Santos ficou órfão de sua estrela maior em 1974, quando Pelé anunciou sua aposentadoria. Para entrar nos novos tempos, já que o clube parou de enfileirar títulos brasileiros e paulistas, era preciso inovar ou apostar em quem ninguém estava esperando.

Com 33 anos, o Rei fez a sua despedida contra a Ponte Preta, pelo Paulistão. Dias antes, o Peixe tinha sido eliminado do quadrangular final do Brasileirão. Um ano depois de parar, Pelé desistiu da aposentadoria para ir jogar nos Estados Unidos, aclamado como lenda viva do esporte. O problema é que a partir do momento que o Santos não tinha mais Pelé, criou-se a dúvida: quem ficaria com a camisa dele?

Foto: Goal.com
Foto: Goal.com

Ao contrário do que muitos esperavam na época, o herdeiro do emblemático número 10 não foi Cláudio Adão, Edu, ou Brecha, que já estavam no Peixe.  Foi o meia peruano Ramón Mifflin, que chegou discretamente ao grupo santista pouco antes da despedida de Pelé.

De onde saiu o peruano?

Mifflin, ao centro, cercado por Solis e Cubillas, do Allianza Lima. Foto: Tardes de Pacaembu
Mifflin, ao centro, cercado por Sotil e Cubillas, do Allianza Lima. Foto: Tardes de Pacaembu

Ramón Mifflin começou a carreira no Centro Iqueño, em 1963 e passou pelo Defensor Arica antes de ganhar o país como atleta do tradicional Sporting Cristal. Lá, viveu grandes momentos, se destacou na Libertadores de 1969 e até foi parte do time do Peru que jogou a Copa de 1970, no México.

Sob o comando de Didi, o meia foi titular e enfrentou o Brasil nas quartas de final, no papel de um dos protagonistas. Acontece que Didi voltou da Copa de 1970 querendo colocar o seu atleta em alguma equipe brasileira. Conseguiu só muito tempo depois, na Vila Belmiro.

De 1968 a 73, Mifflin defendeu a equipe do Sporting Cristal e foi comprado em seguida pelo Racing. Na Argentina, não convenceu como armador de jogadas e foi facilmente negociado com o Santos, para 1974, justamente para ocupar o vazio que Pelé deixaria.

Indicado por Didi e amigo de Pelé

Foto: Socawarriors
Mifflin, número 15, ao lado de Pelé, pelo Cosmos/Foto: Socawarriors

Em 1970, da primeira vez que Didi tentou encaminhar Ramón ao Vasco, os cruzmaltinos não entraram em acordo financeiro com o Cristal, que acabou ficando mais dois anos com o seu notável jogador. Não bastasse o talento, o peruano ainda criou certa amizade com Pelé durante o torneio no México, o que fortaleceu ainda mais as chances de uma assinatura pelo Santos.

Mifflin chegou na Vila Belmiro em 1974, e em um ano atípico no Estadual, o Peixe ficou longe da disputa da taça. Terceiro colocado nos dois turnos, a equipe órfã de Pelé e com o peruano de camisa 10 não conseguiu fazer a final, disputada por Palmeiras e Corinthians, campeões da primeira fase. O Verdão bateu o rival e conquistou o Paulista de 74.

Ao Santos, não restou muito consolo. Sem títulos e Pelé, o clube ficou mais quatro anos na seca até voltar a triunfar no Paulista, em 1978, com outros craques como Aílton Lira, Pita e Juari. Os dois últimos formados na base, conhecidos pela alcunha de ‘Meninos da Vila’.

O deslocado Mifflin atendeu em 1975 a um convite de seu amigo Pelé e seguiu os passos do Rei para jogar no Cosmos, onde conquistou duas vezes a NASL. Em 1979, voltou ao Peru e ajudou o Cristal a ser bicampeão nacional. O último momento de Ramón como atleta foi no Independiente Santa Fe. Ele se aposentou em 1981.

No Peru, é saudado como um dos craques que a geração de 1970 exibiu ao mundo. No Brasil, só os santistas devem se recordar de seu nome. Mas pouco se lembra sobre o fato de Mifflin ter sido o primeiro camisa 10 do Santos depois de Pelé. Um fardo que não é para qualquer cabeça de bagre perdido no planeta bola.

*Colaborou Tiago Melo, @melogtiago

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