O dia em que Tostão quase ficou cego de um olho

Tostão já desfrutava de enorme prestígio no futebol brasileiro em 1969. Afinal, anos antes, fez parte do irresistível Cruzeiro que detonou o Santos de Pelé na final da Taça Brasil de 66. Craque entre vários outros gênios na Raposa, o meia levou uma bolada que quase custou a sua carreira em um jogo contra o Corinthians.

A partida era válida pelo Robertão e foi realizada em 24 de setembro de 1969, no Pacaembu. O Cruzeiro lutava por uma das vagas do grupo A na segunda fase da competição, contra Corinthians e Internacional. Pela quinta rodada, os cruzeirenses visitaram São Paulo para pegar o Timão e sofreram um grande baque.

No placar, 2-0 para os alvinegros, com gols de Suingue e Lima. Para o Cruzeiro, além do lamento pela derrota, um desfalque sério complicou a sequência do time no torneio. Dizem os relatos da época que o zagueiro corintiano Ditão tentou afastar o perigo na grande área e soltou uma bomba para frente. A bola, que foi chutada com extrema força, atingiu o olho esquerdo de Tostão.

O susto

O craque cruzeirense preocupou a todos enquanto saía de campo, ensanguentado. De pronto, teve descolamento de retina e passou meses entre consultas e mais consultas até que fosse encaminhado para uma operação em Houston, nos Estados Unidos. Sem ele, o Cruzeiro conseguiu a desejada vaga para a segunda fase, mas acabou perdendo na classificação final para o Palmeiras, campeão do Robertão daquele ano.

Para Tostão, o efeito prático daquela bomba foi traumático. Por um semestre, o meia esperou as piores notícias sobre a condição de seu olho esquerdo e chegou a ser avisado de que poderia ficar cego. Por consequência, teria de parar de jogar. Apesar da inatividade, era apontado pelo técnico João Saldanha como presença garantida no Mundial do México, em 1970.

O problema é que Saldanha saiu do comando da Seleção para dar lugar a Zagallo e o Velho Lobo não contava tanto com a recuperação imediata de Tostão. O banco foi a primeira opção de Zagallo para o atleta. Só com o passar do tempo, às vésperas da Copa, Tostão provou que estava apto para jogar sem o medo de mais uma parada para corrigir a sua visão.

O retorno a tempo de conquistar o Tri

Foto: Placar
Foto: Placar

Foi em março de 1970 que Tostão deu a primeira cabeçada em uma bola depois do incidente com Ditão. Ainda meio tímido e relutante em brincar com o perigo de um novo problema com o olho lesionado, o craque mineiro terminava ali a sua recuperação. No México, exibiu um futebol compatível com os outros cobras de Zagallo.

Não ficou abaixo de nomes como Pelé, Gérson, Rivellino e Jairzinho. Um dos grandes gols do Brasil na Copa, contra a Inglaterra, saiu dos pés de Tostão, que entortou quatro ingleses (o segundo com um rolinho clássico) antes de tocar para Pelé. O Rei só rolou para Jairzinho, que vinha da direita para afundar o pobre goleiro Gordon Banks. Banks salvou o seu time durante toda a partida com defesas incríveis, mas aquela em especial, decorrente de um momento de pura genialidade de Tostão, jamais poderia fazer.

Contra o Peru, nas quartas de final, Tostão extraiu o que de mais puro havia em seu talento e decidiu o confronto com dois gols, em placar que terminou em 4-2 para a Seleção. Do outro lado, um velho conhecido dos brasileiros: Didi, que se aposentou jogando no futebol peruano e assumiu a seleção local. O ex-volante formou o time mais forte da história daquele país.

O Brasil, como o mundo inteiro está cansado de saber, acabou com a taça e Tostão foi impecável na sua participação. Tamanha gratidão pela sua melhora, o jogador deu a medalha de ouro da Copa ao médico Roberto Abdalla, que lhe operou nos Estados Unidos em outubro de 1969. Poucos acreditaram que Tostão sairia daquela e Abdalla felizmente foi um deles.

Mas a alegria não durou para sempre

Foto: Lancenet
Foto: Lancenet

A história só não termina com final feliz porque Tostão não parou de jogar em 1970, no alto de seus 23 anos. Considerado ‘o outro Rei’ ao lado de Pelé, o atleta ainda defendeu o Cruzeiro por duas temporadas antes de assinar com o Vasco em 1972.

Mas ao fim do primeiro ano com a camisa cruzmaltina, outra má notícia encerraria o seu ciclo no futebol. Uma inflamação na retina operada colocou Tostão em estado de alerta. E desta vez, os médicos não podiam mais esperar um milagre. Caso o meia não tratasse do problema, poderia ficar cego.

Não era hora para mais um drible. Ousar continuar no esporte e correr o risco de ser punido pelo descuido era um crime que Tostão não queria cometer. Aos 26 anos, o craque campeão brasileiro de 66 e campeão mundial com o Brasil em 1970 anunciou a sua despedida. Para o lamento de uma legião de fãs e órfãos de seu fino trato à bola. Ex-Tostão, Eduardo Gonçalves de Andrade terminou os estudos de Medicina e passou a atuar na área, quase sempre assediado por brasileiros gratos pelos seus serviços prestados.

Na década de 1990, seus gols passaram a ser feitos na imprensa. O ex-cobra virou um consagrado colunista e chegou a escrever um livro de memórias sobre sua carreira. Leve adaptação para alguém que nunca conseguiu viver tão distante do futebol. Sorte a nossa.

1 pensamento em “O dia em que Tostão quase ficou cego de um olho”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *