Times memoráveis do Brasileirão: 1988, o Bahia de Bobô

Se alguém lhe disser que o  título do Bahia no Brasileirão de 1988 foi uma zebra, não acredite. Aquele time treinado por Evaristo de Macedo chegou muito longe com um futebol consistente e grandes atuações durante a competição. Liderado em campo por Bobô, o Tricolor de Aço voltou a ter grande destaque no cenário nacional.

O Bahia de 1988 conquistou o Brasil como um dos grandes times da temporada, revelando talentos como os meias Bobô, Gil, o volante Paulo Rodrigues e o atacante Charles. A equipe de Evaristo deixou a marca de um elenco que estava focado e preferia jogar bola antes de apontar o próprio favoritismo diante dos concorrentes. Entre vários grandes e elencos recheados de estrela, um humilde Bahia conseguiu seu lugar ao sol.

Para quem vinha sem a pompa e a atenção da imprensa brasileira, o Tricolor foi chegando em silêncio até a briga pela taça. Uma campanha sólida nas primeiras fases permitiu que os baianos chegassem entre os oito classificados para as quartas de final, graças ao Vasco, que liderou duas vezes as suas chaves, no primeiro e no segundo turno, abrindo uma vaga extra. Como o Corinthians foi mal no turno inicial e o Bahia teve maior pontuação na soma geral, Evaristo e seus comandados avançaram no torneio.

Na hora do mata-mata foi que o valor dos tricolores apareceu para quem quisesse ver.

A estreia

Em casa, na Fonte Nova, o Bahia fez seu primeiro jogo no Brasileirão-88 contra o Bangu. O placar foi de 1-1, levando a partida para os pênaltis. (Sim, naquele tempo era esta a fórmula). Renato fez para os mandantes e André Luís empatou na segunda etapa para os cariocas. Nos penais, vitória do Bahia por 6-5.

O primeiro triunfo

Na rodada seguinte, um clássico baiano para apimentar a disputa. Outra vez diante da sua torcida na Fonte Nova, o Bahia passou pelo Vitória com o placar de 1-0, graças a um gol de Bobô,  que entrou na área e bateu na saída do goleiro Borges.

A primeira derrota

A terceira rodada foi o primeiro revés do time de Evaristo na competição. Diante do Fluminense de Romerito no Maracanã, o placar foi de 3-0 para a equipe das Laranjeiras. Edinho, Washington e Rangel fizeram os gols dos donos da casa.

A goleada

Já no segundo turno, pelo grupo B, uma lavada do Bahia em cima do Santos no estádio da Fonte Nova. Apesar da irregularidade nas rodadas anteriores, o Tricolor se recuperou e fez 5-1 no Peixe, que contava com Sócrates em seu último ano de carreira. Zé Carlos abriu o placar aos 14, o Doutor empatou aos 28. Na volta do intervalo, os baianos deslancharam: Charles, Cassio (contra), Marquinhos e Zé Carlos foram às redes para definir o marcador.

O mata-mata

Bahia e Flu na Fonte Nova: recorde de público da Copa União de 1988/Foto: O Globo
Bahia e Flu na Fonte Nova: recorde de público da Copa União de 1988/Foto: O Globo

A dureza do mata-mata ficou evidente no jogo das quartas de final contra o Sport, campeão nacional de 1987 (a polêmica com o Flamengo não vem ao caso). Em Recife, na Ilha do Retiro, empate por 1-1, gols de Nando pelo Leão e Charles pelo Tricolor. Na volta, em Salvador, um 0-0 serviu para o Bahia.

A semifinal previa novo encontro com o Fluminense, algoz no primeiro turno e cheio de moral depois de eliminar o Vasco nas quartas. No Maracanã, placar murcho de 0-0, com boa atuação defensiva do Bahia, neutralizando as forças do ataque do Flu. A decisão foi para a Fonte Nova, já que os baianos tinham campanha superior à do rival.

E aí o tira-teima consagrou Bobô, que fez um dos gols da vitória por 2-1 em Salvador. Lotada com mais de 110 mil pessoas, a Fonte Nova também tinha cerca de 30 mil fanáticos do lado de fora para acompanhar a festa da semifinal. Contudo, as coisas ficaram nebulosas quando Washington abriu o placar na etapa inicial, logo aos dois minutos.

Bobô deixou tudo igual de cabeça e empurrou o Flu para a defesa. Lá na frente, os cariocas perderam boas chances de matar o jogo. Gil colocou os mandantes em vantagem, aos 10 da segunda etapa, com um sem-pulo que ainda desviou na defesa adversária antes de entrar. O goleiro Ricardo Pinto estava fora do gol, tentando tirar a bola dos pés de Charles na linha de fundo. Com a virada, a torcida baiana explodiu em alegria e esperou até o fim para comemorar a presença em uma final. O adversário era o Inter.

O Colorado não teve vida fácil e venceu o ‘GreNal do Século’ com dois gols do centroavante Nilson. O clássico gaúcho foi marcado pela artimanha do técnico Abel Braga, que preservou o contundido Nilson da violência do Grêmio. A ideia de Abelão era colocar um curativo no joelho bom do seu camisa 9. Assim, o brucutu zagueiro Trasante bateu no lugar errado ao longo da partida, sem causar maiores danos. O Grêmio chegou a sair na frente, mas o Inter virou com um gol de cabeça e outro de puro oportunismo de Nilson, o nome da partida.

A estrela de Bobô na final

Foto: Lance
Foto: Lance

Um ano depois, o Inter estava em outra decisão. Em 1987, os gaúchos foram derrotados pelo estelar Flamengo de Zico, Bebeto, Renato Gaúcho e Leonardo. Para 1988, a equipe de Abel parecia preparada para o sucesso. Mas o Bahia estava no caminho e não venderia fácil a taça da Copa União.

O primeiro capítulo da decisão foi em Salvador. Novamente repleto de torcedores tricolores, a Fonte Nova estava em clima de carnaval. No entanto, quem desfilou primeiro foi o Inter, com um gol de Leomir, em desvio de jogada no meio da área do arqueiro Ronaldo.

Aos 36, Bobô recebeu cruzamento e testou firme para vencer Taffarel, empatando em 1 a 1 a partida. Cinco minutos do segundo tempo, baderna na área do Inter, muita gente embolada para ficar com a bola. Enquanto Charles tentava quase em cima da linha dar um toque e marcar, foi o pé de Bobô que venceu a disputa, com cinco colorados ao redor, incluindo Taffarel. A partir daquele momento, um empate em Porto Alegre servia ao Bahia.

Em 19 de fevereiro de 1989, o Brasil parou para ver quem levaria a melhor no desfecho da Copa União de 1988. No Beira-Rio, Inter e Bahia fizeram a queda de braço em 90 minutos dramáticos que coroaram o grande trabalho de Evaristo e um ano impecável de Bobô.

O Inter tentou apelar para o sobrenatural para vencer. Antes do jogo, um dos vestiários do Beira-Rio foi fechado para que um pai de santo gaúcho fizesse um trabalho, pedindo a forças maiores o título para o time da casa. Não deu certo, pois o Bahia também tinha as suas mandingas desde o início.

Para segurar o valente Colorado, o Bahia precisou não só ter foco. O time visitante deixou muito sangue em campo, com Paulo Robson e Paulo Rodrigues, que foram atendidos com ferimentos na cabeça, tamanha intensidade das divididas pelo alto. O arqueiro tricolor Ronaldo salvou a lavoura e fez pelo menos quatro grandes defesas para manter o placar zerado. Na segunda etapa, o Bahia continuou se defendendo de um nervoso Inter que errava na hora do chute final.

O resultado não fez com que o Beira-Rio se acabasse em vaias. Muito pelo contrário. Os merecidos vencedores do Bahia foram aplaudidos pela massa colorada, que reconheceu que ali do outro lado estava um digno campeão brasileiro.

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