Quando a violência do Estudiantes quase dominou o mundo

Artimanhas. Jogo sujo. Violência. Doutrina psicológica. Medo. Catimba. Essas eram algumas das armas do sagaz e controverso time do Estudiantes que conquistou a América pela segunda vez em 1969. Contudo, o episódio mais grotesco dos platenses aconteceu no Mundial Interclubes contra o Milan, ao fim daquele ano de 69.

A caminhada do Estudiantes para se consolidar no cenário internacional começa em 1967, com o título do Metropolitano. No ano seguinte, os Pincharratas se classificaram para a Libertadores como vice-campeões do nacional, atrás do Independiente, que teve o melhor aproveitamento da história do profissionalismo na Argentina.

Na segunda fase da Libertadores, deixou o Rojo e o Universitario do Peru para trás, conquistando uma vaga nas semifinais. O adversário então foi o Racing, completo oposto do seu estilo, campeão sul-americano de 1967 com um futebol inconfundível. Classificado na raça e pelo saldo de gols diante da Academia, o Estudiantes enfrentou e bateu o Palmeiras de Ademir da Guia na final, levantando o seu primeiro caneco sul-americano. Era o terceiro argentino a chegar lá, depois do Independiente e do próprio Racing.

A marca de Zubeldía

Zubeldía e seus comandados nos vestiários do Estudiantes / Foto: Futebol Portenho
Zubeldía e seus comandados nos vestiários do Estudiantes / Foto: Futebol Portenho

O técnico Osvaldo Zubeldía foi o mentor daquela geração do Estudiantes que aterrorizou o mundo com a sua força excessiva e táticas sujas. Estabeleceu que o time deveria ser o mais objetivo possível para conquistar a vitória. Não como outras equipes vencedoras, o selecionado de Zubeldía era capaz de tudo para derrotar o adversário. Até mesmo usar golpes baixos.

O meia Carlos Bilardo, que anos mais tarde seria o chefe da Argentina campeã mundial em 1986, era um dos mais experientes e fazia o papel de referência na criação, juntamente com Juán Ramón Verón, ‘La Bruja’, pai do meia Verón, que se aposentou recentemente com a camisa pincharrata. Verón pai, aliás, era talentosíssimo e um dos únicos que destoavam da filosofia bruta pregada pelo treinador.

A escolha dos jogadores que fizeram parte daquele elenco tricampeão da Libertadores (1968, 69 e 70) é creditada quase que exclusivamente a Zubeldía, que complementou os seus ensinamentos com a chegada forte de muitos deles, famosos pela truculência no cenário argentino. Aquele grupo era conhecido como ‘la tercera que mata’, por revelar jogadores extremamente vencedores para o futebol profissional.

O trio problema

Foto: Fan del Futbol
Foto: Fan del Futbol

Carlos Bilardo: já veterano jogou seus últimos cinco anos no Estudiantes. Usava alfinetes no calção para espetar adversários durante o jogo.

Ramón Antonio Aguirre Suárez: caneleiro de primeira, tinha reputação de não aliviar em nenhuma dividida e constantemente lesionava oponentes com entradas duras.

Eduardo Luján Manera: lateral que não era flor que se cheire. Bom em matar ofensivas, provou seu valor como briguento diante do Milan, no Intercontinental.

Os caras maus

Foto: Daily Mail
Foto: Daily Mail

Um ano depois de derrotar o Verdão na final, o Estudiantes repetiu a dose contra o Nacional e em 1970, derrubou o Peñarol. Neste intervalo, derrotou o Manchester United no Intercontinental de 1968, deixando uma péssima impressão por causa do seu anti-jogo e conduta que fugia às práticas pregadas pelos europeus.

Nos dois jogos, os adversários trocaram socos, cotoveladas e chutes com os ingleses, que revidaram apenas em seu território, no jogo de volta. Como os argentinos venceram em Buenos Aires por 1-0 e empataram na volta por 1-1, o título veio para La Plata, ainda que manchado pela violência.

Nobby Stiles, Denis Law, George Best e Bobby Charlton foram os grandes alvos do Estudiantes, sofrendo com a maldade alheia. Charlton teve de receber pontos na cabeça por ter sido agredido no jogo da Argentina. Anos antes, em 1966, o técnico inglês Alf Ramsey havia acusado os argentinos de serem ‘animais’, pela violência usada no confronto dos dois países pela Copa do Mundo.

1969: Milanistas se deparam com a face do terror

O Milan foi o segundo a provar da catimba do Estudiantes. Novamente em um clima hostil, o confronto entre os campeões da América e da Europa virou uma guerra. Os italianos tiveram melhor sorte no resultado, mas esportivamente, o resumo foi lamentável.

Em Milão, uma surra dos donos da casa por 3-0 pavimentou o caminho para a conquista intercontinental. O brasileiro naturalizado Angelo Sormani fez dois gols e viu o atacante Nestor Combin fazer o terceiro. Como o saldo de gols poderia decidir o confronto, o Estudiantes precisava de uma goleada para provocar o terceiro jogo.

Guerra campal entre Milanistas e pincharratas/Foto: GloboEsporte.com
Guerra campal entre Milanistas e pincharratas/Foto: GloboEsporte.com

Tudo mudou para o jogo de volta, em La Bombonera. Disposto a intimidar e castigar o Milan por perder na bola, o time do Estudiantes até mostrou capacidade de fazer gols e vencer, mas acabou marcado pela brutalidade dos fatos que envolveram o jogo de 8 de outubro de 1969.

Para começar, o Milan foi recebido com boladas pelos jogadores do Estudiantes, enquanto aqueciam no gramado. Quando saíram do vestiário para entrar em campo, alguns torcedores jogaram café quente na saída, causando queimaduras. A bola então rolou para algo que se assemelhava ao futebol, com momentos de luta livre. Distribuindo pancadas, agulhadas (obra de Bilardo) e soladas, o time argentino fez o possível para lesionar e tirar adversários de campo.

Bem vindos ao inferno

O meia Gianni Rivera, que teve fraca atuação na Itália, fez o primeiro gol ao driblar o arqueiro Alberto Poletti. Em grande desvantagem, o escrete argentino se lançou ao ataque e à pancada para superar o adversário. Relatos do jornal Gazzetta Dello Sport dão conta de que o atacante Pierino Prati caiu inconsciente no gramado após uma chegada firme de Aguirre Suárez. Prati, que ainda levou um pisão, permaneceu por mais 20 minutos atuando até que saiu para dar lugar a Giorgio Rognoni.

Marcos Conigliaro empatou e Aguirre Suárez virou para o Estudiantes, um minuto depois, prestes a acabar o primeiro tempo. Sormani, pelo Milan, também levou algumas cacetadas de Suárez. O temível beque ainda quebraria o nariz de Combin no segundo tempo, com uma cotovelada. O goleiro Poletti resolveu entrar na onda e deu um chute no rosto do atacante, gerando um grande hematoma no olho do rival, que se derramava em sangue ao ser atendido por médicos.

O traidor

Combin, na volta para a Itália. Foto: GloboEsporte.com
Combin, na volta para a Itália. Foto: GloboEsporte.com

Combin virou alvo por dois motivos: 1- Era argentino e se naturalizou francês. Foi acusado de desertar do exército de seu país natal para jogar na Europa. 2- Estava trazendo problemas para a defesa pincharrata, que reagia com raiva. Em tempos como aqueles de ditadura militar na Argentina, era fácil explicar a obsessão pelo patriotismo e a punição aos que abandonaram a nação.

Enquanto era levado de maca para os vestiários, Nestor foi preso pela polícia local, acusado de deserção. Ele mal conseguia se levantar. Passou a noite na cadeia até ser liberado.

A taça da discórdia

Desesperado, o Estudiantes não teve outra escolha se não infernizar a vida dos italianos. Aguirre Suárez só foi expulso depois de agredir Rivera, por uma falta em Echecopar. Manera também foi para o chuveiro por outros atos hostis. Ao fim do jogo, o Milan segurou o placar que lhe favorecia e ficou com a taça, entregue com a ajuda da polícia e amassada pelos argentinos, que tentaram melar a festa dos visitantes.

A Fifa não foi benevolente com os arruaceiros de La Bombonera. O goleiro Poletti cumpriu pena de 30 dias pelos episódios lamentáveis contra o Milan. Manera também foi preso e tomou 20 jogos de punição, combinados com três anos em jogos internacionais. Aguirre Suárez levou 30 partidas de suspensão e cinco anos por competições fora da Argentina. Nenhum deles esteve na final intercontinental de 1970, contra os holandeses do Feyenoord.

Segue o jogo

Poletti ainda defendeu Huracán e Olympiakos até a sua aposentadoria, em 1973.

Manera foi para o Avignon, da França, onde jogou até 1971. Atuou como treinador e assistente (trabalhou com Zubeldía e Bilardo) até 1998. Morreu em 2000, vítima de câncer.

Aguirre Suárez saiu em 1971 da Argentina para defender o Granada. Também passou pelo Salamanca antes de voltar para a sua terra natal e jogar pelo Lanús. Parou em 1977. Foi encontrado morto em sua casa, em 2013.

Bilardo ainda foi campeão da Libertadores em 1970 com os pincharratas. Parou ao fim daquele ano, em decisão contra o Feyenoord no Intercontinental. Se transformou em um dos grandes treinadores da Argentina, seguindo os ensinamentos de Zubeldía. Campeão mundial em 1986 e vice em 1990, é lembrado por ter ‘batizado’ uma garrafa de água que o lateral Branco bebeu (e acabou dopado) nas oitavas de final da Copa da Itália, entre Brasil e Argentina.

*Colaborou Tiago Melo, @melogtiago

1 pensamento em “Quando a violência do Estudiantes quase dominou o mundo”

  1. Essas práticas desleais e agressivas do Estudiantes perduraram por muito tempo ainda, principalmente em competições internacionais.

    na Libertadores de 1983, no jogo entre Grêmio x Estudiantes, em La Plata, jogo que definiria um dos finalistas, o Grêmio chegava com vantagem.

    Trobbiani foi amarelado antes mesmo do jogo começar, e logo em seguida, expulso por chutar um jogador caído (acho que era o China). no intervalo, o Caio sofreu uma fratura na tíbia, agredido por um TORCEDOR.

    Grêmio cedeu ao empate em 3×3 contra 7 jogadores do Estudiantes, e saiu dizendo que a vitória da note era sair vivo da Argentina.

    ainda hoje há o estigma de violento ao time de La Plata, mesmo que por ora eles tenham abandonado as práticas desleais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *