Bochini, à sombra dos grandes craques argentinos

Com cinco minutos restantes na semifinal da Copa de 1986 contra a Bélgica, então vencida pela Argentina por 2–0, Ricardo Bochini entrou na vaga de Jorge Burruchaga. Ele estava com 32 anos e foi esquecido pelas seleções de 1978 e 82. Naquele momento, no entanto, Maradona exigiu que ele fosse convocado. Estes cinco minutos seriam os únicos de Bochini em Copas do Mundo. Enquanto ele vinha correndo para dentro do campo, Maradona veio a seu encontro e apertou a sua mão. “Maestro, estivemos esperando por você”. (The Guardian, sobre a breve atuação do meia em Copas)

Mario Kempes. Ídolo e craque da primeira conquista mundial da Argentina. Atacante de puro faro de gols, habilidoso e criador de jogadas eficientes e plásticas. Foi o camisa 10 da Albiceleste em 1978 e artilheiro daquela Copa, entrando para a eternidade do futebol argentino. Foi revelado pelo Instituto, passou por Rosario Central, Valencia, River Plate, Hércules, First Vienna, St. Pölten, Kremser, Fernández Vial e Pelita Jaya, este último na Indonésia. Parou em 1996.

Diego Maradona. Maior jogador que a Argentina já viu, rivalizando com Alfredo Di Stéfano. Estrela incontestável da Copa de 1986, vencida pelos argentinos. Matou a Inglaterra praticamente sozinho, em dois gols geniais e cruéis nas quartas de final. No primeiro deles, desviou com a mão um cruzamento para o gol. No segundo, driblou cinco ingleses para balançar as redes no lance mais icônico daquele torneio. Há quem diga que foi o gol definitivo das Copas. Jogou pelo Argentinos Juniors, Boca Juniors, Barcelona, Napoli, Sevilla e Newell’s. Parou em 1997.

Rei do Independiente, esquecido pelas Copas

Bochini posa com as duas taças do Mundial pelo Rojo / Foto: El Cordillerano
Bochini posa com as duas taças do Mundial pelo Rojo / Foto: El Cordillerano

No meio destes dois gigantes do esporte, esteve Ricardo Bochini. Sem o mesmo prestígio dos outros camisas 10. Sem a fama e o reconhecimento de Osvaldo Ardiles e Ricardo Villa, que brilharam pelo Tottenham, sem o respeito do defensor Daniel Passarella e de Daniel Bertoni, importantes atletas da Fiorentina, ou até mesmo do goleador Jorge Valdano, que encerrou a carreira jogando pelo Real Madrid.

Bochini foi o maestro do Independiente e jogou toda a sua carreira no Rojo, de 1972 a 1991. Tinha um estilo clássico de armar as suas ofensivas. Responsável por colocar a bola no pé ou na cabeça dos atacantes, o pequeno e calvo camisa 10 era capaz de reduzir a velocidade do jogo para encontrar uma alternativa entre tantos marcadores e espaços fechados no campo.

Ganhou cinco vezes a Libertadores (a primeira como mero integrante do plantel, reserva de José Pastoriza), duas vezes o Mundial Interclubes (autor do gol do título no segundo, ante a Juventus em 1973), uma vez a Copa do Mundo, esta apenas como mero passageiro contra a Bélgica, nas semifinais. O maior mérito de Bochini, contudo, não foi nenhuma destas taças. O atleta era o grande ídolo de Maradona, um monstro da bola que dispensa apresentações.

Poderia ter muito bem jogado ao lado de Kempes em 1978, ou mesmo do próprio Maradona em 1986. Mas teve o azar de ser contemporâneo de craques que tinham mais cartaz fora da Argentina. Em seu país, é respeitado como um legítimo talento, seu currículo não permite que seja contestado. Ainda assim, foi completamente esquecido em pelo menos três Copas.

A vez de Bochini nunca chegou

Em 1974, por exemplo, perdeu o lugar para Carlos Babington. Em 1982, se viu preterido em relação à Norberto Alonso. Em 1986, já veterano, apenas esteve no México por exigência de Maradona a Bilardo. Azar da Argentina, que não premiou um fina estirpe como Ricardo, retrato da elegância que vestia a camisa vermelha do Independiente e honrava como poucos a história de um clube como o Rojo.

O mundo não conseguiu conhecer a sua famosa técnica, ‘la pausa’. Bochini não era bonito, muito menos carismático, não era midiático e nem propenso a ser garoto propaganda de qualquer marca. Se comportava como um funcionário público qualquer. Fazia seu trabalho, sem sorrisos ou firulas. Sua função era fazer passes, dar assistências, e isso era realizado com louvor.

Nos 19 anos em que reinou em Avellaneda, encantou e conquistou uma legião de torcedores. Ao carregar cada bola, a cada assistência, a cada gol e cada mágica. E sim, fora de campo, você poderia confundir aquele nanico com um pacato cidadão argentino, porque ele parecia tudo, menos um futebolista.

Bochini foi (quase) tudo que o futebol permitiu que ele fosse. Mas o mundo, pobre mundo, não lembrará dele como lembra de Kempes e Maradona, simplesmente porque o tempo se encarregou de colocá-lo em um lugar equivocado da história.

Ou, pode-se ainda seguir pela ótica de que apesar de Maradona, Kempes, Ardiles, Passarella, Valdano e Burruchaga, existiu um pequeno valente chamado Ricardo Bochini, protagonista dessas histórias que falhamos em conhecer a fundo. A Copa do Mundo pode ter ignorado as suas façanhas, mas o torcedor do Independiente jamais o fará.

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