Ecos da modernidade: Guarani e o drama do Brinco de Ouro

O relógio marcava 36 minutos do primeiro tempo no estádio Brinco de Ouro, em Campinas. No gramado, Guarani e Palmeiras duelavam pela supremacia do futebol brasileiro, que teria um campeão inédito naquele inesquecível 13 de agosto de 1978.

Careca desceu pela esquerda em bela reposição de Neneca e ganhou a bola em uma dividida com o zagueiro Beto Fuscão, dentro da área palmeirense. O atacante deu um leve toque e achou Bozó, entrando na diagonal. Bozó chutou e Gilmar deu rebote. Na sobra, Careca se posicionou bem e acertou um arremate rasteiro no canto. Gol do Guarani, que esperou mais 64 minutos e alguns quebrados para se sagrar campeão brasileiro daquele ano.

O início de tudo

Voltamos algumas décadas no tempo, até 1911. Em 1º de abril, doze jovens de Campinas se reuniram para fundar um clube, algo que era comum na cidade naqueles tempos. Aquela agremiação, em especial, viria para ser a força oposta à Ponte Preta, fundada onze anos antes por outro grupo de estudantes.

Entre os jovens distintos que se reuniram naquela data, apenas um tinha mais de 18 anos: Luiz Bertoni, filho de italianos que se estabeleceram no Brasil. Ah, a juventude. Da mente de um garoto de 16 anos, surgiu o nome de um verdadeiro patrimônio campineiro. José Trani sugeriu que o time se chamasse Guarany Foot-Ball Club, homenageando a famosa ópera composta por Carlos Gomes. Os fundadores então decidiram que a data de criação do Guarany seria 2 de abril, para evitar piadas com o fato do 1º de abril ser tradicionalmente o dia da mentira no Brasil.

O derby campineiro ficou pequeno

A Ponte Preta ganhou um rival à altura. Com o passar dos anos, o lado alviverde foi se consolidando na cidade, conquistando títulos dentro da AFC, a Associação de Futebol Campineira. Depois de 68 anos e algumas taças de torneios de menor escalão, campanhas consistentes no Estadual, o Guarani já era uma força no futebol paulista quando deu um passo maior e levantou o caneco do Brasileiro, em cima do Palmeiras. À Ponte, sobraram os vices.

Dono do Brasil

O lendário Guarani de 1978, campeão brasileiro/ Foto: Placar
O lendário Guarani de 1978, campeão brasileiro/ Foto: Placar

O time de Careca, Zenon e Renato era treinado por Carlos Alberto Silva e derrotou clubes como Sport e Vasco da Gama na fase de mata-mata da competição, antes de finais equilibradas com o Verdão. Eis que os bugrinos bateram duas vezes a equipe da capital, por 1–0. Zenon e Careca marcaram para assegurar a conquista.

O bicampeonato bateu na trave

Depois disso, o Bugre levou a Taça de Prata de 1981, a sua última conquista profissional, que deu a vaga ao torneio principal do Brasileirão daquele ano. Em 1986, o time de Evair, Ricardo Rocha e João Paulo chegou novamente até a final do nacional, desta vez perdendo para o São Paulo de Pepe, liderado por ninguém menos que Careca, seu antigo ídolo. A disputa acabou nos pênaltis e o Tricolor venceu por 4–3 após uma partida emocionante no Brinco de Ouro, empatada em 3–3.

Os últimos craques

Evair e Neto, na final estadual de 1988 Foto: ESPN
Evair e Neto, na final estadual de 1988 / Foto: ESPN

Não foram poucos os jogadores de destaque que passaram pelo Guarani. Careca, Edmar, Evair, Ricardo Rocha, João Paulo, Tite, Zenon, Renato (conhecido como Pé Murcho), Neneca, Mauro Silva, Telê Santana, Amoroso, Luizão, Djalminha, Amaral (zagueiro) e Dinei, para começar. Neto, consagrado pela passagem pelo Corinthians, por exemplo, é um dos principais ídolos da torcida. O ex-meia e hoje apresentador da TV Bandeirantes esteve na decisão do Paulista de 1988, perdida para o Timão.

O declínio

Já em 1989, as coisas mudaram um pouco para o clube de Campinas. Rebaixado na Série A, voltou apenas em 1991 para a elite. Em 2004, outra vez foi para a segundona. Chegou a cair para a Série C em 2006. No ano seguinte, ficou no 21º lugar geral, entre 64 concorrentes, bem longe do acesso.

O retorno triunfal foi tomando forma em 2008, com o vice-campeonato da Série C, perdendo para o Atlético Goianiense. Já em 2009, nova promoção, agora na cola do Vasco, campeão da segunda divisão naquela temporada. O sonho de estar na Série A novamente durou apenas um ano. A campanha bugrina foi medíocre e o clube caiu com a 18ª colocação, só ganhando destaque por participar do jogo que decidiu o título do Brasileiro, diante do Fluminense, no Engenhão.

O último brilhareco foi a presença em mais uma final paulista, contra o Santos de Neymar, em 2012. Depois de surpreender a todos eliminando o Palmeiras nas quartas, o Guarani passou pela Ponte em um tenso clássico de Campinas. A festa acabou com duas derrotas significativas: 3–0 na ida e 4–2 na volta, Peixe campeão mais uma vez. O meia Fumagalli, autor de nove gols naquele campeonato, ainda está no clube e é uma das esperanças do elenco.

Assim como a Portuguesa, retratada aqui na semana passada, o Guarani disputa a Série C e a segunda divisão do Paulistão. Na atual temporada, a luta é para pegar uma das quatro vagas do grupo B para a fase final, mas a diferença do Bugre, que é o sexto, para o Juventude, que ocupa a quarta colocação é de seis pontos. Pela A-2 do Paulista, encerrada em maio, um oitavo lugar frustrou a quem esperava uma arrancada para a elite estadual.

A incerteza sobre o Brinco e a crise

Foto: Site oficial Guarani
Foto: Site oficial Guarani

Em meio a tudo isso, o Guarani ainda se encontra afundado em dívidas no valor de R$105 milhões. A sede social foi fechada pois os diretores não tinham dinheiro para pagar funcionários e arcar com custos operacionais. Só o futebol pode salvar o Bugre neste momento. No primeiro semestre, a maioria dos patrocinadores desistiu de parcerias com a equipe, o que aumentou ainda mais o drama da situação.

A solução para a crise poderia ter sido a venda do Brinco de Ouro para a Magnum, que investiria um alto dinheiro no Guarani e herdaria os débitos bugrinos, mas a Justiça barrou os trâmites. O leilão inicial pelo estádio iria amenizar o rombo nos cofres em cerca de R$44 milhões.

Em longo prazo, o plano da Magnum era assumir o valor total que o Guarani deve, injetar R$350 mil mensais por mais de dez anos, além de auxiliar o clube a construir um novo estádio, um CT e nova sede social. Ainda não se sabe o que será feito do terreno do Brinco de Ouro e suas dependências. Porém, com o bloqueio da verba da Magnum, mais incerteza paira sobre o alviverde campineiro.

A Maxion, dona de uma rede de mercados e outros empreendimentos, ofereceu R$105 milhões pelo Brinco, aceitos de pronto pelo Guarani e pela Magnum, em março de 2015. O que impede o fechamento do acordo, contudo, é um embargo contra as partes cedentes.

Espera-se que os credores aceitem os termos propostos para que o imbróglio seja resolvido e o clube possa voltar a respirar e planejar o seu futuro sem medidas drásticas.

À medida que o tempo passa e o embargo continua, o risco de demolição do Brinco cresce, o que seria um total desastre para o Guarani, um campeão brasileiro que não pode mais se dar ao luxo de pensar em voltar a vencer. A prioridade no momento é a sobrevivência.

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