A triste decadência do Hansa, último campeão da Alemanha Oriental

Enquanto as equipes alemãs do Ocidente são coroadas com títulos europeus, o futebol na divisão do Oriente amarga o esquecimento, apesar de nunca ter perdido para a maior rival do Ocidente. O futebol alemão, junto com o país, ficou dividido de 1949 até 1990. Os orientais jogavam a Oberliga, e os ocidentais, a Bundesliga. As duas ligas só se uniram na temporada 1991/92. Os dois melhores times da Oberliga se juntaram aos 18 da Bundesliga na criação de uma liga nacional. (Guia dos Curiosos, sobre o triste destino dos clubes do lado comunista do muro)

Penteados com mullets ao vento. Bigodes de respeito. Camisas extravagantes e futebol rudimentar. Esperança e novas oportunidades. Este era o cenário na Alemanha em 1991, dois anos após a emblemática queda do Muro de Berlim. Com os dois países reunificados, o futebol também precisou se adaptar à geopolítica vigente.

Na última competição da Öberliga, que contemplava apenas os times da RDA (República Democrática da Alemanha, comunista), o Hansa Rostock conquistou o título e ganhou o direito de disputar a Bundesliga ao lado dos cachorros grandes. Contudo, as coisas nunca mais foram bem-sucedidas para a equipe portuária.

A largada para a glória

Foto: Guia dos Curiosos
Foto: Guia dos Curiosos

Quando a temporada de 1990–91 começou, os clubes já sabiam que passariam por um duro período de transição. A Alemanha voltou a ser uma só em outubro de 1990, para romper as suas mazelas sociais de décadas anteriores. Em uma votação popular, os cidadãos do lado comunista optaram pela reunificação dos países, encerrando assim uma era de opressão e perseguição a fugitivos por parte da Stasi, a polícia secreta local.

E assim, 14 clubes disputaram a Öberliga com objetivos distintos. Eles seriam separados em várias ligas a partir daquele momento. Os dois primeiros ganhavam acesso à Bundesliga, disputada a unhas e dentes por Bayern de Munique, Werder Bremen, Stuttgart e outros dinossauros alemães. Os outros, seriam separados pela segunda divisão alemã e outras regiões.

O campeão Hansa teve como destaques o zagueiro americano Paul Caligiuri, (que disputou duas Copas do Mundo, em 1990 e 94) o capitão Juri Schlünz e os atacantes Florian Weichert e Henri Fuchs, este, artilheiro da equipe na competição, com 11 gols, nove a menos do que o goleador Torsten Gutschöw, do Dynamo Dresden, vice-campeão.

Treinado por Uwe Reinders, o Rostock dominou seus adversários e perdeu apenas quatro vezes até o fim. Empolgou com um ataque perigosíssimo e jogadas que fugiam ao estilo robótico praticado pela seleção campeã do mundo em 1990. Não que acreditemos que a Alemanha jogava ‘algo parecido com o futebol’, expressão famosa pela boca de Galvão Bueno. Mas há de se acrescentar que, em comparação ao praticado em 2014, a técnica fala mais alto do que a aplicação tática e a eficiência.

O duelo com o Dynamo Dresden, que defendia o título naquela temporada, deu emoção ao campeonato, que teve diferença de apenas três pontos do líder para o vice (35 contra 32). Ambos fizeram a transição para a tradicional Bundesliga. Era acima de tudo uma batalha do norte contra o sul, decidida nos mínimos detalhes. No saldo, o Dynamo foi superior. Marcou 48 e sofreu 28, contra 44:25 do Hansa.

Tira-teima contra o Dresden

Penteados maravilhosos /  Foto: Site oficial do Hansa
Penteados maravilhosos / Foto: Site oficial do Hansa

Em 4 de maio de 1991, os dois se enfrentaram para decidir o caneco, restando três rodadas para o fim da competição. No primeiro turno, em Dresden, empate por 0–0. Foi no tira-teima que o Hansa superou o rival e garantiu o acesso com certa antecedência.

Cerca de 17.500 torcedores estiveram no Ostseestadion para prestigiar um imponente 3–1 para os mandantes. Schlünz fez o primeiro aos 15 minutos e viu o artilheiro Gütschow empatar, aos cinco da etapa final. Contudo, era finalmente a hora de vencer. Schlünz, novamente, e Fuchs, deram números finais ao duelo. Quando o juiz Karl-Josef Assenmacher apitou pela última vez, o Ostseestadion foi tomado pela euforia do título, o primeiro do Hansa.

A dobradinha

É correto dizer que a temporada de 1990–91 foi a melhor de toda a história do Rostock. Um mês depois de sair da fila na Öberliga, o clube conquistaria mais um, na Copa da Alemanha Oriental, em decisão contra o Stahl Eisenhüttenstadt. O gol decisivo foi do meia Jens Wahl, aos 43 minutos da primeira etapa. A dobradinha é lembrada como a grande façanha da agremiação, que foi fundada em 1954 como Sportclub Empor Hostock e transformado em FC Hansa Rostock onze anos depois.

O último título dos Hanseaten foi em 1995, pela segunda divisão da Bundesliga. O clube se segurou na elite por dez anos, até ser rebaixado em 2005. Está desde 2012 na terceira divisão alemã, vivendo apenas das doces memórias de 1991, quando mandou no lado oriental da Alemanha.

Abaixo, um documentário sobre o título de 1991. O único problema é que está em alemão, sem legendas: 

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