O dia em que Branco ‘matou um cara’ na Copa de 1990

20 de junho de 1990. Em Turim, no estádio Delle Alpi, então casa da Juventus, Brasil e Escócia duelavam pela terceira e última rodada do grupo C. Classificada, a Seleção brasileira apenas cumpria tabela contra os adversários.

O placar marcava 0–0 quando aos 37 do primeiro tempo, o lateral Branco cobrou uma falta da intermediária. Diante da barreira e de outros escoceses que cercavam o espaço, o brasileiro encheu o pé e mandou uma bomba. A bola explodiu na cara do meia Murdo MacLeod, que estava entre os homens que tentavam bloquear o chute adversário.

O camisa 10 desabou no gramado e precisou ser atendido ali mesmo. Completamente fora do ar e desorientado, o atleta ainda ficou alguns instantes tentando recuperar os sentidos até que fosse retirado de campo. O Brasil jogou a bola para a lateral como sinal de fair play.

Sem condições de continuar atuando, MacLeod saiu. Foi substituído por Gary Gillespie aos 39. A Escócia foi eliminada com o revés. Não como o imortal escocês Connor MacLeod, o Highlander, o meia acabou falecendo três dias depois, em virtude de uma concussão cerebral, decorrência da forte bolada que levou naquela partida.

No seu funeral, vários ídolos do Celtic e do Borussia Dortmund (seu último clube) compareceram e prestaram condolências, além, claro, dos brasileiros que estiveram naquele duelo em Turim. MacLeod tinha 31 anos e virou um mártir para o seu país. Ficou conhecido como o homem que deu a sua vida pela seleção, mas que teve esforço e sacrifício em vão, já que a Escócia foi eliminada ainda na primeira fase. Mesmo que não tenha morrido ao vivo durante a Copa, Murdo deixou uma marca triste no esporte como vítima de uma fatalidade.

O resto do fatídico Brasil x Escócia

Alemão marca adversário durante a última partida da Seleção na primeira fase de 1990/Foto: UOL
Alemão marca adversário durante a última partida da Seleção na primeira fase de 1990/Foto: UOL

Müller fez o único gol do embate, aos 82 minutos. O Brasil avançou como líder da chave e jogou mais uma vez pelo torneio, sendo derrotado pela Argentina de Maradona por 1–0, gol de Caniggia. O clima fúnebre marcou o pré-clássico com os argentinos e apesar de chutar no gol de Goycochea repetidas vezes, a Seleção de Sebastião Lazaroni ficou pelo caminho.

Branco, por sua vez, chegou a se abalar nos primeiros meses, mas seguiu carreira normalmente, até se aposentar em 1998 pelo Fluminense. Foi campeão do mundo em 1994 e prestou homenagem ao falecido MacLeod na comemoração do título, nos Estados Unidos. Tinha uma ligação eterna com o pobre escocês que deixou de existir a partir daquele acidente.

Empresas britânicas tentaram desenvolver uma espécie de capacete com um material parecido com espuma, para evitar que a tragédia de Murdo se repetisse. Mas a Fifa impediu o processo, alegando que a chance de uma morte semelhante acontecer era remota. O mais célebre jogador a usar uma proteção na cabeça é o goleiro Petr Cech, que sofreu danos no crânio após levar uma joelhada não-intencional de Stephen Hunt, do Reading, em 2006. Hoje o tcheco está no Arsenal.

A verdadeira história de MacLeod

Foto: Scotland Sports Cards
Foto: Scotland Sports Cards

Calma, calma, ficou tudo bem. Seria triste se fosse verdade, mas felizmente, Murdo MacLeod não morreu em junho de 1990. Muito pelo contrário. Defendeu a Escócia por mais um ano e jogou por mais três clubes (Hibernian, Dumbarton e Partick Thistle) até 1996, ano que pendurou as chuteiras.

O futebolista jogou profissionalmente por 21 anos e foi revelado pelo Dumbarton. Passou pelo Celtic de 1978 a 87 e depois seguiu para o Dortmund, onde ficou até 1990. Depois de deixar a vida de atleta, começou a trabalhar como técnico e comandou o Dumbarton e o Partick Thistle até 1997, quando assinou para ser auxiliar de Wim Jansen no Celtic.

O emprego durou um ano e Murdo deixou os Hoops juntamente com Jansen em 1998. Desde então atua como comentarista e colunista de emissoras e jornais na Escócia. Não confundir com o fotógrafo Murdo MacLeod, que faz parte da equipe do jornal Guardian, da Inglaterra.

Em entrevista de 2012 ao jornal Daily Record, MacLeod recorda o incidente com Branco.

É um sonho de criança jogar contra o Brasil, mas a minha história é que não lembro daquilo porque fiquei inconsciente por cerca de cinco minutos. Vamos todos recordar o ocorrido, foi muito especial para mim passar isso para os meus netos. Quando eles cresceram, suas mães lhe contaram que joguei futebol, não é algo que eu tivesse falado muito a respeito.

Branco, por sua vez…

Isso é natural, muito torcedor vem e me fala isso. Tem gente que nem me pergunta, já chega afirmando: ´Você matou um cara uma vez´. Eu falo que não matei ninguém não. Graças a Deus ele não morreu. O cara está bem. Torcedor tem isso às vezes. Mas o cara não morreu. Ele teve algo no cérebro só e precisou sair da partida. Mas eu não matei ninguém, não, está louco? (Branco, em entrevista de 2013 ao UOL Esporte)

Os dois nunca mais se falaram depois da bolada. E fique claro que ninguém morreu ou esteve perto disso, certo?

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