Os atos de rebeldia que fizeram Cruyff ser o maior astro do seu tempo

Johan Cruyff foi incontestavelmente um dos maiores gênios da história do futebol. Responsável pela entrada do futebol holandês no roteiro dos grandes do planeta, o ex-meia acumulou episódios de rebeldia ao longo da sua carreira. Era um jogador problemático e seus dramas eram proporcionais à sua capacidade de vencer partidas.

Os problemas na infância podem explicar em parte o temperamento explosivo de Johan, tão lembrado por sua influência no esporte, seus dribles e claro, as brigas extra-campo. Quando era bem menino, o craque lidou com problemas ortopédicos e usava botas para corrigir a sua formação óssea.

Ainda começando a jogar pelos times juvenis do Ajax, Cruyff perdeu o pai, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Pessoas próximas a ele dizem que a situação forçou o garoto a sustentar a sua casa e isso o tornou um pouco obsessivo com o dinheiro que ganharia como futebolista.

A primeira expulsão pela Holanda

Foto: A Football Archive
Foto: A Football Archive

Em 1966, apenas no seu segundo ano como profissional, já fazia parte da seleção holandesa, que anos mais tarde chegaria ao seu grande momento com o vice-campeonato mundial na Copa de 1974.

A segunda partida de Cruyff pela Oranje reservou um recorde insólito: ele foi o primeiro atleta da Holanda a ser expulso de campo, durante um amistoso contra a Tchecoslováquia. Relatos dão conta de Johan deu um tapa no árbitro. Posteriormente, foi banido por um ano da federação holandesa. Depois disso, a Laranja (Mecânica depois de sua consolidação como líder e capitão) nunca mais perdeu em jogos que ele marcou.

O menino sabia que era diferenciado e usou as suas habilidades para ser alavancado ao sucesso. Pelo Ajax, assinou com 19 anos um dos maiores contratos da Holanda, no valor de 15 mil florins anuais, algo que raramente acontecia no esporte do país. Pois não demorou muito tempo para que Cruyff mostrasse que todo o dinheiro oferecido seria justo para o surgimento de uma lenda.

Na temporada 1964-65, Johan se encontrou com o seu grande mentor: Rinus Michels. Era o nascimento do ‘Futebol Total’, que ganhou força com os repetidos títulos do Ajax dentro da Holanda. Contudo, a Europa só se curvou aos Godenzonen em 1971, na final da Copa dos Campeões contra o Panathinaikos.

A história do número 14

Cruyff 14

O fato de Cruyff ter ficado famoso com o número 14 é uma das provas da personalidade controversa do atleta. Naqueles tempos, em 1969, os jogadores usavam o rígido sistema de 1 a 11 para titulares. Como o meia se lesionou ao fim da temporada e perdeu o lugar no time, o dono da sua camisa 9 passou a ser Gerrie Muhren.

A mudança motivou Cruyff a procurar algo que lhe fizesse único. Como os números maiores eram assimilados para os homens de frente, o 14 surgiu como o ideal para Johan. Daí em diante, a camisa virou um ícone de um jogador que sabia explorar o marketing e ditar moda. Poucos anos depois, o holandês se transformou em um astro. Seu penteado inspirou jovens, suas chuteiras da Puma abriram alas para campanhas das grandes marcas.

Um líder chato

Cada vez mais rico, Cruyff optou em 1971 por ficar no Ajax mais algumas temporadas. O céu era o limite para ele e ai de quem se opusesse. Johan frequentemente gritava com os companheiros, exigindo atenção e boas atuações. Isso fez dele uma figura autoritária dentro do elenco, mais até do que Michels, que tinha outra filosofia de trabalho. Em 1971, o técnico partiu para o Barcelona, enquanto Cruyff era assediado pelo Feyenoord. Depois de duas taças europeias como capitão em 1972 e 73 (sob o comando de Stefan Kovacs), o meia de 25 anos foi para o Barça reencontrar o mestre.

A transferência recorde

Foto: Site oficial Barcelona
Foto: Site oficial Barcelona

De mudança para o Camp Nou, o holandês se transformou sem surpresa alguma no futebolista mais caro do mundo, na época. Depois de ganhar a Europa com o Ajax, Cruyff (que voltou a usar o número 9) desembarcou em Barcelona por $2 milhões, um recorde até então. Venceu a liga espanhola logo de cara, rompendo o domínio do Real Madrid, Atlético e Valencia. Os catalães não eram campeões desde 1960.

É lembrado não só por ter sido o dono do meio-campo de Michels, como por ter marcado um gol inacreditável contra o Atlético de Madrid. Esperando um passe no canto esquerdo da defesa colchonera, Cruyff saltou de forma estranha, alcançou a bola com um salto esquisito e tocou de calcanhar para vencer o goleiro Miguel Reina.

A polêmica entre Puma e Adidas na Copa de 1974

Foto: Puma
Foto: Puma

A Federação da Holanda assinou um acordo com a Adidas para a Copa de 1974, até hoje o momento mais memorável da Oranje no esporte. Como Cruyff era garoto-propaganda da Puma e aparecia em vários panfletos com bolsas, chuteiras e camisas da marca, uma grande manobra foi feita pelo jogador durante o Mundial na Alemanha. Johan se recusou a usar uniformes com as três listras da Adidas.

O que a fabricante fez a respeito? Confeccionou um fardamento especial para o capitão, com apenas duas listras no calção e na camisa. Difícil imaginar alguém fazer algo parecido hoje em dia.

Comigo ninguém pode

Foto: L equipe
Foto: L’Equipe

Como Cruyff fazia tudo o que queria e ninguém ousava contrariar, antes de deixar o Barcelona, em 1978, o craque fez dois jogos com a camisa do Paris Saint-Germain, por ter amizade com o então presidente do clube parisiense, Daniel Hechter.

Na Copa do Mundo, quem esperava ver nova atuação arrebatadora da Holanda de Cruyff, se frustrou: o jogador se recusou a viajar para a Argentina, alegando medo de ser sequestrado pela ditadura de Jorge Rafael Videla. Há quem diga que Johan não foi por desacordo com a Federação holandesa em relação à premiação. Pelo sim e pelo não, sem ele, a Holanda chegou novamente na final. E perdeu.

O destino do atleta, no entanto, acabou sendo os Estados Unidos, onde jogou por Los Angeles Aztecs e Washington Diplomats. Um breve retorno à Espanha lhe colocou no Levante, que pelo menos nas cores, era parecido com o Barcelona.

A passagem durou apenas dez partidas com a camisa da equipe na segunda divisão espanhola. Cruyff entrou em conflito com a diretoria, que não cumpriu com as suas promessas financeiras. O time acabou frustrado e não subiu para a elite local. O holandês aceitou o convite do Ajax e voltou para a sua terra natal. Nesse intervalo, vestiu a camisa do Milan em um mini-torneio no San Siro, em 1981. A história completa é contada pelos amigos do Quattro Tratti neste post.

Foto: Telegraaf
Foto: Telegraaf

No Ajax, viveu novas desavenças com os dirigentes. A ideia inicial era atuar como assistente do técnico Leo Beenhakker, mas o futebol seduziu o ex-capitão dos Godenzonen, que fardou mais uma vez o uniforme do time da capital holandesa. O Ajax venceu as duas temporadas seguintes com a ajuda do seu maior ídolo. Mas ao fim de 1983, dado como velho, Cruyff não teve seu contrato renovado. A decisão do clube irritou o atleta, que assinou com o Feyenoord como forma de retaliação.

A resposta veio em forma de dobradinha com os títulos da liga e da Copa da Holanda. A campanha ajudou outro craque holandês a amadurecer: Ruud Gullit ainda não usava seus habituais dreadlocks e nem o bigode dos anos 1990, mas já mostrava fome de ser o grande jogador do país. Naquele ponto, Cruyff saía de cena para se aposentar, dando lugar à geração que venceu a Eurocopa em 1988. Novamente sob o comando de Rinus Michels, a Laranja Mecânica de Gullit, Van Basten, Rijkaard e Ronald Koeman.

Foto: Taringa
Foto: Taringa

Entre idas e vindas, o gênio indomável treinou novamente o Ajax, assumiu o Barcelona e foi o treinador do lendário ‘Dream Team’ catalão com Koeman, Guardiola, Stoichkov e Laudrup. Quase morreu em 1991 quando sofreu um infarto, resultado de dezenas de cigarros fumados diariamente.

O lado polêmico de Cruyff nunca morreu. Inclusive ganhou mais força quando ele estava do outro lado. Teimoso e romântico, provavelmente nunca aceitou que os seus tempos ficaram para trás. Volta e meia faz declarações controversas na imprensa, o que diminuiu bastante o seu prestígio com a torcida do Barcelona e por consequência do resto do mundo. A dor em não ser mais o centro das atenções deve explicar o complexo de Johan, um craque eterno, apesar de sua rebeldia.

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