Como Laudrup deixou o Barcelona para brilhar no Real Madrid

Sempre que um jogador troca o seu clube pelo rival, a primeira ilação feita é acusá-lo de traição. Afinal, é preciso que se tenha uma boa justificativa para não sair queimado com a torcida que você um dia fez vibrar. No caso do meia dinamarquês Michael Laudrup, que saiu do Barcelona diretamente para o Real Madrid, a motivação foi fazer os madridistas campeões espanhóis em um momento amplamente dominado pelos catalães.

O ano era 1994. Laudrup já tinha a carreira consolidada e não precisava mais provar nada a ninguém. Havia vencido quatro vezes a liga espanhola, uma vez a Liga dos Campeões, uma vez a Copa do Rei, a Serie A italiana e o Mundial Interclubes. Aos 30 anos, ainda tinha alguma lenha para queimar, como grande jogador que era.

Foto: Goal.com
Foto: Goal.com

Uma briga com o técnico Johan Cruyff (que o deixou de fora da final da Champions em 1994, contra o Milan) foi uma das grandes razões para a ida de Laudrup ao Real Madrid, que não vencia o nacional desde 1990. Enquanto o Barça ganhava tudo, não sobrava muito para os merengues.

Cruyff x Laudrup

Como Cruyff acabou se queimando com o danês por ter escolhido Romário, Koeman e Stoichkov como os três estrangeiros permitidos no time titular. Um deles ficaria de fora e foi Laudrup quem perdeu na dança das cadeiras. Grato pelo que viveu com a camisa blaugrana, Michael reconheceu publicamente que era hora de tentar algo novo na carreira, do outro lado da rivalidade espanhola.

A teoria de Laudrup era de que os jogadores sofriam bastante (física e tecnicamente) depois de uma temporada encerrada em Copa do Mundo. A crença do dinamarquês era que o time de Cruyff não repetiria o sucesso de 1993–94, pois vários dos titulares estiveram no Mundial dos Estados Unidos. Por isso, o escandinavo optou por pegar suas malas e se mudar para Madrid.

A vingança por La Manita

OLHA O DIBRE!!!! Foto: Marca
OLHA O DIBRE!!!! Foto: Marca

O meia esteve no épico jogo de 1993–94 quando o Barcelona castigou o Real Madrid fazendo 5–0 no Camp Nou. A partida ficou conhecida como ‘La Manita’ (a mãozinha, em espanhol). Foi enorme a facilidade com que os catalães destruíram a proposta de jogo madridista. Romário anotou três, Koeman e Iglesias fecharam a conta.

Curiosamente, um ano depois, a situação se inverteu. Dentro do Santiago Bernabéu, Laudrup jogou o fino da bola e foi um dos destaques do 5–0 madridista no clássico. Atordoado, o Barcelona mal viu a cor da pelota durante os 90 minutos. Repetindo o feito de Romário em 1994, o chileno Iván Zamorano fez três. Luís Enrique e Amavisca marcaram os outros gols dos mandantes.

A queda do Dream Team

O Real Madrid finalmente saiu da seca e levantou o título espanhol em 1995, iniciando a derrocada do ‘Dream Team’ de Cruyff, que terminou apenas em quarto na tabela. A surpresa daquela temporada foi o vice-campeonato do Deportivo La Coruña de Bebeto.

Laudrup, um legítimo maestro, conseguiu a façanha de ser pentacampeão espanhol jogando por duas equipes diferentes. Havia sido tetra com a camisa do Barça e conquistou o quinto caneco no Real.

Se alguém ainda duvidava do seu valor em 1994, quando ele foi esquecido por Cruyff em detrimento de Romário, Koeman e Stoichkov, 1995 foi uma lição de que nunca se deve duvidar de um craque como Laudrup. O técnico holandês deixou o Camp Nou depois de oito anos e deu lugar ao inglês Bobby Robson.

Michael saiu em 1996 do Real, rumo ao Vissel Kobe do Japão. Em 1997, defendeu o Ajax por uma temporada e se aposentou, depois de uma exuberante participação na Copa de 1998, da França. A Dinamarca durou até as quartas de final, sendo eliminada pelo Brasil. Anos depois, foi eleito pelo jornal ‘Marca’ como o 12º maior jogador da história do clube madridista.

É possível ser ídolo em dois rivais? Laudrup prova que sim. Pois um grande ícone não se faz só com talento e glórias, mas também com uma pitada de caráter.

4 pensamentos em “Como Laudrup deixou o Barcelona para brilhar no Real Madrid”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *