Times memoráveis do Brasileirão: 1995, o Botafogo de Túlio

Parecia que demoraria eras, mas o Botafogo conseguiu vencer um Brasileirão, em 1995, após uma decisão tensa diante do Santos. A última conquista botafoguense aconteceu em 1968, com um grande time que despertou vários sonhos na torcida. Sonhos que atravessaram as décadas até que Túlio surgisse como o salvador, fortalecido por um elenco bem comandado por Paulo Autuori.

A caminhada até a final não foi fácil. O peso dos anos de espera e das fracas campanhas anteriores ainda ecoava em General Severiano. Mas com um trabalho consistente de Autuori, os jogadores se encaixaram ao projeto e mostraram toda a solidez da formação alvinegra.

Em grande fase, o goleiro Wagner segurava as pontas debaixo das traves. Na defesa, Gottardo e Gonçalves faziam uma dupla de ótima qualidade. André Silva e Wilson Goiano começaram apoiando bem nas laterais. No meio, alguns nomes folclóricos como Jamir, Leandro Ávila, Beto (Iranildo) e Sérgio Manoel. Lá na frente, os goleadores Donizete e Túlio, artilheiro da competição.

Foto: O Guia da Cidade
Foto: O Guia da Cidade

Não demorou para que o Botafogo engrenasse. E com a certeza de que Túlio e Donizete resolveriam as coisas lá na frente. O ataque praticamente colocava o Fogão com um gol de vantagem por partida, antes mesmo da saída de bola. Contudo, a primeira fase não foi tão fácil como o fim da história sugere.

A estreia no primeiro turno

O Glorioso foi para Salvador, onde enfrentaria o Vitória na largada do grupo A do Brasileirão. No Barradão, empate em 2-2. Túlio e Jamir marcaram para o Bota, Marcelo Alves (contra) e Nei Santos fizeram para o Leão da Barra.

A primeira vitória

Logo na segunda rodada, contra o Paysandu, o alvinegro mostrou suas garras. Jogando no estádio de Caio Martins, Túlio roubou a cena e emplacou três gols diante do Papão, que diminuiu com Gilmar Francisco.

A primeira derrota

Em Bragança Paulista, pela quarta rodada, o Bragantino venceu o Botafogo no estádio Marcelo Stéfani por 1-0, gol de Kelly, aquele mesmo atacante que teve grande fase no Atlético Paranaense no fim dos anos 1990.

O jogão

Na 10ª rodada da primeira fase, o Botafogo foi até Belo Horizonte para pegar o Cruzeiro de Ênio Andrade. E em um grande jogo de oito gols, perdeu por 5–3. Marcelo Ramos (3x) e o possante Paulinho McLaren (2x) marcaram para a Raposa, Narcizio (2x) e Túlio fizeram os do Alvinegro.

A goleada

Um verdadeiro show de bola encantou o Maracanã na noite de 12 de novembro de 1995, pela 7ª rodada do segundo turno do Brasileirão. O Botafogo amassou o Atlético Mineiro e fez 5–0 no placar, com destaque para os dois gols da dupla Donizete-Túlio e um de Gonçalves.

O primeiro duelo com o Santos

Penúltima rodada do segundo turno. Na Vila Belmiro, o time treinado por Cabralzinho bateu no Botafogo por 3–1 e ainda ficou com a sensação de que poderia ter goleado. Vágner, Giovanni e Jamelli marcaram. Dauri diminuiu para o Glorioso, no fim da etapa complementar.

Os empates na semifinal

Como os dois melhores de cada turno se classificavam para as semifinais, o Botafogo reencontrou o Cruzeiro para uma revanche do 5–3 no Mineirão. Só que em dois jogos, os oponentes não saíram do empate. Em Minas, 1–1, gols de Túlio e Paulinho McLaren, pelo jogo de ida. Wagner salvou vários chutes do ataque cruzeirense e se destacou. Dono de melhor campanha na primeira fase, o Fogão podia empatar novamente se quisesse a vaga na decisão.

No Maracanã, outro empate, agora sem gols. Os times lutaram até o fim por um lance que pudesse tirar o zero do placar, mas a trave impediu o Bota em duas ocasiões e o Cruzeiro em uma. Para o último duelo, os alvinegros de General Severiano teriam o Santos pela frente, em mais jogos de arrepiar.

Promessas cumpridas

Foto: Placar
Foto: Placar

Os papeis se inverteram. O Santos é que podia empatar os dois jogos e ainda assim sair campeão. Contudo, o Brasileirão não se encerraria com o anticlímax de dois jogos com resultados iguais. A emoção tomou conta nos embates entre Fogão e Peixe.

O primeiro deles, no Maracanã, teve mais uma vez a marca do matador falastrão Túlio, que garantia um gol naquela noite. Mas foi Gottardo que abriu o caminho para a vitória. De cabeça, o defensor subiu para completar uma cobrança de escanteio e colocou os cariocas em vantagem. Em um vacilo da saída botafoguense, o Santos roubou a bola e com finalização magistral, Giovanni tocou por cima de Wagner para deixar tudo igual. Como prometido, Túlio aproveitou desvio e a liberdade na pequena área para completar outro escanteio. 2–1, no fim do primeiro tempo. E foi só.

O apito decisivo

Foto: Extra
Foto: Extra

O Pacaembu lotou para ver o último capítulo do Brasileirão de 1995. E o espetáculo não decepcionou. Chances claras de gol, polêmicas, controvérsias e claro, o título, abrilhantaram a tarde de 17 de dezembro daquele ano. E além da derrota, os santistas tiveram muito o que lamentar, já que a arbitragem manchou o segundo jogo da decisão.

Aos 24 do primeiro tempo, depois de alguns momentos mais eletrizantes, Túlio botou nas redes a primeira bola do dia. O atacante estava quase um metro à frente da linha defensiva santista, portanto, impedido. O gol desesperou o Santos, que precisava marcar dois e vencer para sair com a taça. Foi com todas as forças ao ataque.

Ainda na primeira etapa, o Santos massacrava, mas não conseguia vazar Wagner. Giovanni perdeu um gol feito, ao lado da trave, que custou caro no fim. Marcelo Passos, com uma bomba dentro da área, deixou tudo igual. De repente, a virada não era mais um sonho distante para os santistas presentes. O Botafogo, por sua vez, se agarrava ao empate, só se defendendo do bombardeio do rival.

Camanducaia testou para a meta em falta cobrada por Marcelo Passos, mas o juiz anulou o segundo gol do Peixe, de forma equivocada. Dois defensores botafoguenses davam condição para o atacante. O resto da partida foi um doloroso drama em que Wagner foi protagonista, salvando o Bota de levar dois ou três gols e perder a final. Os cariocas também chegaram perto: Donizete chegou com perigo e acertou a trave de Edinho.

Quando Márcio Rezende de Freitas apitou para o fim da partida, a redenção do Glorioso estava completa. E Túlio, com 24 gols, foi consagrado novamente como o goleador de uma competição. Levou a bola para casa e viveu ali o seu último grande momento. Quase 20 anos depois, marcou seu milésimo gol pelo modesto Araxá, longe dos holofotes e da Série A.

O Botafogo quis sonhar com outra taça nacional depois de 1968 e chegou lá, marcando uma geração predestinada ao sucesso.

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