Times memoráveis do Brasileirão: 1985, o Coritiba de Lela

O ambiente era melhor que hoje. Nem entre eles se reúnem. A gente fazia churrasco toda semana, chamava a família, isso dentro do Couto Pereira. O Evangelino mandava a gente comprar carne e cerveja. A roupa suja a gente lava ali. Hoje não tem mais isso. Ambiente é tudo. Ambiente, união, garra, vontade. A camisa do Coritiba pesa. Eles (do Coxa em 2015) têm que saber que debaixo daquela camisa já passaram grandes jogadores. Eles carregam uma estrela de campeão brasileiro no peito. (Rafael, goleiro do Coritiba, em entrevista a Rodrigo Salvador, no ‘Quinta Coluna’, do ESPN FC)

Há exatos 30 anos, o Coritiba conquistava o maior título da sua história. Diante do Bangu, no Maracanã lotado, a equipe paranaense ergueu o primeiro Campeonato Brasileiro do estado, façanha que foi repetida apenas em 2001, pelo rival Atlético Paranaense.

O início na competição, que previa dois grupos de dez clubes em sua maioria das regiões sul e sudeste, foi complicado para o Coxa. Com uma campanha frágil, o alviverde avançou à segunda fase com o cartel humilde de três vitórias, um empate e seis derrotas, na oitava colocação da chave A da Taça de Ouro.

A arrancada veio mesmo no returno, quando o Coritiba se acertou e foi o vencedor da mesma chave, conseguindo uma vaga para a terceira fase, somando cinco vitórias, dois empates e três derrotas. Aos trancos e barrancos, a terceira fase foi mais produtiva para a equipe herdada por Ênio Andrade. A base, que persistiu até a decisão contra o Bangu, consistia em: Rafael, André, Gomes, Heraldo e Dida; Almir (Vavá), Marildo (Marco Aurélio) e Tóbi; Lela, Índio e Édson.

Para o treinador, que havia sido campeão com o Inter em 1979 e com o Grêmio, em 1981, a união do elenco, somada à consistência nas fases finais, facilitou o trabalho e a caminhada até a decisão. A juventude da maioria dos onze titulares, somada à experiência de Rafael, Almir, Heraldo e Jairo. A surpresa foi o atacante Lela, que fez gols importantes durante a campanha. Índio, o camisa 9, também aprontou das suas. Tóbi, o motorzinho do meio-campo, infernizou marcadores, rodada a rodada.

Foto: GloboEsporte.com
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Chaveado ao lado de Corinthians, Joinville e Sport, o Coxa conseguiu a primeira colocação com oito pontos, três vitórias, dois empates e uma derrota, para o Corinthians, com gol de Wladimir, no Pacaembu. A velocidade e a eficiência nos contragolpes era uma das armas mais utilizadas pelo esquema de Ênio, que se valeu da agilidade de Lela e Édson para descer até a área adversária.

As temidas semifinais

Desta forma, o Coritiba estava nas semifinais. Deixou grandes para trás nas fases anteriores. E em dois duelos contra o Atlético Mineiro, o Coxa fez valer a sua força na condição de surpresa da competição. Jairo, ídolo da torcida dos anos 1970, acabou substituindo Rafael, salvou o time em uma descida perigosa do Galo, ainda no primeiro tempo, em tabela de Reinaldo com Sérgio Araújo.

Um apagão no primeiro tempo barrou a ofensividade dos mineiros, que depois foram dominados pelos mandantes na segunda etapa. As melhores chances vieram do Coxa e Tóbi foi um dos mais ativos em campo. O gol solitário daquela noite de Curitiba saiu dos pés de Heraldo, que pegou um rebote para vencer João Leite e sacramentar a vitória coxa-branca no Couto Pereira.

A volta, em Minas, reservou outro grandíssimo duelo, que apesar das boas chances de gol, acabou em 0–0, classificando os paranaenses para a decisão. Do outro lado, o Bangu, que vinha forte e empurrado por grande investimento do bicheiro Castor de Andrade. Liderado pelo atacante Marinho, o hoje modesto clube carioca tinha a ambição de levantar a taça e para isso, levou mais de 90 mil torcedores às bancadas do Maracanã.

Uma final justa, acima de tudo

Foto: Cultura Mix
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Em campo, o Bangu era o favorito. Mandante e com melhor campanha para o jogo único da decisão, o alvirrubro vinha empolgado após duas vitórias contra o Brasil de Pelotas, outro azarão.

Índio encheu o pé no ângulo de Gilmar, após uma falta cometida em Tóbi, aos 26 minutos do primeiro tempo. Dez minutos depois, Lulinha bateu de fora da área e contou com desvio para vencer Rafael, 1–1. A partida seguiu lá e cá até que Marinho virou, mas o árbitro anotou posição irregular e anulou o que seria o gol do título.

Encerrados os 90 minutos, os dois adversários submeteram a torcida local a mais 30, na prorrogação, para que conhecêssemos o campeão nacional. E ele veio nas penalidades, selando destinos distintos para Rafael e Ado, personagens daquela disputa. O placar anotava 5×5 quando Ado foi para abrir a série alternada. Ali, pouco importou que o atacante tivesse feito um grande Brasileirão. A bola caprichosamente tomou o rumo da esquerda, longe da trave, deixando aberto o título para o Coritiba.

Gomes, que já sabia o que era ser campeão brasileiro, depois de ter vencido em 1978 com o Guarani, mandou no canto direito e saiu para o abraço. Abraço esse que, 30 anos depois, parece nunca ter acabado. O futebol paranaense relembra o seu pioneiro e celebra uma data importante para valorizar a sua história, escrita pelos heróis que não se intimidaram com um Maracanã lotado para levar o caneco ao Couto Pereira.

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