Artime não precisou de 1000 gols para ser um gênio da pequena área

Pelé, Romário e Túlio têm algo em comum: todos eles marcaram 1000 gols na carreira. Viviam do gol e vão morar eternamente na memória do torcedor que se lembra desta tão rara façanha, hoje levada mais como folclore do que exatamente um recorde. Mas a questão é: será que eles foram os únicos a alcançar o milésimo?

Uma lenda em particular se criou em torno de Luis Artime, goleador argentino dos anos 1960 e 70, que teria feito 1000 gols em sua trajetória de 15 temporadas. Nascido em 1938 na cidade de Mendoza, o atacante começou no Atlanta em 1959 e teve grande passagem pelo River Plate, onde se notabilizou no continente. Também marcou seus gols por Real Jaén, da Espanha, Independiente, Palmeiras, Nacional e Fluminense.

Os talentos de ‘La Fiera’ não são tão reconhecidos como deveriam neste século. Afinal, ele teve uma regularidade incrível ao longo de sua carreira e chegou a disputar a Copa do Mundo de 1966, indo ao barbante três vezes em quatro aparições. Era a solução fácil para qualquer time e mostrou isso em todos os clubes que passou. ‘Vendia’ gols e não queria ficar muito tempo no mesmo lugar, correndo assim o risco de entrar em decadência ou perder a sua reputação como matador da pequena área.

Artime nas redes, como costumava ser nas partidas. Foto: Un Caño
Artime nas redes, como costumava ser nas partidas do Independiente. Foto: Un Caño

Tinha enorme apreço por castigar o Boca Juniors, sobretudo no estádio de La Bombonera. No entanto, apesar da artilharia, só conseguiu ser campeão argentino pelo Independiente, em 1967. Foi o principal homem do setor ofensivo no Rojo, treinado por Oswaldo Brandão. Dono de uma reputação impecável como matador, chegou ao Palmeiras em 1968 e logo se encaixou no time que serviria de base para a ‘Segunda Academia’ no Palestra Itália.

O gringo e os gênios da Academia

Artime chegou em julho de 1968 ao Verdão e estreou justamente contra o Independiente, no Parque Antárctica. Marcou duas vezes. Competiu ao longo de um ano com a camisa palmeirense e partiu ao Nacional antes da conquista do Torneio Roberto Gomes de Pedrosa, o Robertão.

Deixou a sua marca 49 vezes em sua temporada no Palmeiras e já se preparava para consolidar o status de ídolo para a torcida, em 57 jogos. No Paulistão de 1969, fez 19 gols e ficou atrás apenas de Pelé na artilharia. O Santos foi campeão estadual.

Um recorde de Artime no Verdão foi obtido diante do Rapid Viena, em um amistoso internacional: o argentino balançou cinco vezes as redes. Ninguém mais marcou tantas vezes em uma partida contra estrangeiros, até hoje.

A saída para o Nacional

Aquele time, treinado por Filpo Núñez, guardaria para história nomes como Emerson Leão, Eurico, Zeca, Luís Pereira (ainda reserva), Dudu, Ademir da Guia, César, figuras que brilharam no bicampeonato brasileiro alviverde em 1972 e 73.

Contudo, a brincadeira acabou quando Artime recebeu uma proposta do Nacional e deixou São Paulo por US$200 mil, uma fortuna para a época. Saiu sem ganhar nenhuma taça, mas deixou uma ótima impressão na torcida e na imprensa brasileira, que o considerava um legítimo fazedor de gols. O cigano que não parava muito tempo no mesmo lugar seguiu a sua jornada até o Uruguai, onde encerraria com estilo a sua vida esportiva.

Campeão de tudo

O Nacional campeão do mundo em 1971/Foto: El Gráfico
O Nacional campeão do mundo em 1971/Foto: El Gráfico

Luis brilhou e conquistou taças pelo Nacional em um período que rompeu o domínio do Peñarol no Uruguai e do Estudiantes na Libertadores. O finalizador deixou 155 gols em três temporadas pelo Bolso. Ainda em 1969, jogou ao lado do goleiro Manga e de base da seleção uruguaia que esteve no Mundial de 1970. Sete jogadores daquele Nacional jogaram o torneio no México: Ancheta, Ubiña, Montero Castillo, Cubilla, Espárrago, Maneiro e Morales.

Foi campeão sul-americano e Intercontinental em 1971, vencendo o Panathinaikos (o Ajax, campeão europeu, não quis disputar os dois jogos). Em grave crise financeira que atravessou 1972, a equipe uruguaia foi forçada a se desfazer de vários atletas.

Restou ao artilheiro voltar ao Brasil para tentar uma empreitada no Fluminense, em 1972, mas a falta de entrosamento com os colegas e o início de uma seca de gols fez com que a estadia nas Laranjeiras fosse a pior fase de sua gloriosa carreira. Acabou novamente no Nacional, onde se aposentou em 1974, aos 36 anos.

Cabe uma curiosidade: de 1962 a 1971, Artime foi artilheiro de nove competições diferentes, incluindo a Libertadores de 71, vencida pelo Bolso, com dez tentos.

A controvérsia

Consta nos registros que Artime tem 289 gols oficiais por clubes e seleção. Não contam os amistosos e nem aquela atuação fantástica contra o Rapid Viena, que ficou marcada no Palmeiras. Não fica claro em momento algum de onde saem os outros 700 e tantos, perdidos nas súmulas de jogos esquecidos mundo afora.

O que se sabe é que Artime sabia como fazer gols, mesmo quando batia errado na bola, como o próprio admitiu várias vezes. E isso ninguém vai mudar.

Em 2007, o ex-atacante sofreu um AVC e hoje está com 76 anos, tentando recuperar por completo os movimentos do corpo. Vive em Mar del Plata com a mulher. Seu filho, Luis Fabian Artime, também foi jogador e é ídolo/maior artilheiro da história do Belgrano.

*Colaborou Tiago Melo, @melogtiago

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *