Quando Jorge Mendonça mandou Zico para o banco da Seleção

Quase tudo que envolve a Copa de 1978 tem tom trágico para o torcedor brasileiro. Afinal, o contestado escrete de Cláudio Coutinho só conseguiu apresentar um futebol convincente na segunda fase, quando foi eliminado em uma circunstância estranhíssima no quadrangular semifinal.

Entre os pontos positivos daquele Mundial, vencido pela Argentina, está a presença de Jorge Mendonça, um dos craques mais venerados pelo futebol, que acabou tendo rápido declínio nos anos 1980. O então ídolo do Palmeiras ganhou uma vaga nos onze iniciais a partir do duelo contra a Áustria, roubando a posição de Zico, que era o titular absoluto.

O contexto do drama brasileiro

Edinho, contra a Espanha Foto: Placar
Edinho, contra a Espanha/Foto: Placar

Em um grupo teoricamente fácil ao lado de Suécia, Áustria e Espanha, o Brasil lutava para recuperar o prestígio internacional, depois de uma campanha decepcionante em 1974. Na Argentina, pouco sobrou da geração do Tri: apenas Leão (terceiro goleiro em 70 e titular em 78) e Rivellino mantinham o elo com a tão fascinante Seleção que venceu no México.

Coutinho, que era criticado por ter transformado o futebol da equipe em algo burocrático e pouco vistoso, foi massacrado pela crítica na largada do Mundial. Diante da Suécia, um 1–1 horroroso, com a ressalva de que o árbitro não marcou um gol de Zico no último minuto, alegando que apitou para o fim da partida com a bola viajando para a área sueca. Contra a Espanha, na segunda rodada, um empate em 0–0, que praticamente forçou o Brasil a bater a Áustria para continuar sonhando com o tetra.

O time titular

Até o jogo contra os espanhóis, Coutinho levou Leão, Oscar, Edinho, Toninho, Nelinho, Amaral, Cerezo, Batista, Dirceuzinho, Zico e Reinaldo. Para enfrentar a Áustria, o treinador precisava mexer para fugir do tédio e da eliminação precoce.

Os austríacos deram muito espaço

Para corrigir uma injustiça, que era deixar Mendonça apenas como reserva e atuando poucos minutos, Coutinho sacou Nelinho, Edinho, Zico e Reinaldo para promover a entrada de Rodrigues Neto, Gil (atacante), Jorge Mendonça e Roberto Dinamite. A aposta vingou: o Brasil melhorou consideravelmente e conseguiu vencer, com gol de Dinamite, aos 40 da primeira etapa. Gil, aliás, foi o responsável pelo precioso cruzamento para a finalização do vascaíno, no ângulo do arqueiro Koncilia.

O coringa da camisa 18

Foto: LANCE
Foto: LANCE

Confiante, Mendonça fez com que o mundo todo se perguntasse quem era aquele camisa 18 que desequilibrou com dribles e jogadas desconcertantes. Mudou totalmente o espírito da equipe e deu um ânimo essencial para a arrancada brasileira na competição. Esteve em campo por 84 minutos e infernizou a vida dos austríacos em todas as chances que teve. Com Jorge, o Brasil ganhou velocidade e a eletricidade que o Mundial pedia.

Novo show de Mendonça contra o Peru

O Brasil não podia cometer mais erros no quadrangular semifinal. Contra Argentina, Itália e Polônia, era hora de ganhar para assegurar a presença na final. Do outro lado, Alemanha, Holanda, Itália e Áustria lutavam pelo posto na decisão.

Leão, Oscar, Amaral, Toninho, Rodrigues Neto, Cerezo, Batista, Dirceuzinho, Mendonça, Gil e Dinamite foram os onze escolhidos para a estreia na segunda fase, contra o Peru. O Brasil meteu 3–0, com dois gols de Dirceu (uma falta maravilhosa no ângulo de Quiroga) e um de Zico, de pênalti, na segunda etapa. Zico, aliás, entrou só no segundo tempo, na vaga de Gil.

Neste confronto em especial, Mendonça mostrou grande forma. Fez a bola grudar no seu pé, criou as chances que o time precisou e ganhou ainda mais respeito por isso. Afinal, para quem vinha do nada como ele, era fácil causar impacto e surpreender o grande público. Não que os brasileiros não soubessem que se tratava de um craque. Era só questão de mostrar ao resto do planeta do que Jorge era capaz.

Mendonça até o fim

Contra a Argentina, o Brasil fez um grande jogo, mas empatou em 0–0. Mendonça novamente deixou Zico a ver navios do banco de reservas. A frustração por não ter vencido um confronto bruto contra os donos da casa mexeu com o brio de Coutinho. O Brasil tornou a mudar contra a Polônia, quando o Galinho voltou ao time titular, mas ficou apenas sete minutos em campo antes de sair lesionado. Mendonça foi chamado.

Endiabrado, o insinuante número 18 ganhou a bola de um polonês e ia carregando para dentro da área, quando sofreu falta. Nelinho bateu com violência no canto superior direito, para abrir o marcador. O placar terminou em 3–1 para o Brasil, com destaque para Dinamite, que anotou os outros dois.

Campeões morais

O Brasil acabou eliminado do torneio, no saldo de gols. A Argentina venceu o Peru e desempatou a briga, após uma estranha goleada por 6–0, até hoje apontada como marmelada. Na final, Kempes e os companheiros fizeram 3–1 na Holanda e ficaram com a taça, a primeira na sua história. Coutinho e seus jogadores adotaram o discurso de que o time foi brilhante e o campeão moral daquela Copa, mesmo com o terceiro lugar. No último jogo, vitória de 2-1 contra a Itália, lembrança daquele gol fantástico de Nelinho em chute venenoso com curva. O outro, de Dirceu, contou com assistência de Mendonça, que matou no peito e deixou para o colega mandar a bomba.

Morre o homem, fica a fama

Foto: Placar
Foto: Placar

Mendonça não jogou outro Mundial. Ficou até 1980 no Palmeiras, entre brigas e desentendimentos com Telê Santana. Rodou o Brasil e teve seu último brilho no Guarani, em 1981, quando foi o artilheiro do Paulistão, anotando 38 gols. Poderia até ter sido lembrado na lista dos convocados para o Mundial de 1982, mas quem mandava na ocasião era o mesmo Telê que lhe acusara de ser indisciplinado, nos tempos de Palmeiras.

Jorge se aposentou em 1991, pelo Paulista de Jundiaí. Anos depois, passou a viver na miséria, com a separação de sua mulher, que lhe custou os bens e o convívio dos três filhos. Deprimido, se entregou ao álcool e caiu no esquecimento, até morrer em 2006, com 51 anos. Para quem tabelou com Ademir da Guia em 1976 e deixou Zico no banco em 1978, Jorge Mendonça teve um fim trágico, como centenas de outros craques que não levam nada do futebol além das memórias.

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