Quando o destino derrubou Duckadam, o ‘Herói de Sevilha’

Em Sevilha, na noite de 7 de maio de 1986, o árbitro Michel Vautrot apitou pela última vez aos 120 minutos de um jogo tenso, equilibrado e com tudo para ser histórico. Afinal, no gramado do Sánchez Pizjuán, estavam o Barcelona e o Steaua Bucareste, surpresa romena da temporada.

O placar estava inalterado e insistiu durante tempo normal e prorrogação em não sair do zero. O título da Copa dos Campeões europeus seria decidido nas penalidades. Já que nomes como Victor Piturca, Marius Lacatus, Bernd Schuster e Steve Archibald falharam em decidir com a bola rolando, seria a crueldade dos tiros de onze metros a prova derradeira da edição 1985-86.

Até aquele momento, o Barcelona arrancou para eliminar rivais como Sparta Praga, Porto, Juventus e Gotemburgo. Do outro lado, o azarão romeno havia passado por Vejle, Honvéd, Kuusysi e Anderlecht, nenhum bicho papão nem de longe. A vida do Steaua foi fácil até a decisão. Mas nenhuma história se escreve com pura sorte ou sem nenhum momento de intranquilidade.

Exaustos, os grandes jogadores do confronto iriam para uma etapa que já enterrou outros craques no passado. A marca da cal antes da pequena área era uma cruel assassina de reputações e sonhos. Se o Barça tinha o apoio de sua maciça torcida no estádio em Sevilha, o Steaua só poderia contar com o improvável para sair vencedor.

O sonho desconhecido

Helmuth Duckadam, camisa 1, estava vivendo alguns de seus bons anos depois de pastar por divisões inferiores no seu país. Começou a carreira no Constructorul Arad, em 1977. Ainda defendeu o UTA Arad antes de conquistar a confiança de olheiros do Steaua, rival do Dinamo Bucareste, dominante no cenário romeno. Apenas a entrada de Valentin Ceaucescu (filho do ditador comunista Nicolae Ceausescu) no comando do clube mudou o Steaua de patamar. Mesmo o mais otimista parente de Helmuth esperava que em 7 de maio de 1986, o seu nome seria alçado para a eternidade como um legítimo herói da Copa dos Campeões.

No alto de seus 1,93 de estatura, o grandalhão nascido na cidade de Semlac estava ali na disputa para ser mais um e quem sabe contar com a infelicidade de algum catalão. Tudo parecia estar contra os acanhados visitantes romenos, que nunca tiveram grande motivo para comemorar no futebol mundial. Aquela noite mudaria tudo. Para Duckadam e a Romênia, em especial o Steaua.

Sobre homens e meninos

Dizem que decisões de campeonato costumam separar os homens dos meninos. Heróis são forjados no calor da batalha, assim como os covardes que esquecem tudo o que praticaram e tremem num momento crucial. Duckadam provavelmente não sonhava que seria o nome do título.

Mihail Majearu abriu a série para o Steaua. O camisa 8 correu e bateu seco, para fácil defesa do goleiro do Barça. Urruticoechea. Logo depois, o capitão catalão José Ramón Alexanco partiu para a bola. Ele mirou o canto esquerdo da meta, mas Duckadam saltou e espalmou. 0 a 0 no placar.

Laszlo Boloni era o homem da vez. Segunda rodada de cobranças. Chutou no meio, quase para o lado esquerdo. Urruticoechea acertou a bola em cheio com as palmas e evitou o gol. Foi então o camisa 9 do Barça, Ángel Pedraza para a bola. A ideia era acertar o cantinho esquerdo, rente à trave. O problema é que Duckadam se atirou e com o reflexo, tocou com a ponta das luvas na redonda. Nada feito, ainda 0-0.

Impaciente, a torcida presente em Sevilha pensou que estaria presa em um empate sem gols para todo o sempre. E que nem numa malfadada disputa de pênaltis o destino iria mudar. Foi aí que Marius Lacatus teve sua chance. Os corações já estavam doloridos de tanta agonia quando o romeno mandou um canhão que raspou no travessão antes de entrar. Pichi Alonso tentou a mesma coisa do que Pedraza e acabou no choro quando Duckadam acertou o canto e agarrou a bola numa só tentativa, para deixar o 1-0.

Gavrila Balint tinha em seus pés a chance de ganhar metade da taça. Correu com convicção e colocou a bola de um lado, Urruticoechea do outro, 2-0 para o Steaua. Todo o peso ficou nas costas de Marcos Alonso, o último homem do Barcelona a tentar a sorte. Correu. E com uma passada displicente, telegrafou a cobrança ao bater no canto direito da trave. Duckadam pulou e agarrou, só para jogar a bola ao alto e sair correndo para abraçar Boloni. O Steaua era a partir daquele momento campeão europeu e o goleiro havia pego todas as quatro cobranças dos espanhóis.

O misterioso sumiço de Duckadam

Foto: Bet Shoot
Foto: Bet Shoot

No auge e com apenas 27 anos, Helmuth sofreu um duro golpe. Meses depois, o Herói de Sevilha simplesmente sumiu e parou de jogar. São muitas as versões sobre o que realmente aconteceu e a mais convincente delas é um aneurisma que causou problemas degenerativos ao arqueiro. Assim, seus movimentos que ganharam um título para o Steaua foram severamente afetados.

O que pouco se fala é que na imprensa romena circula outra história que explicaria o desaparecimento do goleiro. O Real Madrid teria presenteado Helmuth com uma Mercedes pelo feito conseguido diante do Barça. Ceausescu, como todo ditador que se preze, queria se apropriar do veículo, mas Duckadam se recusou a perder o mimo. Por ciúme, Nicolae é acusado de quebrar o braço direito do camisa 1. A dúvida é tão grande ao disseminar a lenda, que há divergência entre o fato de Duckadam ter sido agredido ou baleado por Ceausescu. Difícil acreditar nisso sem que ninguém tenha provado, mesmo após a queda do regime autoritário.

Helmuth operou algumas vezes o braço direito, que foi diretamente afetado pelo aneurisma. Sem poder movimentar-se como antigamente, o grande nome do título de 1986 parou no ano de 1991 como atleta do obscuro Vagonul Arad. Sem a fama e nem o dinheiro que lhe eram merecidos pela atuação monstruosa contra o Barcelona em Sevilha.

Chegou a viajar para os Estados Unidos com a família, mas precisou voltar para a sua terra porque foi impedido de adotar uma nova filha em solo americano. O inglório guarda-redes ainda atravessou momentos de pobreza depois de ter sido abandonado pelo governo romeno. Só recuperou um pouco de suas fortunas quando ocupou o cargo de presidente honorário, a partir de 2010.

Um homem sem arrependimentos

Foto: The hard tackle
Foto: The hard tackle

Quem decide que eu devo perder tudo que conquistei? Ninguém pode me tirar aquela noite em Sevilha. Para ter passado por tudo aquilo que vivi, estou pronto para arriscar tudo outra vez. Claro, as pessoas sonham com fortunas, dinheiro, casas grandes e carros. Mas minhas memórias são a minha riqueza e eu me considero um homem sortudo. – Duckadam, sobre o que vivenciou desde a final de Sevilha.

Não há tristeza que permaneça mais forte do que a lembrança de um dia glorioso para Helmuth. Para quem agarrou aqueles quatro pênaltis em uma final europeia, as peças que a vida prega são fichinha. Duckadam é o retrato do herói que não esmorece ante as dificuldades obrigatórias do ciclo humano. E acima de tudo um homem de sorte. Porque não basta ser competente ou bravo para ser herói. É preciso estar na hora certa e no lugar certo para mostrar suas qualidades.

2 pensamentos em “Quando o destino derrubou Duckadam, o ‘Herói de Sevilha’”

  1. Duchadam deve ser para sempre lembrado como um herói.
    Este foi um dia da sua suprema glória. Assim como é Vagner, um goleiro que era alvo de muitas críticas que parou o meu Santos na decisão em 1995 no Pacaembu, apesar da arbitragem contestada de Márcio Rezende de Freitas.

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