Ecos da modernidade: a Portuguesa tenta se reerguer na Série C

Não é fácil lidar com o declínio do seu clube do coração. Para muitas torcidas espalhadas pelo Brasil, o esquecimento é uma sentença cruel e inevitável, em tempos cada vez mais desiguais no futebol. Enquanto os gigantes da elite nadam em dinheiro vindo da TV e patrocínios, os times das divisões inferiores precisam encarar na raça as suas dificuldades. O problema é que a raça não costuma ser o único elemento necessário para uma receita saudável.

Para abrir esta nova série da Todo Futebol, falaremos destes times que não desfrutam da atenção da grande mídia e que tentam à sua maneira sobreviver no futebol brasileiro. A primeira é a Portuguesa, vice-campeã brasileira de 1996, três vezes campeã estadual e bicampeã do Rio-São Paulo. Fundada em 1920, a Lusa é fruto do esforço dos imigrantes portugueses que se firmaram em São Paulo.

Cinco sociedades lusitanas deram origem à Associação Portuguesa de Desportos que conhecemos hoje. Quinze anos depois de sua fundação, a Lusa conquistava o Paulistão de 1935, renovando o título em 1936. Na década de 1950, quando as excursões mundiais faziam sucesso entre clubes brasileiros, a equipe levou três vezes (1951, 53 e 54) o prêmio ‘Fita Azul’ pela CBD, por ter passado invicta em suas partidas fora do país. Já em 1973, conquistou seu último Paulistão, dividido com o Santos em virtude de uma grande confusão do árbitro na conta da disputa de pênaltis.

Os craques

Foto: Placar
Foto: Placar

Passaram pelo clube nomes como Enéas (reconhecido como grande craque da história da Portuguesa), Dener, Djalma Santos, Marinho Peres, Julinho Botelho, Luís Pereira, Edu Marangon, Dicá, Claudio Adão, Basílio, Leivinha, Evair, Rodrigo Fabri, Roberto Dinamite, Alex Alves, Capitão (icônico volante do time de 1996), Félix, Alexandre Gallo, entre outros que tiveram momentos notáveis com a camisa lusitana. Não se pode jamais dizer que a Lusa não teve ídolos ou gênios do esporte defendendo as suas cores.

A derrota na final do Brasileirão e o início do calvário

Em 1996, revelando grandes jogadores para o futebol brasileiro, a Portuguesa (ver Zé Roberto, Zé Maria, Rodrigo Fabri, Capitão, Clemer) surpreendeu e ficou em oitavo na primeira fase, pegando uma vaga para o mata-mata do nacional. Chegou até a decisão, contra o Grêmio, e saiu vice-campeã, apesar do agregado ter terminado em 2–2. Os gaúchos tiveram melhor campanha na fase inicial. A presença inédita em um jogo valendo título do Brasileirão encheu a torcida paulista de esperança e de forma alguma o revés por 2–0 em Porto Alegre tirou o brio de um elenco corajoso, treinado por Candinho.

O futebol é cíclico. Nem sempre os mesmos times brigam pelas mesmas taças. Com a Portuguesa, um modesto clube paulista com torcida consideravelmente menor do que a dos quatro grandes locais, não seria diferente. Em 2002, ao lado do Palmeiras, sofreu o primeiro rebaixamento de sua história. Voltou seis anos depois, como terceira colocada, ficando apenas uma temporada na divisão principal.

Disputou a Série B de 2009 a 2011, quando montou o elenco chamado de ‘Barcelusa’, treinado por Jorginho. O futebol era envolvente e o Canindé virou um verdadeiro alçapão. Todavia, mais uma vez, a vida na Série A não foi tão fácil. Em 2012, beirou o rebaixamento e conseguiu arrancar no fim, garantindo a permanência. No ano seguinte, uma controvérsia manchou o futebol brasileiro.

Hevertongate e Série C

Foto: Folha
Foto: Folha

Com Vasco e Fluminense rebaixados no campo em 2013, a Lusa pagou a conta por ter escalado de forma irregular o meia Heverton, contra o Grêmio e perdeu quatro pontos vitais para seguir entre os 20 principais clubes do país. Caiu depois de uma decisão do STJD, que escreveu com letras feias e em linhas tortas uma história mal contada sobre como os cariocas escaparam da Série B por uma aberração técnica cometida por terceiros.

Condenada a disputar a segunda divisão, mesmo com os pontos e a posição suficiente para não cair, a Portuguesa se viu obrigada a contar com um orçamento que equivalia a pouco mais de 10% do que teria direito se ficasse na elite. Tudo isso sem um tempo considerável para a restruturação. A receita para uma tragédia estava preparada. Sem nenhuma surpresa, fez uma campanha fraca que culminou na lanterna da Série B em 2014. E pela primeira vez, a turma do Canindé experimentou uma passagem pela terceirona. No primeiro semestre de 2015, outra queda, no Paulistão, a terceira da história.

O rebaixamento é uma triste realidade para a Portuguesa, as quedas não são mais grandes surpresas. O que restou da honra do clube está sendo disputado rodada a rodada na Série C. Lutando por uma vaga no mata-mata, para tentar uma das quatro vagas para a Série B, a equipe rubro-verde tenta se reerguer de administrações ruins de Manuel da Lupa e Ilídio Lico. O obstáculo maior é a queda de braço interna, que impede um progresso visível para a Lusa como um todo. Poderia ser pior. Afinal, apesar de todo o drama, a torcida segue ao lado do elenco em mais este momento delicado.

O esforço do novo presidente, Jorge Manuel Gonçalves, é de tentar rentabilizar o terreno do Canindé e procurar alguma forma de reformar e modernizar a casa para os próximos anos. Isso é o que vai dizer se a Portuguesa quer se adaptar aos novos tempos ou se ficará estagnada no tempo e nas próprias lembranças.

Entrevista com Flavio Gomes

Flavio e os filhos, no Canindé

Entrevistamos um ilustre torcedor da Portuguesa, o jornalista Flavio Gomes, do Fox Sports e do portal Grande Prêmio, sobre o panorama da equipe. Ele indicou alguns problemas e outras soluções que podem ser aplicadas na realidade lusitana.

Quais são os grandes fatores que podem explicar esta decadência da Lusa?

A mudança do futebol, na verdade. As administrações da Portuguesa não são melhores ou piores que dos outros. A diferença é que o modelo de negócio do futebol mudou. A partir do momento em que verba de TV passou a determinar quem deve ser rico e quem deve ser pobre, os times negligenciados pela TV sucumbiram e não souberam por onde ir, até porque isso coincide com o fim da lei do passe. Vender jogador era uma fonte de renda considerável, deixou de ser.

Até começar essa obscenidade de a TV escolher quem ganha mais e quem ganha menos, os clubes tinham de se virar sozinhos e andar com as próprias pernas. Hoje o Corinthians pode fazer a cagada administrativa que quiser e será socorrido. Outros clubes não têm esse luxo e essa benevolência. É um modelo injusto. Quando Portuguesa e Corinthians, por exemplo, tinham as mesmas chances de fazer um time usando sua receita própria, não a de terceiros, as coisas eram mais equilibradas.

O Corinthians ficou de 54 a 77 sem ganhar nada. Nesse período a Portuguesa ganhou um Paulista e um Rio-SP, por exemplo, cedia jogadores para a seleção, construiu seu estádio em terreno que comprou com seu dinheiro etc. Hoje não dá para competir. Ninguém que enche o rabo de dinheiro está preocupado com isso. Para os “grandes” abastecidos pela TV, se os outros não existirem não tem problema.

Quanto o rebaixamento de 2013 contribuiu para esta nova crise? Foi o estopim?

Foi. A Portuguesa poderia cair de novo, isso está acontecendo com vários times que vão e vêm, mas naquele momento quebrou demais o clube. Havia uma previsão de orçamento de 20 e poucos milhões, e de uma hora para outra caiu para 2 e pouco. Os 20 milhões manteriam o clube sem maiores problemas. 2, não. Aí, sem dinheiro, sem jogador (quem iria ficar na série B?), sem gente minimamente preparada para enfrentar a situação, a queda foi vertiginosa.

Uma coisa é você se preparar para cair. Fazer um campeonato ruim, como o Vasco agora, sabendo que no ano seguinte terá de jogar outro campeonato, com outras necessidades. Outra é ser tirado da Série A menos de um mês antes de começar a temporada seguinte. Depois, a completa falta de apoio por parte da FPF e dos clubes de SP, que tinham de assumir uma posição, deixou a Portuguesa só.

Há uma luz no fim do túnel da Portuguesa, ou só mesmo um milagre pode resolver isso?

No caso da Portuguesa, se o clube conseguir ficar imune às disputas internas, claro que há. A Portuguesa tem patrimônio e tem de usá-lo para gerar receita. A ideia de usar o terreno em parceria com construtoras é ótima. Troca-se o uso e o espaço (onde cabem prédios, clube vertical, hotel, centro de exposições) por um estádio e participação na receita que essas incorporações gerarem.

Além do mais, a Portuguesa tem como usar o fato de ser time de colônia para buscar na própria colônia (padarias, comércio em geral) formas de financiar o clube, com bastante gente dando um pouquinho — como está sendo feito agora com as padarias. A Portuguesa não pode depender da receita do futebol. Precisa ter outras fontes de renda. Outra possibilidade que vejo e que nunca entendi por que não levam adiante é buscar uma parceria com algum dos grandes de Portugal.

Os clubes portugueses hoje detêm expertise na gestão esportiva, são um oásis de excelência nisso. Tem de ir atrás de um desses grandes, oferecer a gestão da base e do futebol, talvez. Um jogador por ano que saia de uma parceria dessa e que possa ser negociado na Europa já seria o bastante para pagar o investimento que Benfica, Porto ou Sporting pudessem fazer aqui.

Associação Portuguesa de Desportos
Fundação: 1920
Títulos: 3x Campeonato Paulista, 2x Torneio Rio-São Paulo, 3x Fita Azul da CBD
Principal craque: Enéas
Onde está: Série C do Campeonato Brasileiro e A-2 do Campeonato Paulista

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