‘Leões de Lisboa’: A história do Celtic campeão europeu de 1967

A Escócia já era um país relevante no futebol e revelava grandes jogadores quando o Celtic chegou na final da Copa dos Campeões da Europa em 1967, contra a Internazionale. Era a primeira vez que os Hoops chegavam tão longe na competição. O único problema é que do outro lado estava a Inter, bicampeã continental em 1964 e 65.

O amplo favoritismo dos italianos foi abatido por uma atuação consistente por parte do Celtic, que foi reconhecido pela coragem na partida. Em virtude da façanha de superar a equipe nerazzurri, os escoceses ficaram lembrados como os ‘Leões de Lisboa’.

Acompanhado por 12 mil torcedores que foram até o estádio Nacional de Lisboa, em Portugal, o time alviverde chegou ao topo da Europa em uma das grandes histórias da Liga dos Campeões.

O legado de Jock Stein

Foto: On Fields of Green
Foto: On Fields of Green

Para que se tenha uma noção do que representou o título dos Hoops, é preciso voltar um pouco no tempo. Dois anos antes, em 1965, o competente técnico Jock Stein chegou ao clube e comandou um número considerável de atletas jovens, formados nas categorias de base do Celtic. Depois de uma passagem pela seleção escocesa, Stein chegou ao cargo e teve enorme sucesso até sua saída, em 1978, para o Leeds United. Em 1985, de volta para a Escócia, ele morreu durante uma partida contra Gales, valendo pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1986.

Jock queria montar um time ofensivo, aproveitando o vigor de cada atleta, disposto a ganhar não só dentro de casa, mas Europa afora. Capaz de doutrinar adversários com jogos psicológicos antes dos confrontos, o treinador acreditava no trabalho em grupo, não no individualismo. Isso explica porque o Celtic de 1967 não tinha um grande nome que pudesse ser marcado com atenção pelos interistas.

Campeões de tudo

Foto: UEFA
Foto: UEFA

Com os ensinamentos do chefe, um verdadeiro visionário, o Celtic varreu a Escócia e venceu a Liga, a Copa da Escócia, a Copa de Glasgow e a Copa da Liga antes de arrancar até a decisão europeia em questão. Em suma: todos os troféus que disputou. A sequência de títulos acabou pelas mãos do Racing, no Mundial Interclubes, em novembro de 1967. Foi a melhor temporada da história do clube, fundado em 1888 pela comunidade irlandesa na Escócia.

Além de serem os primeiros escoceses a conquistar a taça, os Bhoys também representaram a força dos britânicos, que ainda não sabiam o que era dominar a Europa. A proeza abriu caminho para que o Manchester United derrotasse o Benfica em 1968, na mesma Copa dos Campeões, em Wembley.

Como não era exatamente um terreno conhecido pelo Celtic, os jogadores não acreditavam muito que a arrancada iria culminar em uma taça, a mais importante do salão nobre do clube. Muito pelo contrário. Alguns disseram que a Copa dos Campeões seria apenas mais uma aventura. Só com o avanço em cada fase o Celtic ganhou confiança dentro e fora dos vestiários.

Que venha a Europa

O Celtic teve o Zurich como primeiro adversário na campanha 1966–67 da Copa dos Campeões. Com duas vitórias fáceis, os escoceses fizeram 5–0 no agregado. Tommy Gemmell foi o grande nome dos dois jogos, marcando um gol no primeiro e dois no segundo.

O desafio aumentou diante do Nantes, da França, na fase seguinte. Mas com duas vitórias por 3–1, o Celtic embalou de vez. Jimmy Johnstone e Bobby Lennox se destacaram no triunfo ante os franceses.

Pelas quartas de final, o adversário veio da Iugoslávia. A Vojvodina ofereceu alguma resistência em seus domínios, vencendo por 1–0, gol de Milan Stanic. O troco veio em Glasgow, por 2–0. Marcaram Stephen Chalmers e o capitão Billy McNeil.

A semifinal colocou os alviverdes diante do clássico Dukla Praga, em mais confrontos equilibradíssimos. Na Escócia, Willie Wallace roubou a cena e anotou dois tentos. Johnstone fez o outro. Miroslav Strunc fez o de honra dos tchecos, que saíram derrotados por 3–1 do solo escocês. Na volta, um empate sem gols credenciou o Celtic a pegar a temida ‘Grande Inter’ de Helenio Herrera, bicampeã europeia e grande força do futebol italiano.

A intimidação

Helenio Herrera, mestre do catenaccio pela Inter. Foto: Forza Italian Football
Helenio Herrera, mestre do catenaccio pela Inter. Foto: Forza Italian Football

Jock sabia que o caminho para tirar um pouco da confiança e do favoritismo da Inter era apelar para a intimidação. Cheio de si e prometendo agressividade, o comandante dos Bhoys mandou um recado a Herrera dois dias antes da decisão.

Agora eu vou dizer a ele como o Celtic será o primeiro time a trazer a Copa para os britânicos. Mas isso não o ajudará de forma alguma. Vamos atacar como nunca atacamos antes. Estes torneios não são vencidos na base do individualismo. São fruto do esforço coletivo, de um time, de homens que colocam o clube antes de qualquer prestígio pessoal. Sou sortudo de ter jogadores que fazem exatamente isso pelo Celtic.

Com esse panorama, o Celtic partiu para jogar o tudo ou nada contra a Inter, sabendo que tinha muito menos a perder do que os italianos. Em 25 de maio de 1967, a raça escocesa arruinou o catenaccio de Helenio e seus comandados.

A missão quase impossível de Lisboa

Foto: ZeroZero.pt
Foto: ZeroZero.pt

Tudo que Jock havia dito quase foi para as cucuias quando aos sete minutos, um pênalti para a Inter dificultou bastante o já difícil trabalho de superar os nerazzurri. Sandro Mazzola bateu bem e abriu o placar para o lado interista.

Depois disso, o que se viu foi um duelo entre ataque x defesa, onde o Celtic martelou a numerosa retaguarda oponente até conseguir o empate. O paredão interista segurou durante o resto do primeiro tempo e um pedaço do segundo. Para os escoceses, a dureza foi achar espaço em meio à forte retranca armada por Helenio.

Em um lance que se repetiu por várias vezes na etapa complementar, o Celtic forçou um espaço para finalizar. Até que Gemmell recebeu um belo passe no meio da área e afundou o arqueiro Giuliano Sarti, com 63 minutos jogados. 1–1.

A persistência que valeu ouro

A pressão foi mantida até os 84, quando outra ofensiva em menor número do Celtic acabou em gol. Chalmers desviou um chute vindo da esquerda em diagonal e matou Sarti, que nem se tivesse saltado teria tempo para operar uma defesa.

Com a maior parte da torcida a seu favor, incluindo os portugueses que lá estavam para acompanhar o espetáculo, o Celtic rompeu o ferrolho e encontrou forças para virar uma situação que se desenhava para um anticlímax protagonizado pela Inter, provável campeã ao vencer por 1–0 e se defendendo até o fim.

Felizmente para o esporte, o desfecho foi heroico para os escoceses, que fizeram muito mais para merecer a taça. E ainda hoje o Celtic é saudado pela bravura e pela audácia de desafiar a Inter de igual para igual nos 90 minutos de Lisboa, naquele inesquecível 25 de maio de 1967.

2 pensamentos em “‘Leões de Lisboa’: A história do Celtic campeão europeu de 1967”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *