O futebol salvou o resto da vida de Omar De Felippe, soldado nas Malvinas

Quando foi assinada a rendição, nós estávamos voltando da linha de frente. Caminhamos por oito quilômetros, mas foi um caos. Ainda que a guerra tivesse acabado, continuavam atirando na gente. Tivemos feridos e até mortos. Foi um grande descontrole. (Omar De Felippe, ao Canchallena, sobre a sua experiência nas Malvinas)

O zagueiro Omar Osvaldo De Felippe não tinha nem 20 anos, quando recebeu em abril de 1982, na sua casa, uma carta de convocação para a Guerra das Malvinas, que estourou no mês anterior entre Argentina e Reino Unido. As duas nações estavam batalhando pela soberania nos territórios das Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul.

Omar atuava pela base do Huracán e esperava uma chance como profissional, quando teve de se juntar às forças armadas de seu país. Naquele conflito, 649 argentinos perderam a vida. Ele conseguiu retornar para casa sem grandes problemas, mas as marcas da guerra ficaram em sua memória, três décadas depois.

Atuou também por Olimpo, Villa Mitre, Arsenal e Once Caldas. Se aposentou no fim da década de 1990, atuando no futebol colombiano. Como treinador, já teve passagens por Olimpo, Quilmes, Independiente e hoje está no Emelec. Antes de 2009, quando começou a ser um comandante efetivo, era assistente de Julio Cesar Falcioni, ex-treinador de Banfield e Boca Juniors.

São pouquíssimos os registros dos tempos de De Felippe como atleta. Sabe-se que não teve grande papel na zaga, tampouco conquistou algum título enquanto era profissional. É lembrado em sua terra pela carreira militar, que durou pouco mais de três meses, até a rendição dos argentinos ao Reino Unido, em 14 de junho de 1982.

Os seus relatos da linha de frente são cercados de orgulho, apesar do resultado da guerra. Sobreviveu a momentos tensos e tiros dos ingleses, sem falar nas bombas que esquivou. Sofreu com as baixas temperaturas nas Malvinas e o medo de nunca mais ver a família e os colegas. Por anos, se calou sobre a experiência como soldado, mas a pedido de um cinegrafista argentino que fazia um documentário sobre o tema, voltou a falar. Era necessário que os combatentes, e não meros cidadãos tratassem do assunto.

Para Omar, não parecia que o chamado para o combate iria se concretizar.

Pedi à minha mãe que se acalmasse, eu iria depois. Mas, às dez da manhã, eu já me apresentei ao regimento. Não pensei que iam me levar. Quando entrei, me deram o fardamento, me cortaram o cabelo. Parecia algo normal, não me disseram mais nada.

O constante estado de alerta mexeu com Omar, que voltou mudado das Malvinas. O mais perto que chegou da morte foi quando recebeu uma ordem do seu capitão para que deixasse seu posto. Segundos depois, uma bomba atirada pelos britânicos caiu no local.

O momento mais marcante dos conflitos, para Omar, foi a rendição. O que não necessariamente orepresentou um cessar-fogo por parte dos britânicos.

Juntaram nosso pelotão em Puerto Argentino para nos levar ao aeroporto. Na metade do caminho, iam nos desarmando. Isso foi devastador. Muito difícil. É uma mescla de raiva, ódio e dor.

Quando retomou a sua vida, encontrou motivação graças ao Huracán. Até hoje, o ex-defensor credita aos quemeros a sua recuperação psicológica após os horrores da guerra.

Eu não era tão bom. Não joguei em nenhuma seleção, mas o esporte me ajudou a seguir com a vida. Me deu a possibilidade de poder ser uma pessoa normal como qualquer outra, sem me esquecer que estive em um campo de batalha, experiência que muito me orgulha.

A carreira como treinador

Foto: Fantasma Rojo
Foto: Fantasma Rojo

De Felippe era o treinador do Olimpo que venceu a B Nacional em 2010, conseguindo uma vaga na elite argentina. No ano seguinte, ajudou o Quilmes a retornar para a primeira divisão. Por último, em 2014, estava à frente do Independiente que terminou em terceiro lugar na segundona, novamente conquistando o acesso de uma equipe.

Nesta temporada, o Emelec, treinado por ele, está na liderança do Equatoriano, após cinco rodadas. Se acabar campeão, será certamente uma das maiores vitórias do esporte. Mesmo que não seja, Omar já pode se considerar um vencedor. Poucos passaram pelo inferno de uma batalha armada e voltaram ao futebol para contar a história.

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