Como Paolo Rossi escapou de punição para jogar a Copa de 1982

Muito antes do 7-1, do descontrole de Felipe Melo, do oba oba em Weggis e do apagão de Ronaldo em 1998, o Brasil chorava uma derrota que até hoje ainda dói. Pelos pés de Paolo Rossi, o maior time do Brasil desde 1970 caiu na Espanha e protagonizou a famosa ‘Tragédia do Sarriá’.

Sim, porque até hoje é difícil acreditar que uma desmotivada e conturbada Itália levaria a melhor em Barcelona. Com três empates, a Squadra Azzurra foi credenciada a disputar o triangular das quartas de final. E foi aí que o bicho pegou.

Mesmo com a classificação de um gigante, o mundo se recusava a crer que o fabuloso Brasil de Zico, Sócrates, Falcão, Éder e Serginho perderia a coroa. Em 5 de julho de 1982, um jogo alucinante, Rossi roubou a cena e fez três gols para eliminar a Seleção, que só reagiu com Sócrates e Falcão mas não pôde responder ao terceiro tento do centroavante. Teoricamente, não era para Paolo estar em campo naquele jogo. Nem no torneio.

Totonero

Foto: Kaiser Magazine
Foto: Kaiser Magazine

O futebol italiano foi abalado com o escândalo do Totonero, a grande rede de manipulações de resultados e apostas, em março de 1980. Vários clubes, jogadores e até treinadores importantes sofreram punições. Milan, Lazio (rebaixados para a Serie B) Perugia, Bologna, Napoli e Avellino foram culpados pela Justiça e cumpriram a pena. Rossi foi um dos 20 atletas punidos por envolvimento na trama e precisou ficar afastado dos gramados por um bom tempo.

A pena inicial para o atacante era de três anos. Mas um ato leniente da Federação italiana, em vista da Copa do Mundo, desonerou Paolo de cumprir o ano restante, ao fim de 1981. Mesmo assim, o jogador ficou fora da Eurocopa de 1980, disputada na Itália. Os donos da casa terminaram em quarto lugar.

Livre da sentença antes do tempo, Paolo conseguiu se preparar para o Mundial de 1982, já como jogador da Juventus. Apesar de ter começado no clube turinense, o jovem Rossi passou pelo Como, Vicenza e Perugia antes de retornar a vestir a camisa bianconera.

Não era a primeira experiência do goleador em Copas. Na edição de 1978, atuou ao lado de Roberto Bettega e Franco Causio no ataque da Itália e marcou três gols. Deu quatro assistências e certamente aprendeu com os mais velhos a procurar os melhores espaços e oportunidades na pequena área.

A reputação e a atuação infernal em 1982

Foto: The gentleman ultra
Foto: The gentleman ultra

Dentro da Itália, Paolo Rossi era unanimidade. No seu currículo, artilharias consecutivas na Serie B e na Serie A, ambas pelo Vicenza. Em quatro anos de clube, com 94 aparições, marcou 60 vezes.  Houve quem na imprensa italiana dissesse que ele não estava em forma para jogar a Copa. E pelo menos nos três primeiros jogos, a crítica tinha fundamento.

A Itália cresceu na própria desgraça. Sob os olhares descrentes do resto das seleções, a equipe treinada por Enzo Bearzot emplacou a partir da segunda fase. A Itália bateu a Argentina pela primeira partida do triangular. Marco Tardelli e Antonio Cabrini marcaram. Mas a partida chave daquela campanha foi mesmo contra o Brasil. Um empate daria a classificação para o Brasil às semifinais. Aos italianos, só a vitória interessava.

Com cinco minutos de jogo, Cabrini recebeu um passe na diagonal e cruzou para a área. Rossi correu com liberdade e testou para o fundo das redes de Waldir Peres. Fora da zona de conforto, o Brasil buscou o empate com Sócrates. Insistente, Rossi fez outro, aproveitando uma falha grotesca de Cerezo.

Na segunda etapa, Falcão fez um gol memorável, fruto do trabalho de movimentação de Cerezo e de passe de Júnior. Mas a Itália não queria entregar os pontos. Um escanteio despretensioso cobrado por Bruno Conti foi parar na área do Brasil. Tardelli bateu mascado e achou Rossi, no meio do caminho, para desviar: 3-2 Itália, classificada.

A semifinal contra a Polônia colocou frente a frente uma geração envelhecida dos poloneses e a Itália, antes desacreditada que ganhou moral para arrancar. Rossi fez os dois gols da vitória azzurra, que voltava à decisão da Copa depois de 12 anos. Por sorte, não enfrentaria o melhor time do mundo. Pois o adversário mais temido comeu a poeira de Paolo ainda naquele famigerado triangular.

A final teve o último presente de Rossi para a Itália. A Alemanha simplesmente não se achou em campo e falhou em momentos cruciais. No duelo entre ferozes atacantes, Paolo levou a melhor em cima de Karl-Heinz Rummenigge.

Para ser artilheiro da competição, o juventino abriu o caminho aos 11 da etapa final. Tardelli e Alessandro Altobelli fizeram os gols que resgataram o orgulho italiano e fecharam o caixão da Alemanha na tarde de 11 de julho de 1982. Paul Breitner chegou a diminuir, sem importunar ou ameaçar a festa azul em Madrid.

Festa essa que só foi possível com o poder decisivo de Rossi, o salvador da pátria que veio do limbo para triunfar.

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