Ecos da modernidade: Juventude e a esperança de dias melhores

O Juventude voou alto no fim dos anos 1990, impulsionado pela parceria com a Parmalat, que também colocava uma grande quantia de dinheiro no Palmeiras. Com a ajuda da empresa italiana, o Papo começou a contar com bons reforços e levantou em 1998 e 1999 as duas taças mais importantes de sua história. Dezesseis anos depois de bater o Botafogo na final da Copa do Brasil, o alviverde de Caxias do Sul está chegando perto de retornar à Série B do Brasileirão.

Para começar a contar a história do Juventude, é preciso voltar a 1913, data de fundação do clube. Conta a lenda que 35 jovens se reuniram para batizar a agremiação com o verde e branco como cores. Nascia ali o Esporte Clube Juventude, que antes de ganhar fama no Rio Grande do Sul, precisou primeiro se consolidar na cidade de Caxias.

Toda cidade merece um time para torcer. Com os caxienses não foi diferente. Seis anos depois da fundação, o Juventude já tinha um estádio, o Quinta dos Pinheiros, conseguido com grande esforço do então presidente Dante Marcucci.

A crescente torcida esperou até 1920 para comemorar o primeiro título, valendo pelo campeonato municipal de Caxias. A vitória foi contra o quase xará Juvenil, por 3-0. Já em 1926, o Ju se sagrava hexacampeão caxiense. Na ocasião, os adversários se dirigiam aos alviverdes como ‘papada’, apelido pejorativo que foi transformado em ‘Papo’ e adotado pela torcida pouco depois.

Demorou pouco mais de 10 anos na elite gaúcha para que o Juventude passasse a brigar efetivamente por títulos. Em um cenário completamente dominado pela dupla GreNal, o Papo foi convidado para fazer parte da primeira divisão estadual em 1954, para que em 1965 tivesse uma grande campanha como vice-campeão. O Grêmio venceu em disputa de pontos corridos.

Em 1974, o Juventude inaugurou o estádio Alfredo Jaconi, sua casa até hoje e que certamente é lembrada pelos grandes jogos dominicais cobertos por neblina nas tardes de Brasileirão. Três anos depois, disputou pela primeira vez a primeira divisão nacional.

A grande fase

A Parmalat fez toda a diferença no crescimento e na consolidação do Juventude como uma equipe de nível nacional. Co-gerido pela empresa italiana a partir de 1993, o time da Serra passou a contar com um elenco mais consistente e competitivo para as disputas da temporada. Pela Série B de 1994, o Papo foi campeão e subiu junto com o Goiás para a primeira divisão, onde ficaria por bons anos.

Naquele time estavam o defensor Sandro Blum, o lateral Paulo Sérgio, o volante Galeano e os meias Dorival Júnior e Lauro, que virou ídolo da torcida nos anos seguintes. Galeano e Sandro, por exemplo, foram emprestados pelo Palmeiras ao Ju, graças à parceria por meio da Parmalat.

O ano de 1994 também foi importante por outro motivo: nova aparição em uma decisão do Gaúcho. Desta vez, o Inter triunfou diante dos caxienses. Em 1996, o Grêmio derrotou o Papo na final do Gauchão, acirrando ainda mais a crescente rivalidade da dupla com o alviverde serrano.

Cafu no Juventude

Foto: Gazeta de Caxias
Foto: Gazeta de Caxias

Cafu é talvez o maior jogador que já tenha atuado com a camisa do modesto Juventude. A história dessa transação, contudo, só durou três jogos. A parceria com a Parmalat e por consequência com o Palmeiras fez com que o lateral voltasse ao país depois de uma passagem pelo Zaragoza, em 1995. O São Paulo, seu ex-clube, incluiu no contrato com os espanhóis uma cláusula que impedia a sua repatriação por algum clube paulista. O Verdão então deu um jeito de driblar o obstáculo e colocou Cafu por poucas partidas no Juventude, até que tivesse condição de apresentá-lo como reforço para a temporada 1995. Os palmeirenses precisaram pagar uma indenização ao Tricolor pela trapaça, anos depois.

Apesar de ser quase sempre um time de meio/parte de baixo da tabela no Nacional, o Juventude conseguiu sonhar em 1997, se classificando para a segunda fase como o oitavo colocado. No entanto, chaveado com Vasco, Flamengo e Portuguesa, o time gaúcho acabou em terceiro no quadrangular semifinal.

Foto: Grandes Gaúchos
Foto: Grandes do Gauchão

Sem se abalar, o Juventude seguiu fazendo seu trabalho e contratando de forma cirúrgica para montar seu elenco. A política deu resultado e em 1998, o clube conquistou de forma invicta o Gauchão, treinado por Lori Sandri e desfilando nomes como Sandro Blum, Capone, Mabília, Lauro, Rodrigo Gral e Sandro Sotilli, temido goleador de times do interior gaúcho. Sandro e Lauro eram remanescentes do elenco que venceu a Série B em 1994.

Na final, uma revanche contra o Inter e vencida com maestria: Flávio, Índio e Lauro marcaram os gols no Jaconi e permitiram que o Papo fosse para a capital com uma enorme vantagem contra o Colorado. Com o placar de 3-1 (Christian havia aberto o placar para o Inter), os comandados de Lori só seguraram um 0-0 no Beira-Rio para fazer uma grande festa.

Desde 1955 (valendo pela edição de 1954) uma equipe além da dupla GreNal não conquistava a taça. O Renner, extinto em 1957 foi o último antes do Juventude a conseguir esta façanha.

A surpreendente máquina do Papo

Foto: Gazeta de Caxias
Foto: Gazeta de Caxias

Nem o mais otimista dos torcedores do Ju esperavam uma vitória como a da Copa do Brasil em 1999. Mas a cada fase, atuações avassaladoras do time de Valmir Louruz encantavam a massa alviverde. Na estreia, contra o Guará, vitória por 5-1. Depois, uma sonora goleada contra o Fluminense, devolvendo o revés por 3-1 no Rio, pela partida de ida. O capitão Flávio estava inspirado e fez quatro gols da partida no Jaconi, que pra variar, estava sob forte neblina. Além dele, Maurílio e Capone também foram às redes, completando um histórico 6-0.

O adversário seguinte pelas oitavas de final foi o Corinthians. Com duas vitórias (2-0 em São Paulo e 1-0 em Caxias), o Juventude continuou remando para a glória. Nas quartas, veio o Bahia, que dificultou o quanto pôde para ser eliminado pelos alviverdes. Dois empates por 2-2 provocaram uma disputa de pênaltis, vencida pelo Ju por 4-1. Pela semifinal, mais uma forra contra o Internacional, algoz no Gauchão de 1994.

Outro massacre contra o Colorado

Se em 1998 as coisas foram difíceis no empate sem gols no Beira-Rio, pelo Estadual, um ano depois o Juventude fez o que pode ser considerada a sua grande atuação naquela época. Após um empate em 0-0 no Jaconi, o Colorado sentiu que poderia ficar com a vaga na decisão do torneio. Cerca de 60 mil torcedores do Inter estiveram nas arquibancadas de seu estádio na noite de 2 de junho de 1999.

Marcos Teixeira abriu o caminho com um gol de sem-pulo ainda na primeira etapa. Quando os times trocaram de campo, nova demonstração de poder por parte dos caxienses: Márcio Mexerica guardou o segundo. Mabília, sozinho e em uma bomba no canto de André, ampliou a tragédia colorada. E para fechar a sublime atuação dos meninos de Louruz, Capone anotou de pênalti: 4-0 para os visitantes, que estavam plenamente credenciados para a decisão.

Os últimos gols da campanha foram marcados no Alfredo Jaconi, diante da torcida alviverde. Um cruzamento vindo da esquerda acha o atacante Fernando Rech, que só completa para as redes, aos 14. Márcio Mexerica aumentou em outro lance de oportunismo. A reação botafoguense veio com Bebeto, aos 41 da primeira etapa, mas não foi suficiente.

Outra vez, o Ju poderia empatar para ficar com a taça. E foi exatamente isso que aconteceu dentro de um Maracanã lotado com 100 mil pessoas em busca de uma redenção botafoguense. Ela nunca veio e o azarão Juventude, que matou gigantes como Flu, Corinthians e Inter, derrubou mais um grande para ficar com o caneco. Não houve gols no domingo de 27 de junho de 1999, mas o torcedor do Papo não se importa. O que vale mesmo é o título, maior conquista da galeria dos alviverdes.

O Juventude aos poucos teve seu enorme brilho apagado. Ainda em 1999, teria sido rebaixado como 19º colocado no Brasileirão, caso o torneio não fosse reformulado para se tornar a Copa João Havelange de 2000. Em 2003, demonstrou grande competência dentro do Jaconi e goleou o Corinthians por 6-1 no Brasileirão. No ano seguinte, uma marca negativa: o Fluminense deu o troco pela goleada na Copa do Brasil e fez 7-1 nos gaúchos, também pelo nacional.

O Ju chegou a disputar a Libertadores de 2000 (eliminado na primeira fase) e a Copa Sul-Americana de 2005 (também caiu em seus primeiros jogos), fez boas campanhas no Brasileirão de 2002 e 2004, mas a falta de investimento e times progressivamente mais frágeis tiraram o status de elite do clube. Nesse intervalo, defensores de renome como Dante, Thiago Silva, Naldo e Antônio Carlos Zago vestiram a camisa alviverde.

Da Série A à D em três anos

Foto: Clic RBS
Foto: Clic RBS

Em 2007, como 18º colocado, o Juventude caiu para a segundona. Desta vez, a queda seria maior e mais traumática: duas temporadas ruins na B custaram caro ao Papo, que foi para a Série C com a 17ª posição na tabela em 2009. O drama aumentou ainda mais em 2010, quando completamente desemparada, a agremiação caxiense despencou para a Série D. Tudo isso em três anos.

O inferno na quarta divisão durou por três temporadas, até que em 2013, o Ju conseguiu o vice-campeonato e o acesso à terceirona. Ainda tentando resgatar o prestígio fora do Rio Grande do Sul, o Papo luta na Série C em busca de outro acesso. Contando com a experiência de Paulo Baier, o time caxiense segura a quarta posição da chave B e terá confronto crucial com a Portuguesa nesta segunda-feira para entrar nas últimas três rodadas com folga na classificação.

Novamente, o torcedor alviverde se vê impelido a sonhar com a bonança, depois de terríveis quedas e visitas ao fundo do poço. Como toda paixão, o Juventude leva sempre os seus fiéis escudeiros ao Jaconi para mais capítulos emocionantes de sua história.

No mês passado, dois jogadores da equipe foram alvos de um atentado por parte de torcedores do Caxias. Maílson e Jô estavam dirigindo em Caxias do Sul quando foram alcançados por outro veículo. O agressor deu um tiro pela janela e só não acertou a dupla pois os bancos estavam inclinados para trás. Os dois clássicos Ca-Ju na Série C terminaram em 0-0.

3 pensamentos em “Ecos da modernidade: Juventude e a esperança de dias melhores”

  1. No jogo de ida no Alfredo Jaconi, o juiz (que se não me engano, por ironia do destino, era Márcio Rezende de Freitas), anulou 2 gols legais do Botafogo no 2o Tempo (ambos marcados pelo Rodrigo Beckham), o jogo terminaria 3×2 e o Botafogo viria pro Rio praticamente campeão. Sim, ainda arde um pouco.

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