E se Alexandre Pires tivesse sido um jogador de futebol?

Eu não tenho culpa
De comer quietinho
No meu cantinho
Boto pra quebrar
Levo a minha vida
Bem do meu jeitinho
Sou de fazer
Não sou de falar
(Mineirinho — Só pra contrariar)

Digo trem bão, digo uai

Com essas palavras da abertura, o meia Alexandre Pires, de 18 anos, subiu para o profissional para jogar no Uberlândia, como o camisa 10 do time mineiro em 1994. Criado na base do Furacão Verde da Mogiana, faria a sua estreia no clássico contra o Uberaba. Os jornalistas se amontoaram na sala de imprensa para ouvir o que o novato tinha a dizer.

Entre frases feitas e rimas fáceis, o menino se mostrava ansioso para fazer seus gols e se transformar em ídolo do clube. Perguntado se tinha alguma identificação com o Uberlândia ou era torcedor, Alexandre emplacou: “É na escola da vida que a gente aprende a amar”. E então, em seu primeiro amor, o meia se destacou, mesmo com a sexta colocação no Estadual, beirando o rebaixamento para o Módulo II. Na Série C, a equipe passou raspando o acesso, obtido por Novorizontino e Ferroviária.

Olheiros do Flamengo observaram o seu futebol e ao fim do ano, levaram uma proposta à diretoria alviverde para tirar o jogador de lá. A despedida, já como ídolo, foi em uma entrevista coletiva no gramado do Parque do Sabiá. “O Uberlândia foi minha paixão atrevida, que pedi a Deus. Verdão, obrigado por tudo que você me deu”, disse aos prantos, antes de sair acenando a um grupo de torcedores que estava atrás da barreira de seguranças.

O samba não tem fronteiras

Novas juras de amor foram feitas pelo mineiro em seu desembarque no Rio de Janeiro. Jornalistas esperavam as contratações explosivas de Edmundo e Romário no aeroporto, quando se deram conta de que o jovem e desconhecido Alexandre Pires estava ali, no saguão.

Indagado sobre o privilégio de estar no Fla, a maior torcida do Brasil, o meia também respondeu de forma corajosa aos que falavam sobre a pressão de vestir a camisa rubro-negra. “Tão falando pra eu tomar cuidado, que eu posso sofrer. Eu não ligo, eu te quero, Fla. Eu assumo, eu pago pra ver. Nosso sonho não é ilusão”, sorriu simpático, mencionando o sonho de vencer o Brasileirão de 1995, no ano do centenário flamenguista. Infelizmente, Pires mal entrou em campo e o clube acabou o ano só com a Taça Guanabara. Foi emprestado ao Atlético Mineiro em 1996 e voltou para Minas Gerais.

Artilheiro do amor

Apresentado com certa festa em Belo Horizonte, Alexandre teria nova chance de mostrar seu valor. Era uma aposta do Galo, que contava com Euller, Renaldo Doriva e o goleiro Taffarel. No Mineiro, o título escapou na última rodada, em um empate contra o Uberlândia, no Parque do Sabiá: o Cruzeiro levou o caneco. Já no Brasileiro, a campanha acabou nas semifinais, contra a surpreendente Portuguesa.

Na saída de campo do 1–0 para a Lusa, em São Paulo, Alexandre pediu calma e reconheceu a dificuldade em superar o oponente. Mas botou fé na torcida atleticana para a revanche, no Mineirão. “A galera me disse que nunca viu a massa tão empolgada. Mas eles querem saber qual será a minha jogada. Eu sei que esse gol não será fácil de marcar”, emendou aos repórteres. Fez um dos gols do Galo, que acabou empatando em 2–2 e se despedindo da competição. A Lusa perderia do Grêmio na final.

Tantas boas atuações renderam elogios por parte da imprensa, que pedia o seu chamado à Seleção Brasileira, então treinada por Zagallo. O Velho Lobo ignorou o apelo popular e manteve Pires fora de suas listas. O que revoltou o jogador do Atlético. “Às vezes acho que estou treinando com o time errado. Bato falta com efeito, cobro escanteio, corro o campo inteiro, mas eu não sou convocado”, comentou à Globo, que fazia matéria no CT do Galo.

(Feijão) Você vai voltar pra mim

Ficou no Atlético até 1999, quando durante o Mineiro, foi vendido para o futebol japonês. Atuou quatro anos pelo Gamba Osaka, até 2003, sem vencer títulos. Vivia sendo protagonista de reportagens da TV, que retratava a sua vida longe do famoso prato de feijão. Fez uma declaração à culinária brasileira em uma aparição no Esporte Espetacular, em 2002. “Tô querendo te reencontrar, sinto a falta do teu arroz. Cada dia que passa sem coxinha, não dá pra pra segurar a dor. Sem churrasco sofri demais, sashimi já não sou capaz. Quero mesmo uma carne e um feijão, salsinha, frango e pimentão”, rimou o ‘Poeta de Osaka’, como ficou conhecido no Japão.

Eu não posso enfrentar esta dor

Tinha pré-contrato assinado para outra vez defender o Flamengo, seu time de infância, mas em um amistoso pelo Gamba, quebrou a perna após uma entrada violenta do zagueiro Tanaka, em maio de 2003. Sem a transferência para o Mengão, chamou a imprensa para falar sobre a sua lesão. “Como é que uma entrada assim machuca tanto? E toma conta de todo o meu ser. Foi uma solada intensa, até rasgou o meu meião, é a dor mais funda que o atleta pode ter”, dizia com a perna engessada e os olhos cheios de lágrima, clamando por um retorno ao Brasil.

Essa tal liberdade

Ficou fora até o fim do ano e no início de 2004, aos 28 anos, ganhou nova chance de jogar por uma equipe brasileira. Foi contratado pelo Internacional e precisou de duas semanas de descanso antes da estreia, por um caso grave de virose. “É um vírus que se pega com mil fantasias”, justificou à Rádio Gaúcha, quando voltou a treinar com o grupo e sofria com acusações de corpo mole. Passou a ser visto em bares e outras noitadas com colegas, o que irritou parte da imprensa local. Não agradou a ninguém em Porto Alegre. “Não sei se fico aqui ou mudo de cidade. Sinceramente, professor, não sei o que fazer. Eu andei errado, eu pisei na bola”, lamentou.

Fez apenas dois jogos e foi negociado no segundo semestre com o Cruzeiro, rival do Atlético, clube pelo qual teve bons anos antes de ir para o Japão. Na sua apresentação na Toca da Raposa, mais poesia e uma polêmica com a torcida cruzeirense. “Tô fazendo 1–2 com outra pessoa (no caso, Fred), mas meu coração vai ser pra sempre teu”, avisou aos atleticanos. Foi parte do time que terminou em um melancólico 13º lugar. Também, pudera: o esquadrão de 2003 se desmanchou após a Tríplice Coroa.

Tá por fora

Foi dispensado do Cruzeiro ao fim de 2004 e procurava um clube, quando, entrevistado pela Placar, se arrependeu da traição ao Atlético. “E depois acabou, ilusão que eu criei. Emoção foi embora e a gente só pede pro tempo correr. Já não faço mais gols, que será que eu falei? Dá pra ver nessa hora que o amor só se mede depois do prazer. Fica dentro do meu peito sempre uma saudade…” Mas ao contrário do esperado, voltou ao Rio para jogar no Fluminense, no início de 2005.

Prometeu ser campeão de qualquer coisa, a começar pelo Carioca. O Tricolor esperava a decisão contra o Volta Redonda, quando Pires falou no CT. “A verdade é que o Flu está do mesmo jeito, que está sofrendo tanto quanto eu. Teimosia é um defeito comum ao Abel Braga e eu. E pra essa dor, o único remédio seria uma taça a gente ganhar”. Ganharam o Estadual, mas perderam a final da Copa do Brasil para o azarão Paulista de Jundiaí, em São Januário.

A minha fantasia

Foto: Magia Rubro-negra
Foto: Magia Rubro-negra

A vida no Flu estava boa, Alexandre foi até citado na lista do Bola de Prata ao fim de 2006, quando em janeiro de 2007, o amor maior chamou outra vez. Apresentado com festa para 15 mil pessoas na Gávea, o meia regressou ao Flamengo, filosofando sobre sua passagem pelas Laranjeiras. “No Mengão tanta coisa acontece, só quem está dentro é que pode entender. Dessa vez eu não vou me fechar, não vou me esconder. Quero ser feliz, o Fla também, não devemos nada a ninguém”, comentou antes de ganhar sonoros aplausos e gritos de apoio da massa flamenguista presente.

Foi tricampeão carioca em 2007, 08 e 09, fazendo grande dupla com Petkovic no meio campo do time que arrancou para a glória do Brasileirão em 2009. Aos 32 anos, encerrava a carreira, homenageado pelos colegas durante a entrega da taça no Maracanã. “As histórias de amor que tivemos foram uma espécie de preparação. Nós ficamos amadurecidos e sábios de coração. Meu amor sempre foi o Mengão”, se debulhou em lágrimas em entrevista à Eric Faria, antes que Adriano chegasse para derrubar um balde de água e gelo na sua cabeça.

Premiado como melhor meia do Brasileirão, Alexandre encerrou seu ciclo com um belo resumo de sua trajetória de 15 anos: “Foi com a dor que aprendi a dar valor pro amor. Só quem já cruzou o deserto, saberá chorar em frente ao mar”, emocionando a plateia.

Colaboração de Matheus Rocha

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