Como Mauro Galvão virou o ‘Scirea dos Pampas’

Gaetano Scirea é um dos maiores símbolos da escola italiana de defensores, que obteve grande sucesso dos anos 1960 até o início da década passada. Ídolo na Juventus e com um título mundial pela Itália no currículo, o líbero é lembrado como leal oponente de atacantes habilidosos e por ter passado a carreira inteira sem ser expulso de campo.

Um brasileiro em especial guarda o mesmo respeito da torcida, com iguais qualidades, ainda que sem o recorde de fair play do italiano: Mauro Galvão, com passagens por alguns dos maiores clubes brasileiros, como Internacional, Grêmio, Botafogo e Vasco da Gama. Ainda defendeu o Bangu, que na época contava com enorme investimento do bicheiro Castor de Andrade.

Brilhou na época errada?

Foto: ClicRBS
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Para o lamento de Mauro, a sua melhor fase não coincidiu com a da Seleção Brasileira, entre vários insucessos. É verdade que ainda estava em alto nível em 1994, mas optou por esconder o seu futebol no Lugano, da Suíça, de 1990 a 96. Em 1981, quando começava a se notabilizar pelo Inter, ouviu de Paulo Roberto Falcão, então na Roma, o elogio que mudaria a sua carreira. Depois de um empate com o Grêmio em 0–0, em julho daquele ano, pelo Gauchão, Mauro foi chamado de ‘Scirea dos Pampas’.

No quesito técnico, era difícil encontrar um zagueiro que soubesse sair jogando ou dominasse a bola com classe. Que fosse um destruidor de jogadas alheias, mas que não precisasse usar da violência para tal. Ou mais: que não apelasse para o famoso bicão para o mato. Mauro Galvão foi craque em não se enquadrar na descrição clássica de um zagueiro, naturalmente o cara ruim entre os onze de um time. Dono de um tempo de bola invejável, virou professor de muitos novatos que atuaram ao seu lado.

Tão bom que era, foi diversas vezes explorado como volante. Fazia o perfil do líbero, eternizado por caras como Franz Beckenbauer e Lothar Matthäus. A melhor apresentação que se possa fazer de Mauro é que ele foi o primeiro capitão colorado depois da saída de Falcão para a Roma. E que na década de 1980, que vários outros defensores de nível internacional brilharam na Itália, Galvão certamente teria sido um deles com qualquer camisa que usasse lá.

As mazelas de ser zagueiro

Mais do que um jogador completo, era um líder. Para o seu azar, o seu ofício é visto como lar dos ‘cumpridores’. Pois não há fama alguma em ser zagueiro, muito pelo contrário. É difícil ouvir sobre um beque que tenha sido fantástico, já que a fantasia passa longe da incansável tarefa de barrar os atacantes mais talentosos que existam nos gramados.

Quem leva os louros ou o moto rádio ao fim do dia é o armador, o atacante ou o goleiro que pega um pênalti e faz aquela defesa elástica, jamais o zagueiro, que para o grande e desatento público, não faz mais que a obrigação. E que sirva de agravante a máxima de que o drible é inevitável. Bom mesmo é quem se salva de uma finta mortal e está sempre no lugar certo para dar o bote. Há muito o que aprender vendo Mauro Galvão jogar.

Scirea x Mauro Galvão: a prova final

A ETERNIDADE DE SCIREA: OS GRANDES MOMENTOS DA CARREIRA DO ITALIANO http://tfcorp.net/2014/03/24/isso-e-copa-os-22-minutos-mais-camaroneses-dos-mundiais/
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E bem, para quem era chamado de Scirea dos Pampas, era preciso ter taças para provar a tese de Falcão. De um lado, o italiano levantou quinze. Foram sete scudettos, duas Copas da Itália, uma Copa Uefa, uma Copa dos Campeões, uma Recopa Uefa, uma Supercopa Uefa, um Mundial Interclubes e uma Copa do Mundo.

Mauro Galvão, curiosamente, conquistou os mesmos quinze. Quatro vezes campeão brasileiro e gaúcho, tricampeão carioca, campeão da Copa do Brasil, da Copa América, da Libertadores e da Mercosul.

Falcão estava correto. O Brasil só não tem a mesma estima por Mauro que os italianos tinham com Scirea. Questão de cultura.

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