A lenda de Aladim, um fora de série que não queria ser ídolo

Aladim Luciano ganhou em 1966 o primeiro e mais marcante título de sua carreira. Diante do Flamengo, em um Maracanã lotado, o ponta-esquerda do Bangu entrou para a história do esporte. Parou em 1985, jogando pelo Coritiba, equipe que o acolheu em momentos ruins. Antes disso, construiu uma história de genialidade e discrição.

É normal ver um jogador em decadência após a vida no esporte. Muitos não conseguem lucrar e administrar tudo que ganharam com a bola nos pés e vivem tempos de miséria depois que o corpo e os dribles não servem mais para o futebol profissional. Aladim viveu a fama, a badalação e a desgraça de não conseguir repetir boas atuações em determinados momentos.

O menino de Barra Mansa largou os estudos no Rio de Janeiro para jogar no Bangu, ainda menor de idade. Aos 20 anos, em 1966, roubou a vaga de Zé Carlos como titular e mostrou que foi bom ter abandonado todos os prospectos de ser um homem normal, alguém que viveria de forma segura até a aposentadoria, com uma família e um rosto comum, irreconhecível no centro da cidade.

Para Aladim, o estrelato foi prejudicial no início e apesar de ter sido extremamente talentoso, jamais foi ídolo ou quis entrar na pilha de astros como Garrincha, Jairzinho, Zagallo ou Gérson. Muito pelo contrário. Aladim queria ser o craque invisível.

Muitos de seus colegas elogiavam o fato dele ser fora de série, capaz de colocar no bolso os mais perigosos beques e volantes truculentos da época. Em tempos de jogadores famosos pelo incontestáveldom de praticar futebol, o atacante foi mais um a ganhar os noticiários, contra a sua vontade. Todos queriam saber mais do tímido ponta-esquerda, ícone do Bangu que calou o Flamengo e grande parte do Maracanã (150 mil pessoas) na final do Carioca de 1966.

Massacre no Maracanã

Aquela decisão é lembrada também pela enorme briga protagonizada por Almir Pernambuquinho, o sujeito com o sangue mais quente que o futebol nacional já teve notícia. À parte da pancadaria, o Bangu venceu por 3–0, gols de Ocimar, Aladim e Paulo Borges. Jogando um futebol estupendo, a equipe de Moça Bonita triturou um desfalcado Fla, que atuava abaixo da média, da crítica e do seu rendimento habitual. Em contragolpes ligeiros e passes objetivos, os alvirrubros de Castor de Andrade colocaram o rubro-negro na roda.

Para a irritação de Almir, que jurou violência em caso de vitória banguense, o placar marcava 3 a 0 naquela noite de 18 de dezembro de 1966, quando um punhado de braços e pernas começaram a ser trocadas por atletas, comissão técnica e policiais. O juiz encerrou a partida antes do previsto, graças ao tumulto. E tudo começou com Ladeira, do Bangu, que agrediu Paulo Henrique. A cobra fumou e ninguém mais era de ninguém dentro de campo. Era porrada para Cassius Clay nenhum botar defeito.

O Castor era ótimo, arrumava dinheiro pra todo mundo. Só que eu não era puxa-saco, e, além disso, ele tinha os seus favoritos, os caras da badalação. Eu era um capiau, só fui a Copacabana algumas vezes. Um dia quiseram que eu experimentasse drogas, nunca mais voltei lá. (Aladim, sobre a passagem pelo Bangu)

A vida após o Bangu

Aladim continuou jogando a sua boa pelota até ser contratado pelo Corinthians, em 1970. Ficou por três anos no Parque São Jorge, oscilando entre bons e péssimos momentos. Apavorado pela cobrança da torcida por novos títulos (o clube só sairia da seca em 1977), o carioca não teve muitos motivos para sorrir em São Paulo. Perdeu o pai, em 1971, logo após uma partida contra o Flamengo. Tinha marcado o gol da vitória corintiana.

O Coxa de 1973. Aladim é o último agachado da direita. Foto: História do Coritiba
O Coxa de 1973. Aladim é o último agachado da direita. Foto: História do Coritiba

Foi negociado com o Coritiba em 1973 e até resgatou os bons tempos, com boas atuações pelo Coxa. Conquistou cinco vezes o Paranaense e inclusive vestiu a camisa do Atlético em 1978, ano em que foi vice-campeão estadual. No Paraná, também defendeu o Colorado, de 1981 a 1983. Voltou ao Coxa e se aposentou em 1985.

Com a camisa alviverde, viveu bons momentos e foi um dos protagonistas nas campanhas de 1979 e 1980 do Brasileirão, que acabaram nas semifinais com derrotas para Vasco e Flamengo, respectivamente. No momento em que o Coxa foi mais longe no Brasileirão, Aladim estava aposentado há quatro meses e não disputou a final contra o seu velho Bangu, no mesmo Maracanã que calou 19 anos antes.

Entrevistado na véspera da decisão de 1985, Aladim aplicou outro drible na imprensa. Confessou seu amor pelo Coritiba, após longos anos com a camisa do time do Alto da Glória. O Bangu? Tinha Castor de Andrade e força suficientes para vencer se quisesse. Mas nos penais, Ado chutou para fora e o título escapou. O Coxa levantou a taça, a primeira e única da sua história.

Aladim pode não ter sido o gênio que se esperava, aquele ponta monstruoso que era capaz de destruir defesas e zagueiros. Não se sujeitou a ser vítima da própria fama e por isso acabou caindo no esquecimento. O grande público hesita depois de ouvir o seu nome. Aladim. Aladim? Aquele da lâmpada? Não, o Aladim da grande área, do flanco esquerdo, do Grande Bangu, um homem que escolheu a paz ao invés do sucesso, dos milhões de cruzeiros e da eternidade.

Um dia foi aclamado como um dos principais ‘cobras’ do futebol brasileiro. Até esta honraria recusou. Hoje é Aladim Luciano, vereador por Curitiba. Os que cruzam com o político nas ruas curitibanas podem até saber o que ele fez pelo Coxa, time local. Mas será que sabem como o ponta guinou para a estradinha de terra do estrelato?

3 pensamentos em “A lenda de Aladim, um fora de série que não queria ser ídolo”

  1. Depois de aposentado, ele se integrou à vida do bairro que escolheu em Curitiba, o Bacacheri. É dono há muitos anos de uma panificadora com o nome dele. O Aladim vereador nasceu depois de anos como liderança na região.

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