Nossos gringos: Dejan Petkovic no Flamengo

E antes de o desespero tomar conta do Maracanã, Adriano entrou em ação. Após cobrança de escanteio de Petkovic e desvio de Airton, o atacante protegeu a bola da zaga e deixou para David encher o pé e dar ao empate aos rubro-negros. Cinco minutos depois, mais um gol colorado e a certeza de que só a vitória daria ao título ao Flamengo. (Terra, sobre a partida que deu o hexacampeonato brasileiro ao Flamengo, em 2009)

Quando Dejan Petkovic estourou no Estrela Vermelha de Belgrado no início da década de 1990, seu apelido era Rambo. A alcunha, pouco conhecida no Brasil, em sua grande fase, poderia ter servido para definir perfeitamente o estilo de um meia muito técnico e dono de um chute preciso, capaz de derrubar muros.

O atleta nunca cortou os laços com a Sérvia, sua terra natal, mas nunca retornou ao futebol de lá desde que resolveu tentar a sorte em outros países. Começou no modesto Radnicki Nis, mesmo clube de formação do seu ídolo, Dragan Stojkovic, ícone sérvio nos anos 1990.

Foto: GloboEsporte.com
Foto: GloboEsporte.com

Petkovic deixou o Radnicki e teve quatro bons anos no Estrela Vermelha, entre 1991 e 95 antes de tomar os rumos do sonhado Real Madrid, um dos maiores do mundo. No entanto, as coisas não vingaram para o rapaz em Madrid e ele acabou sendo emprestado para vários clubes a partir de seu segundo ano na Espanha.

Rodou por Sevilla e Racing Santander, até que o Vitória apareceu e representou a sua entrada no Brasil, onde conquistaria uma massa impressionante de torcedores. Tímido, de poucas palavras e com o nariz levemente amassado: este era o Petkovic que desembarcou na Bahia para ser um dos grandes reforços do Leão da Barra em 1997, trazido com dinheiro do Banco Excel, patrocinador da equipe soteropolitana.

O início de uma história vitoriosa

Parecia estranho que um sérvio viesse atuar no Vitória. E ainda um que tivesse destaque em seu país, mas estivesse tentando retomar o prestígio perdido por temporadas fracas na Espanha. Petkovic chegou quietinho e jogando bola, sofrendo com as altas temperaturas de Salvador. Aos poucos, a parceria com o matador Túlio deu certo. Mas tão certo, que o gringo ganhou o respeito como craque do time, enquanto esperava que novos clubes europeus fizessem alguma proposta para levá-lo de volta.

O sucesso veio definitivamente no Vitória durante o Brasileirão de 1998, quando virou ídolo da torcida e referência no meio-campo. Apesar do forte calor que atrapalhou o seu bom início, Dejan evoluiu bastante para virar um grande jogador naquele ano. Em outubro, a Revista Placar já o tratava como esperança de gols do Vitória (ver nº 1444, p. 44). Contudo, meses mais tarde, nem mesmo o então rico Excel conseguia arcar com as despesas para manter Petkovic no Barradão. Os 120 mil mensais, estratosféricos para a época, consumiam um quarto da folha salarial do Vitória, que acabou tendo de se desfazer do craque.

Passou um semestre no Venezia, outro período para esquecer. Eis que em 2000, o Flamengo abriu as suas portas para receber o sérvio. Ali começava um casamento cheio de altos e baixos, mas com o final feliz. Incontestavelmente feliz.

Outra vez rubro-negro

No Flamengo, os tempos seriam memoráveis. Apesar da chegada sem impacto, já que o clube carioca pretendia trazer um pacotão de reforços de peso com o apoio da investidora ISL, Petkovic conseguiu seu espaço em um time que frustrou a torcida. Esperava-se que Ronaldo, Batistuta, Seedorf e Rincón aparecessem na Gávea, mas um quinteto bem menos prestigiado acabou integrado ao elenco em março de 2000. Ao lado de Pet, chegaram o atacante Catê, ex-São Paulo, o lateral peruano Jorge Soto, o atacante Tuta e o meia Lúcio.

A realidade bateu como uma pedra na cabeça do torcedor flamenguista, que apesar das promessas faraônicas, acabou vendo nomes de respeito como Gamarra e Alex com a camisa do Fla, ainda que por pouco tempo. Infelizmente para ele, em 2000, o rubro-negro não conseguiu deslanchar e ficou fora dos oito que avançaram para a segunda fase da Copa João Havelange. No Estadual, meses antes, o Flamengo venceu o Vasco, mas o sérvio pouco fez na campanha.

2001: o ano que consagrou Pet

Foto: UOL
Foto: UOL

A final do Carioca de 2001 é um dos momentos mais incríveis da carreira de Petkovic e certamente povoa o imaginário do flamenguista. Em novo duelo contra o Vasco, liderado por Romário e Juninho Paulista, o Flamengo levou o tricampeonato estadual e de quebra, enterrou de vez o rival, que via acabar ali a sua fase mais vitoriosa.

Até os 43 minutos do segundo tempo da finalíssima, o Vasco estava sendo campeão, finalmente rompendo o domínio do Flamengo, mesmo perdendo por 2–1. Dono de melhor campanha, o time da Colina tinha feito a lição de casa no jogo anterior, mas os comandados de Zagallo conseguiram a reação para levar o caneco mais uma vez para a Gávea. Era preciso apenas mais um gol. Edílson estava brilhando e marcou os dois do Fla: um de pênalti e outro de cabeça, com assistência fenomenal de Pet, num passe açucarado.

Aos 43 do segundo tempo

Eis que, aos fatídicos 43 minutos, uma falta selou o destino daquela competição. O dono da camisa 10 que fora de Zico no passado, encarnou como deveria a simbologia do número que levava nas costas. Do outro lado, nervoso e esperando o apito final, o Vasco cometia muitas faltas para parar o jogo e matar o tempo. Naquela em especial, o feitiço virou contra o feiticeiro.

De longa distância, Petkovic se ajeitou para mais uma cobrança, que era a sua especialidade. Bateu e pegou com jeito, criando uma curva maléfica até o ângulo da meta de Hélton: 3-1, Flamengo campeão. E tome correria do sérvio até a ponta esquerda do gramado, onde comemorou com a torcida e sentiu todo o calor da nação rubro-negra. Também pudera, foi um tremendo golaço.

A primeira despedida

Em 2002, Pet deixou o Flamengo e foi jogar justamente no Vasco, sem grande sucesso. Sem apresentar o futebol que o fez famoso no Brasil, o meia viajou bastante até retornar à Gávea em 2009, apenas com o status de ídolo em fase decadente, com 37 anos. Jogou por Shanghai Greenland, Al-Ittihad, Fluminense, Goiás, Santos e Atlético Mineiro antes de sua passagem definitiva pelo Flamengo.

Veio como forma de pagar uma dívida do clube, que lhe devia dinheiro. Como estava perto da aposentadoria, aceitou voltar para vestir a camisa 43, que representava seus 43 gols pelo Fla, sem falar na referência clara ao golaço de 2001 diante do Cruzmaltino.

Curiosamente, toda a raça e o talento ainda estavam com ele, que ao lado de Emerson e Adriano ajudaram um desacreditado time a arrancar para o título do Brasileiro, deixando o Internacional para trás na reta final. Antes disso, o Palmeiras era o favorito, mas escorregou e perdeu toda a sua vantagem em um momento crucial.

2009: o último título

Foto: Eu sou Flamengo
Foto: Eu sou Flamengo

Petkovic encarnou novamente o espírito de um legítimo meia-armador. O sérvio voltou à boa fase e foi fundamental ao longo da campanha. Contra o Palmeiras, em pleno Palestra Itália, fez os gols da vitória flamenguista por 2–0. O primeiro gol, espetacular, saiu de uma jogada individual: o gringo carregou para dentro da área e não foi desarmado por nenhum dos três marcadores que o cercavam. Emendou um chutaço na gaveta de Marcos e correu para o abraço. No segundo tempo, Dejan bateu um escanteio à meia-altura e surpreendeu o goleiro alviverde, que não contava com o chute e nem com a furada de um defensor, à sua frente. Era o início da derrocada palmeirense no Brasileiro.

No jogo que valeu o hexa para o Fla, contra o Grêmio, os dois gols saíram dos pés de Petkovic. Mesmo com o Tricolor saindo na frente, com Roberson, o Maracanã explodiu em comemorações ao fim da rodada, celebrando uma conquista que não vinha desde 1992. David Braz abriu o placar em rebote da defesa. No segundo tempo, Petkovic cobrou escanteio na cabeça de Ronaldo Angelim, que marcou pela primeira vez naquele Brasileirão, justo quando valia um caneco.

Petkovic jogou até o fim de 2010 e foi afastado pela diretoria, após novo impasse contratual. Ganhou uma homenagem e fez sua partida final contra o Corinthians, em junho de 2011, pelo Brasileiro. O duelo terminou empatado em 1–1, selando a aposentadoria do ídolo, aos 38 anos.

Títulos pelo Flamengo
Campeão Brasileiro: 2009
Campeão Carioca: 2000 e 2001
Campeão da Copa dos Campeões: 2001

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *