Mancuso, o valentão incompreendido

Era preciso ser viril para triunfar na posição de volante nos anos 1990. Aquela década não costumava exigir grande qualidade de atletas da posição, o que fazia com que grandes brucutus se consolidassem no futebol à base dos pontapés, chutões e da marcação incansável. Tivemos inúmeros jogadores pouco técnicos que ganharam espaço em times grandes brasileiros. Um deles é Alejandro Mancuso, argentino que foi revelado no Ferro Carril, com passagens por Vélez Sarsfield e Boca Juniors.

A carreira de Mancuso começou promissora. Na Argentina, se notabilizou pelos bons lançamentos e pela boa saída de bola. Quando tinha oportunidade, abusava da vontade e acabava entrando de forma violenta nas divididas. Bom nos chutes de longa distância e nas cobranças de falta, Alejandro era o coringa que vinha de trás para apoiar o ataque nas descidas.

Como homem em ação ofensiva, mostrava uma faceta interessante: com espaço, armava para a perna esquerda e mandava canhões ao gol adversário. Na marcação, fazia de tudo para levar a bola. Em muitas vezes, chegava por baixo e com toda a força para impedir o progresso do atacante. Detestava ser driblado.

Mas os argentinos achavam uma qualidade invejável o fato de Mancuso ser por demais bruto. A reputação implícita em cada carrinho, tesoura ou jogo de corpo fez com que Alejandro fosse para o Vélez. Apareceu ainda mais no Boca, indo parar na seleção argentina na Copa de 1994. Contudo, foi pintado como traidor por vários torcedores: quando jogava no Ferro, saía dos treinos para os jogos do Vélez, clube pelo qual torcia. Anos mais tarde, deixou os fortineros para assinar com o Boca. Até hoje é visto como vira-casaca.

Hola, Palmeiras

Foto: Trivela
Foto: Trivela

Mancuso deixou o Boca para assinar com o Palmeiras, em 1995. O Verdão vinha de um bicampeonato paulista e nacional. César Sampaio deixava a vaga aberta na posição, assim como Evair, no ataque. A dupla foi para o futebol japonês.

A Parmalat então trouxe dois gringos: o argentino e o ponta colombiano Tréllez, campeão da Libertadores em 1989 pelo Atlético Nacional. No entanto, Tréllez não conseguiu ter a documentação regularizada e acabou cedido ao Juventude, que também era patrocinado e ‘gerido’ pela leiteria italiana. Ficou só Mancuso, que é lembrado pelos torcedores pelo seu jeito rústico.

Os clássicos contra o Grêmio

Eis que Mancuso, uma versão menos galanteadora e mais aguerrida de ‘Pedro, o Escamoso’, ganhou a torcida palmeirense. Vestiu a camisa 5 no ano em que defendeu o Verdão, mas curiosamente passou em branco, perdendo a Libertadores para o Grêmio, nas quartas; o Paulista para o Corinthians na final e o Brasileiro, ainda na primeira fase.

Os duelos contra o Grêmio, aliás, foram históricos. No primeiro, o Tricolor gaúcho fez 5–0. Pela volta, o alviverde reagiu e chegou a fazer 5–1, mas foi eliminado. No primeiro tempo da selvagem partida de Porto Alegre, Rivaldo foi expulso por deixar o pé em Rivarola. Válber agrediu Dinho e tirou sangue do camisa 5 tricolor. Minutos depois, os dois se reencontraram, expulsos, e trocaram socos. Ainda no primeiro tempo, já perdendo e com nove em campo, o Palmeiras se enervou: Mancuso acertou um soco em Carlos Miguel.

Em São Paulo, Mancuso fez o quarto gol palmeirense, de pênalti. Não houve a mesma confusão do confronto anterior e em paz, o Palmeiras meteu 5–1, ficando por apenas um de levar para os pênaltis. Forte, o Grêmio se segurou no Palestra Itália e foi para as semifinais. Depois, acabou campeão em cima do Atlético Nacional.

Títulos no Flamengo e a decadência inevitável

O volante brigou com dirigentes palmeirenses e assinou com o Flamengo para 1996, conquistando o Carioca daquele ano. Marcou alguns gols com a marca registrada do seu canhão de perna esquerda. A torcida flamenguista também aprendeu a gostar do gringo pelas suas faltas inapeláveis e a aptidão para ser xerife. Muitas vezes deixava o posto para atuar como uma espécie de homem de frente da Tropa de Choque, o que fez a sua fama de valentão. A Revista Placar elegeu Mancuso como o mais violento do Brasil em 1996, superando até mesmo Júnior Baiano, notório caneleiro.

Alejandro se defendia das acusações, dizendo que os brasileiros não tinham tolerância com gringos. Antes, apontava que as suas expulsões aconteciam quase sempre por discussões com árbitros, não pela força excessiva. Até mesmo porque, não sabia dar carrinhos. Preferia desarmar de frente quem vinha. Não queria ser lembrado como trombador, carniceiro, algo que o gremista Dinho encarava com orgulho.

Foto: Diário de Pernambuco
Foto: Diário de Pernambuco

Uma nova briga com cartolas tirou Mancuso do Fla. O argentino foi negociado e ficou no Independiente. Veterano, ainda defendeu o obscuro Badajoz da Espanha, até desembarcar no Santa Cruz, em 1999. Mancuso se dizia discriminado por ser estrangeiro em um futebol tão bairrista como o brasileiro. As suas brigas deixam certa dúvida em relação a essa acusação.

Em todo caso, a passagem pelo Santa lhe rendeu o status de ídolo. Mais calmo e experiente, o atleta estava em boa fase, mas acabou deixando o clube por atrasos salariais. Se aposentou jogando no Bella Vista, do Uruguai, um ano depois.

A rixa com Maradona

Foto: Fifa
Foto: Fifa

Por anos, andou ao lado de Maradona como auxiliar do gênio, que era treinador da Argentina. Até 2011, eram amigos, mas pararam de se falar depois de declarações polêmicas de Alejandro, que acusou Diego de ‘perder a memória por causa das drogas’. Mês passado, Maradona processou Mancuso por falsificar sua assinatura para assinar contratos de publicidade com o nome do meia.

Ele, que cansou de punir oponentes por dribles em campo, foi condenado por tentar aplicar um em Maradona. E desta vez, seria um sonho levar apenas cartão vermelho, ao invés de ter problemas com a justiça.

Mancuso vive com a fama de brucutu, cultivada ao longo da década de 1990 no Brasil. Se queimou com os argentinos e com o maior ídolo deles, atuando em partidas de masters quase como um renegado pelo seu povo. Ossos do ofício. Nem todo jogador consegue transformar a carreira em uma peça heróica de sobrevivência ou glórias.

Alejandro passou pelo esporte e foi encarregado das tarefas mais sujas, o que impediu o seu reconhecimento por meio do talento ou de grandes atuações em títulos. No seu currículo, consta uma Copa América, um Torneo Clausura com o Vélez, um Carioca e um Mundialito pelo Flamengo e uma Copa Ouro pelo Boca. É pouco ou faz justiça ao que ele representava em campo?

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