Manga, o gigante inocente e gentil

Entre as muitas histórias, há uma acontecida em sua primeira viagem à Europa. No aeroporto de Madrid, ele leu uma ficha na entrada do país: “Apelido” (nome, em espanhol). Escreveu: Manga. Mais embaixo, “Nombre del padre”. Benzeu-se. (Revista Placar, em 1975, sobre a ingenuidade de Manga)

Muito antes de Vampeta publicar um livro com as melhores histórias de sua vida (e de outras pessoas, claro), Manga, então goleiro do Internacional, estava vivendo um grande momento da carreira, defendendo as cores do Colorado, em 1975. Grande arqueiro brasileiro da década de 1970, o pernambucano tinha fama de ser um pouco mais ingênuo do que o jogador médio daquela época. Para se ter uma noção, Garrincha, um célebre craque e não exatamente o mais cerebral, chamava-o de burro, nos tempos em que dividiram quartos na concentração do Botafogo. Isso de acordo com Nilton Santos, observe-se.

Foto: GloboEsporte.com
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É bem verdade que muitas mentiras foram contadas sobre Garrincha, para que a sua reputação de ignorante e por muitas vezes inocente fosse propagada. Com Manga, um monstro da meta, não era diferente. Tanto que em 1975, a Revista Placar relembrou alguns momentos curiosos da carreira do gigante. Entrevistas de Nilton Santos, Sandro Moreyra e outros profissionais que trabalharam com Manga consolidaram um perfil mais descolado e bem-humorado de um dos maiores atletas da história do esporte. Causos que consolidaram a imagem de trapalhão do recifense.

Foi campeão por TODOS os clubes que passou: Sport (tricampeão pernambucano), Botafogo (campeão da Taça Brasil, tetracampeão carioca, tricampeão do Rio-São Paulo), Nacional (tetracampeão uruguaio, campeão da Libertadores e do Mundial), Internacional (tricampeão gaúcho, bicampeão brasileiro), Operário (campeão matogrossense), Coritiba (campeão paranaense), Grêmio (campeão gaúcho) e Barcelona de Guayaquil (campeão equatoriano).

Se dentro de campo Manga era conhecido por sua frieza e pelos reflexos incríveis, defesas memoráveis e milagres, fora dele, constantemente era alvo de golpes e de mau caratismo de pessoas próximas, tal qual Garrincha.

A construção de uma lenda

Foto: GloboEsporte.com
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Manga foi revelado na segunda metade da década de 1950, no Sport. Com boa estatura e firmeza para salvar chutes de curta distância, Haílton Corrêa de Arruda passou quatro anos defendendo o Leão antes de assinar com o Botafogo, que vivia uma era dourada em 1959. No Bota, ele atuou com gênios como Quarentinha, Nilton Santos, Garrincha, Jairzinho, Gérson e Zagallo. Ficou no Rio de Janeiro até 1968, onde ganhou projeção internacional e virou personagem de boas histórias.

Apesar de sua saída conturbada do Botafogo, acusado de ter sido comprado pelo bicheiro Castor de Andrade, patrono do Bangu, na decisão estadual de 1967, Manga foi ídolo e por muito tempo dividiu quarto com Garrincha. A experiência, segundo ex-companheiros, foi hilária.

Manga não era de guardar muito dinheiro e precisou jogar até os 45 anos de idade para poder sobreviver em um padrão aceitável para um atleta. Ganhou pouco no início da carreira e certamente perdeu grande parte de sua ‘fortuna’ nas mãos de gente desonesta. A inaptidão para gerenciar finanças fez de Manga um alvo fácil dos espertalhões. E mesmo quando poderia ser beneficiado, acabou não enxergando formas de levar vantagem.

O contrato da discórdia

Certa feita, iria renovar contrato com o Botafogo, em algum momento na década de 1960. Estava disposto a forçar um aumento no seu salário. Ganhava cerca de 1.800 cruzeiros, de acordo com a Placar, e buscava receber por volta de 2 mil. Como estava irredutível, Manga não quis dar tempo para que o diretor do Bota argumentasse para dissuadi-lo da ideia. Bateu o pé e pediu os tão desejados 2 mil cruzeiros, com uma estranha teimosia. Mal sabia que a proposta do clube girava em torno de 3 mil. Recusou ouvir qualquer palavra do cartola e fechou contrato, sem conversa e nem ‘mas’. No valor de 2 mil cruzeiros.

Brigas com o gerente do banco

Todos nós já tivemos problemas com o nosso banco. Com Manga, em 1960, 70 e 80, não era diferente. Quando ainda atuava pelo Botafogo, precisou pedir um empréstimo, mas o clube de General Severiano estava em uma situação financeira delicada. Foi então ao banco, acompanhado de um dos dirigentes do Glorioso. Precisava de 500 cruzeiros e recebeu um pouco menos que isso, em virtude do abatimento de juros no ato.

Manga ficou revoltado por não receber o que pediu e discutiu com o gerente, até sair do banco, resignado, com o dinheiro no bolso. Quando foi cobrado pela entidade, meses depois, queria pagar exatamente o que recebeu no empréstimo. A dívida era de 500 cruzeiros e custou muito tempo e explicações para que os bancários convencessem o pobre goleiro a devolver a quantia exata. Não houve uma vez que Manga voltasse à agência para resolver outros assuntos e não chamasse o gerente em questão de ladrão. A vida tem dessas.

João Saldanha armado e destemido

Depois da polêmica final do Carioca de 1967, contra o Bangu (2–1 para o Fogão), Manga optou por sair do Brasil em 68 para apagar a pecha de ‘vendido’ que a imprensa local lhe colocou. Antes disso, já tinha se envolvido em polêmica com João Saldanha, que atuava como comentarista e lhe acusou de ter recebido propina de Castor para ajudar o Bangu. Como o goleiro falhou algumas vezes na partida decisiva no Maracanã, a teoria de Saldanha ganhou força.

Eis que jornalistas começaram a instigar a polêmica e levaram a versão de Saldanha até Manga, que não quis declarar que iria brigar e muito menos se deixaria a poeira abaixar. Na festa do título do Botafogo, dias depois, Saldanha apareceu armado, motivado por uma história de que Manga teria contratado capangas para agredi-lo, algo que Castor já havia feito anteriormente.

Escondido e na surdina, João encontrou Manga no estacionamento da sede náutica do Bota, sacou o revólver, proferiu ameaças de morte e atirou para o chão, para intimidar o arqueiro. Manga então correu desesperado e saltou o muro do local num só salto, para fugir das balas. Saldanha sabia que muitos repórteres estavam no recinto e queria causar um rebuliço amedrontando o goleiro. Deu certo.

A vida em Montevidéu

Vendido para o Nacional ao fim de 1968, Manga foi ídolo da torcida tricolor até deixar o país, em 1974. A ideia do Botafogo era colocar o goleiro no Atlético Mineiro, mas o Bolso acabou fazendo uma proposta melhor e contratou o camisa 1. Manga interrompeu a série de conquistas do Peñarol e foi campeão da Libertadores e do Mundial Interclubes, em 1971, com várias marcas impressionantes.

A rivalidade com os carboneros, aliás, transformava Manga em um paredão, assim como fazia com o Flamengo em temporadas anteriores. O Nacional chegou a ficar 16 jogos consecutivos sem perder do Peñarol em jogos pelo Uruguaio. Há quem diga no Uruguai que Manguinha, como gostava de ser chamado, era melhor do que o lendário Ladislao Mazurkiewicz, arqueiro da Celeste em três Copas do Mundo. O brasileiro saiu do clube laureado com diversas conquistas e uma façanha: marcou um gol da sua área contra o Racing de Montevidéu, a 81 metros de distância da outra baliza, no Uruguaio de 1974.

A reta final da carreira

Foto: Imortais do Futebol
Foto: Imortais do Futebol

Manga atuou em quatro décadas diferentes. Começou em 1955 e só foi parar em 82, pelo Barcelona de Guayaquil. Já com idade avançada e depois de erguer o bicampeonato brasileiro pelo Inter e ser aclamado como o maior goleiro da história do clube, passou por Operário-MS, Coritiba e Grêmio, no Brasil. Foi para o Equador, em 1981, e ficou duas temporadas, até findar um ciclo extremamente vitorioso.

Curiosamente, Manga atuou em apenas uma Copa do Mundo, sendo titular em 1966, na malfadada campanha que se acabou diante de Portugal, ainda na primeira fase. O pernambucano era contemporâneo de goleiros fenomenais como Gylmar e Castilho, o que lhe impediu de ter boas chances pela Seleção. Em 1967, já não era mais convocado. Assim como grande parte da geração de 66, foi culpado pelo fracasso na Inglaterra, depois de falhar em alguns gols.

A dedicação ao futebol foi tão grande que Manga se aposentou com vários dedos tortos, resultado de várias fraturas as quais ele ignorou para continuar atuando. As dezenas de taças lhe deram razão: mesmo quebrado, o arqueiro persistia em estar debaixo das traves para fazer o seu trabalho. E desde então, poucos goleiros tiveram tanto sucesso quanto ele…

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