Racing, o primeiro argentino a se tornar campeão mundial

Em 1967, o Racing deu uma arrancada histórica que culminou nos seus primeiros títulos internacionais. Campeão da Libertadores e do Mundial Interclubes, a equipe albiceleste se tornou a primeira da Argentina a conquistar o planeta.

O feito de levar a Libertadores não era novidade para times argentinos. Afinal, em 1964 e 65, o Independiente dominou a América ao passar por Nacional e Peñarol, respectivamente. No entanto, ao encarar a Internazionale, representante europeia, o Rojo perdeu as duas finais. Ali, pela primeira vez, os rivais na decisão intercontinental se repetiram. Bom para os italianos, que dominaram o torneio.

O Racing de Juan José Pizzuti reuniu alguns nomes de respeito no cenário argentino. Um time bem encaixado que arrancou para varrer o país e o continente. Campeão nacional em 1966, ‘El equipo de José’ conseguiu a marca de 39 partidas de invencibilidade. Com esse crachá, chegou para disputar a Libertadores e teve o River Plate como rival na competição.

A base do time de Pizzuti era: Cejas, Perfumo, Chabay, Martin e Basile, Rulli, Cardoso, Cárdenas, Maschio, Rodriguez e Raffo. A proposta objetiva do treinador de chegar ao gol em poucos toques foi aplicada com enorme felicidade pelo elenco. Sabendo envolver com o seu estilo, o Racing passava por cima das mais duras equipes na base do toque e de uma movimentação quase revolucionário de seus jogadores. Dizem os antigos que o Futebol total da Holanda em 1974 foi uma otimização do sistema de Pizzuti.

O perigo rondou a Academia

Curiosamente, uma viagem para Medellín quase destruiu a ambição racinguista. O avião que transportava o time para a Colômbia passou perto de cair e assustou a delegação, que aliviada, prometeu vencer as Copas seguintes para compensar o milagre da sobrevivência.

A irretocável campanha

Retrato do gol de Cardoso na final contra o Nacional. Foto: Site oficial Libertadores
Retrato da final contra o Nacional / Foto: Site oficial Libertadores

O Racing venceu oito de seus dez jogos na primeira fase. Atropelou quase todos os adversários da chave. Nos confrontos com o River, venceu em casa por 2-0 e empatou em 0-0, no Monumental. Aos poucos, os concorrentes foram atropelados pela Academia, em goleadas memoráveis. Em rodadas consecutivas, os albicelestes fizeram 6-0 em Bolívar e 31 de Octubre. Sem falar no 5-2 contra o Independiente de Medellín. Os argentinos sobraram, com 17 pontos para o Racing e 15 para o River. Classificados, ambos avançaram para o quadrangular semifinal.

A coisa encrencou quando os racinguistas foram chaveados ao lado do Universitario, River e Colo-Colo. Com nove pontos, a equipe de Avellaneda empatou com os peruanos, forçando um jogo extra para decidir o finalista. Em Santiago, campo neutro, nova vitória do Racing, por 2-1, levando a vaga. Do outro lado, o Nacional do Uruguai passou por Cruzeiro e Peñarol para jogar a sua segunda final de Libertadores.

Festa em Santiago

Se nos dois primeiros jogos o placar não saiu do zero entre Racing e Nacional, o terceiro e último duelo resolveu e tirou a teima. Em Santiago, a Libertadores foi definida na superioridade técnica da Academia de Pizzuti. Um cruzamento para a área do Bolso encontrou a cabeça de Cardoso, que testou firme para o fundo das redes uruguaias. Raffo, artilheiro do torneio com 13 gols ampliou ainda aos 43 da primeira etapa. Tranquilo, o time argentino administrou a vantagem. Viera chegou a diminuir, mas não foi o bastante para impedir a glória do rival.

Vocês querem uma batalha? Então terão uma batalha

Foto: Golazo Argentino
Foto: Golazo Argentino

O equilíbrio no confronto com o Celtic, treinado pelo lendário Jock Stein foi talvez a grande marca do Mundial Interclubes de 1967. O Racing precisou de três confrontos para erguer a taça, e, sobretudo no último venceu a truculência antes de comemorar. É verdade que os comandados de Pizzuti não precisavam entrar por cima nas jogadas, já que conseguiam estabelecer seu domínio na bola. Mas ao bater de frente com um encardido Celtic, os argentinos conseguiram desestabilizar no psicológico os alviverdes.

A primeira batalha foi marcada para Glasgow e os donos da casa levaram a melhor no Hampden Park, por 1-0, gol de McNeil, de cabeça. Há quem diga na Escócia que grande parte dos 103 mil torcedores presentes era composta por torcedores dos Rangers que apoiavam os rivais. Parece algo pouquíssimo provável, tendo em vista a intolerância entre as torcidas. Tudo indica que é apenas mais uma lenda do esporte. Em todo caso, os mandantes saíram para a Argentina com vantagem no placar, mas com os nervos à flor da pele. Houve algum bate-boca antes do apito final.

Em Avellaneda, Gemmell marcou de pênalti e abriu o caminho para a vitória dos Hoops, mas os racinguistas viraram com tentos de Raffo e Cárdenas, na bola, sem apelar. Quando veio o segundo gol, os escoceses temiam que o clima fosse prejudicial e que episódios de violência manchassem a decisão. Afinal, era ousado demais sair na frente de um sul-americano que jogava em casa com a força de seus torcedores. O receio custou caro ao Celtic, que precisou fazer mais 90 minutos de guerra contra o Racing. E em Montevidéu, a guerra realmente estourou.

O campo não neutro para os argentinos. A presença maciça de uruguaios que queriam ver o Celtic campeão fez com que o Racing jogasse de visitante no seu próprio continente. Ambos tentaram usar o fator do público presente a favor para o embate. As duas equipes entraram com bandeiras uruguaias. De acordo com relatos da época, pela revista ‘El Gráfico’, o povo local escolheu mesmo o verde e branco para apoiar na tarde de 4 de novembro de 1967, em detrimento do Racing.

O pau quebrou

A violência foi a marca registrada do nervoso desempate em Montevidéu. Lennox, do Celtic foi expulso por revidar uma entrada dura em um companheiro e comprar uma briga com Basile, que quase partiu para a violência e também acabou convidado a se retirar. Os dois estiveram a ponto de trocar socos. O árbitro paraguaio Rodolfo Pérez Osorio, com a expulsão, na verdade salvou a pele de Lennox. O ruivo saiu escoltado por guardas antes de levar um sopapo de um transtornado Basile. A polícia entrou às pressas no gramado para impedir um desastre.

O segundo a ir para o chuveiro mais cedo do lado de Jock Stein foi Johnstone, que marcado por Cárdenas desferiu um soco e mandou o rival ao chão, deixando o time com nove em campo. Hughes foi o terceiro expulso, por reclamar da demora do goleiro Cejas para repor a bola em jogo e agredir o camisa 1 racinguista com socos e um pontapé. Completamente destemperado, o escrete escocês entrou em campo intimidado demais e a ponto de explodir.

Mais um sururu começou quando Auld achou desnecessária a agressividade do marcador argentino e partiu para cima dos oponentes, gerando uma tremenda confusão. A tensão não cessou quando aos dez do segundo tempo, Cárdenas mandou um petardo de fora da área e acertou o ângulo de Fallon. Era o gol da final, um grandíssimo gol de “Chango” Cárdenas.

O Celtic seguia tentando responder ao outro lado com socos e jogadas imprudentes. O árbitro nada fazia. De forma equivocada, Osorio puniu Rulli por estar no centro de uma confusão em disputa de bola com Wallace e tirou o mais ativo atleta do Racing da partida, restando quatro minutos para o encerramento. Não fez diferença: os argentinos levantaram o caneco da mesma forma, iniciando enorme festa em solo uruguaio.

Para o Racing, os anos demoraram a passar até uma nova conquista em solo internacional, em 1988, pela Supercopa Libertadores. O adversário foi o Cruzeiro, que perdeu a primeira na Argentina por 2-1 (gols de Fernández e Colombatti) e empatou em casa em 1-1 (Catalán marcou para os visitantes).

Pode até ser que a marca tenha sido obliterada pelo Independiente (com oito taças continentais) e Boca Juniors, que tem seis taças da Libertadores e três do Mundial Interclubes. Mas o pioneiro foi o Racing, que precisou deixar tudo e mais um pouco em campo para sair campeão. Um campeão que teve de jogar a sua bola e sangrar até ser alçado ao hall dos maiores vencedores do nosso futebol.

 

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