A lesão que quase tirou Sanfilippo do futebol

Uma entrevista da revista ‘El Grafico’ de maio de 2015 colocou o repórter Diego Borinsky de frente com a lenda do San Lorenzo e da seleção argentina, José ‘Nene’ Sanfilippo. Atacante com enorme capacidade de finalização e maior artilheiro da história do Ciclón, José teve longa carreira no esporte.

Foto: El Grafico
Foto: El Grafico

Nessa entrevista em questão, Sanfilippo recorda um momento triste de sua longa carreira. Nene começou em 1953 e só parou em 1972, com a camisa do Cuervo. Chegou a defender clubes como Boca Juniors, Nacional, Banfield, Bangu e Bahia. A passagem de Sanfilippo pelo time uruguaio, de 1964 a 65, reservou uma lesão gravíssima, com fratura em dois pontos da perna.

E é esse momento em especial que é lembrado por Nene na conversa com Borinsky. Para o craque, a entrada que quase lhe tirou do futebol foi intencional e com motivação definida.

O goleador da América

Nene, em sua apresentação no Boca/Foto: El Grafico
Nene, em sua apresentação no Boca/Foto: El Grafico

Já consolidado no futebol argentino, o atacante chegava ao Nacional como artilheiro da Libertadores de 1963, depois de ter brigado com dirigentes do Boca. O Santos bateu os xeneizes na decisão. Em busca de prestígio, algo que o rival Peñarol tinha de sobra na América, o Bolso contratou Sanfilippo para ajudar o técnico brasileiro Zezé Moreira a alcançar seus objetivos.

Como o Nacional era o detentor do título uruguaio em 1963, a ideia era usar os gols de Sanfilippo para vencer a Libertadores em 1964. Mas a relação ruim entre Zezé e Nene dificultou a sequência do argentino no clube. Depois de uma boa excursão pela Europa, marcada pelas vitórias e gols de Sanfilippo, a torcida só queria saber do craque, o responsável pela boa fase.

Quando o time desembarcou em Montevidéu e saiu às ruas, Zezé não era o mais procurado pela imprensa, e sim Sanfilippo. O que irritou o treinador, enciumado com a situação. Pouco depois, o Nacional enfrentaria o Vasco, ex-clube de Moreira, em um amistoso. Daí em diante, a carreira de Sanfilippo sofreria um sério abalo.

Uma pernada, duas fraturas

Foto: Terceiro Tempo
Foto: Terceiro Tempo

Entre as 100 perguntas feitas pelo repórter da El Grafico, três delas giravam em torno da fratura adquirida neste jogo em questão, contra o Vasco. Sanfilippo conta que Fontana, defensor vascaíno, entrou com maldade em um lance que ele tentava finalizar a jogada. A força foi tanta que o argentino quebrou a tíbia e a fíbula. Ficou por um ano afastado até que se recuperou e saiu em 1966 para o Banfield. A situação foi explicada em detalhes por Nene.

Chegamos em Montevidéu e nos levaram ao Monumento de Artigas, repleto de gente. Naquele momento, o time não ganhava mais por causa de Zezé, era graças a mim. Então, ele começou a ter ciúme daquilo e me colocou em um amistoso contra o Vasco, para enfrentar este tal de Fontana, que era doido para quebrar o Pelé. Fontana deu uma solada antes que eu arrematasse ao gol e me quebrou em dois lugares, a mando de Zezé. Sim, senhor, foi meu técnico que mandou. Ele não me queria, não entende? Nem foi me ver no hospital quando estava me recuperando.

O médico me disse que eu corria risco de amputação, pois a perna já estava gangrenando, não chegava mais sangue lá embaixo. Acontece que o doutor que estava cuidando de mim, do Nacional, saiu para atender 50 jornalistas na porta do quarto e me deixou lá com outro, que era do Peñarol. O filho de uma puta ficou apertando e apertando a minha perna, quase a arranquei fora de tanta dor. (Sanfilippo, sobre a contusão)

Sem a mesma condição física, Sanfilippo se adaptou à situação. Continuou jogando e passou por Banfield, Bangu e Bahia, onde ganhou duas vezes o Campeonato Baiano, em 1970 e 71.

Ainda achou tempo para voltar ao San Lorenzo em 1972 e se aposentou com os títulos de Campeão Argentino e Metropolitano daquela temporada, em boa forma. Parou com 344 gols oficiais na conta, uma marca impressionante.

Hoje em dia, quem quer que lembre de Sanfilippo, deve passar pelo gol no supermercado ou até mesmo pelo toque de calcanhar por cobertura em Antonio Roma. Já Zezé, foi o homem que agrediu com sapatadas o técnico húngaro Gusztav Sebes, após uma lavada dos magiares sobre a Seleção, na Copa de 1954.

Resumos distintos de homens que se opuseram na arte do futebol. Um pregava a defesa e outro era responsável por fazê-la falhar.

*Colaborou Leopoldo Bitencourt, @eifrodo

3 pensamentos em “A lesão que quase tirou Sanfilippo do futebol”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *