Times memoráveis do Brasileirão: 1984, o Fluminense de Romerito

Aquele time se define como a atuação no jogo das semifinais contra o Corinthians em SP: um time organizado e unido pelo “simples” propósito de ser campeão, sem individualidades além das lembranças dos torcedores por seus jogadores preferidos. Esse time foi a grande glória de um grupo de desconhecidos que chegou ao clube no ano anterior. Pinçados de vários clubes menores, entitulado de “timinho”, e que provou em 1984 que seria uma dos maiores times da história do clube. (Carlos Eduardo Moura, torcedor do Fluminense, sobre a conquista de 1984)


Menos de uma década depois da ‘Máquina Tricolor’ liderada por Rivellino, o Fluminense voltou a brilhar no cenário nacional com o título do Campeonato Brasileiro em 1984. Com um time que não desfrutava de favoritismo e nem era considerado um grande concorrente, o Flu montou um elenco com paciência até levar a taça, consagrando excelentes jogadores para os anos seguintes.

A começar pelo goleiro Paulo Victor, vários outros jogadores ganharam projeção no país. Ricardo Gomes, Duílio, Aldo e Branco. Jandir, Delei, Romerito e Assis. Tato e Washington. Treinado por Carlos Alberto Parreira, o Flu de 1984 começou chutando baixo, ganhando jogos de forma discreta e eficiente. Quando embalou, foi difícil achar um adversário à altura.

Chaveado no grupo C ao lado de Ferroviário-CE, ABC-RN, Confiança-SE e Santos, o Flu terminou em segundo lugar, com 12 pontos, três a menos do que o Peixe, que passou por esta fase de forma invicta. Aliás, os santistas fizeram 20 gols e tomaram apenas três, em oito partidas.

Para a segunda fase, no Grupo A, o desafio ficou ainda maior. Ao lado de Bahia, Goiás e São Paulo, o Flu suou, mas conseguiu a liderança e uma das vagas para o estágio seguinte, ao lado do Goiás. Romerito ia se consolidar como o armador a partir da terceira fase, enquanto Washington fazia gols importantes na caminhada.

Na terceira fase, o cerco foi fechando e o Flu pegou Portuguesa, Operário-MS e Santo André. Com quatro vitórias e dois empates, a equipe das Laranjeiras conseguiu obter a classificação para as quartas de final, somando 10 pontos, marcando nove gols e sofrendo apenas um, em seis duelos. Destaque para o grande jogo diante da Lusa, que terminou em 4 a 2, com atuação irresistível de Romerito, que marcou duas vezes. A ‘nova máquina’ engrenou nas mãos de Parreira. Era hora do temido e empolgante mata-mata.

O brilho do Casal 20

Foto: Veja
Foto: Veja

Washington e Assis eram duas das principais esperanças do Flu contra o Coritiba, que ainda era montado para o ano seguinte. Pelas quartas de final, no Couto Pereira, um duro 2–2, que facilitou a missão dos cariocas para o Maracanã, dias depois.

O que nem o mais otimista esperava era uma aula de futebol do Flu ao Coxa, que não conseguiu manter a regularidade e foi atropelado no Rio. Assis, Washington, duas vezes, Renê e Romerito se encarregaram dos gols em um épico 5–0 para os tricolores. Para Washington e Assis, ídolos do Atlético Paranaense, derrotar um desmotivado Coritiba teve um gosto especial, empurrando o Fluminense para as semifinais.

A revanche de 1976

Se em 1976 o Corinthians invadiu o Maracanã e derrotou o poderoso Fluminense para chegar à final, oito anos depois a história não se repetiu. Os tempos eram outros e os novos ídolos tricolores deram o troco no Timão, que com Sócrates, Zenon e Casagrande não foi páreo para a explosão tricolor no primeiro duelo, realizado no Morumbi.

Novamente, Washington tinha motivação especial: passou anos antes pelo Parque São Jorge e não obteve sucesso. Queria provar aos corintianos que era um grande jogador. E conseguiu. Assis abriu o placar, de cabeça, e no segundo gol, Washington colocou Mauro no bolso com um chapéu sagaz antes de dar uma arrancada e finalizar. O goleiro Carlos rebateu e Tato completou, no cantinho. Tato, aliás, foi o grande jogador daquela partida, simplesmente endiabrado.

Um 0–0 no Maracanã encaminhou a vaga na final para o Fluminense, contra o Vasco, em um clássico de arrepiar. Para quem via o Corinthians como grande adversário, o cruzmaltino não seria problema, em tese. Mas a decisão de 1984, em dois duelos, seria resolvida no detalhe, no puro detalhe entre os rivais.

Romerito para a eternidade

Foto: Site oficial do Fluminense
Foto: Site oficial do Fluminense

O Vasco de Roberto Dinamite queria conquistar novamente o Brasil. Em 1974, o poderoso atacante estava no time que bateu o Cruzeiro, por 2 a 1, no Maracanã. Dez anos depois, de volta ao clube que o revelou após uma rápida passagem pelo Barcelona, o ídolo vascaíno não teria a mesma sorte diante do Flu.

Em 24 de maio de 1984, a partida foi de muita marcação e poucos erros. O Fluminense, melhor postado em campo, ditou o ritmo e tentou explorar a defesa adversária como se acostumou a fazer ao longo da campanha. Ainda no primeiro tempo, o Flu fez o gol do título, com Romerito, que em dois tempos, bateu Roberto Costa em rebote. O cruzamento foi de Assis, que mirou Washington, mas o centroavante não alcançou a bola para uma cabeçada.

Três dias depois, 128 mil pessoas lotaram o Maracanã para a finalíssima. Era matar ou morrer. Pressionado, o Flu esperou momentos de contragolpe para fazer o que sabia melhor, mas naquele dia, o destino era o 0–0. Os gols perdidos por Mário e Dinamite custariam caro.

Mais extravagante do que nunca, o goleiro Paulo Victor ousou em saídas do gol, dando bicões à frente da área. Mesmo com o caráter disciplinado do resto do time, o arqueiro deixou Parreira maluco com as suas intervenções malucas.

No segundo tempo, mais confiante, o Tricolor tomou conta e poderia ter goleado se fosse um pouco mais eficiente. Aírton salvou de cabeça, em cima da linha, a chance do gol que tiraria o placar do zero. Capricho divino, Flu campeão do mesmo jeito, pela segunda vez em sua história, com a marca dos gols do Casal 20, o talento dos coringas Jandir, Delei e Romerito, a regularidade do ponta Tato e a solidez da dupla de zaga Duílio e Ricardo Gomes, o apoio dos laterais Aldo e Branco.

Se soubessem antes o esquadrão que sairia daquele belo 1984, os torcedores do Fluminense teriam entrado na competição com enorme confiança. O Tricolor de Parreira foi de fato uma dessas boas surpresas do futebol.

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